segunda-feira, agosto 31, 2009

SEM #32
Ainda bem que estava meio adormecida durante as despedidas finais. O coração estava mais calmo e a alma ainda descansada. A cabeça, anestesiada, não nos incomodou. Quase que não reparei que se tinham ido embora para longe. Por muito tempo.
O tempo podia ter sido mau nos meus olhos, mas tivemos sorte, o amanhecer trouxe um céu limpo no nosso sorriso.
Afortunada. Mudaremos este final. Havemos de nos encontrar de novo, a meio caminho.


Fim

domingo, agosto 30, 2009

SEM #31
Foi a última noite e as horas eram preciosas. Não dispensámos o passeio nocturno e acabámos junto ao rio. O sol acabara de se deitar, sentámo-nos na ponte e tentámos não nos perder. A conversa fluiu, como sempre. Seguiríamos o curso do rio e cada uma de nós chegaria a casa algum tempo depois. Avisaram-me para ter cuidado e não virar à esquerda num certo cruzamento ou não chegaria ao meu país. Recitou-se um poema sobre o mar numa lingua que não compreendo, mas cuja musicalidade encanta. Faltou-me a memória para um poema de casa, mas não esqueci as histórias. Sentámo-nos de costas para a cidade e despedimo-nos. Cantou-se e aprendemos a contar tempos bizarros. O frio apertou e as mãos tornaram-se instrumentos de sopro sem vergonha na noite aberta desta cidade que nos acolheu. Rimo-nos. Há tanto mais a aprender aqui, com esta gente. Um dia, quem sabe, passearemos de novo junto a um rio pela noite. Noutro lugar. Talvez então já terei um poema para a ocasião.

sábado, agosto 29, 2009

SEM #30
Não vem escrito em lado nenhum. Inventam-se os livros de viagens, que aconselham todos os hoteis e restaurantes, os monumentos e museus essenciais ao turista e, quem os segue, sentes-se satisfeito por ter cumprido o programa e conhecer em profundidade o país. Mentira. As fotografias e o dinheiro gasto não chega. É preciso escavar, ir pelos caminhos estreitos, às terras escondidas e é preciso perder-se.
Perdemo-nos entre as gentes da pequena cidade. Uma rua enfeita-se de bancas onde cada família cozinha para nós. O prato é o mesmo, o entusiasmo o mesmo, o sabor tenta diferir para ganhar o concurso. São muitos tachos a cozer ao longo da rua, mas não é o que mais fascina. Sinto-me convidada em casa alheia. As famílias cruzam-se, cumprimentam-se, servem-se os pratos sem pedir nada em troca, traz-se mais farnel de casa, as crianças juntam-se à mesa e uma banda popular canta músicas do país vizinho, um irmão de armas e de história mas por vezes conflituoso. E não há livro que nos convide a esta festa. (Nem o Lonely Planet.) É preciso a família convidar. É preciso o país querer-nos lá, pegar em nós e partilhar connosco. Há muito mais além dos livros.

sexta-feira, agosto 28, 2009

SEM #29
Isto não volta mais. Todos juntos numa sala vermelha, celebramos a despedida e, apesar disso, sente-se um começo. Terminámos apenas de nos conhecer. Agora sei como soa aquele riso, sei que piadas esperar dali, sei em que ouvido desabafar, sei o olhar que me fará sorrir, sei que expressão aqueles lábios insistem em repetir e sei o sonho daquela alma. Sei agora por onde seguir, sei como mergulhar em cada um deles, descobri o caminho brilhante de cada um. Somos todos tão diferentes que é impossível não nos apaixonarmos pela harmonia irresistível destas diferenças. Sorrimos de igual forma.
Ela sorria e dançava no seu jeito típico, braços largos e elevados, libertos, e a alegria esvoaçava com ela. Observei-a. Acordo para tudo o que absorvi. Apercebo-me do quanto ela, a sua dança, o seu sorriso, fará a saudade apertar cedo, como cada particularidade de cada um de nós se crava como única na memória e vai insistir em regressar. O peito aquece e os olhos tentam controlar-se.

quinta-feira, agosto 27, 2009

SEM #28
Almoçávamos perto do centro e a ciganita veio estender-nos a mão com palavras incógnitas. Uma de nós imediatamente lhe oferece a sandes que tinha na mão e que se preparava para comer. A cigana não hesita em recolher a oferta, mas mantém-se perto. A doadora insiste, na nossa língua internacional, que já tinha que comer, que podia ir andando. A ciganita estende-nos a outra mão e recomeça o choradinho, indiferente à dádiva. Do nosso lado, há protesto, aponta-se para a sandes entre palavras que se repetem devagar para se tornarem mais claras e a ciganita acaba por perceber a lógica destas viajantes. Devolve a sandes e repete a lengalenga. Estupefactas, desistimos de ajudar.
As prioridades dos outros confundem-nos.

quarta-feira, agosto 26, 2009

SEM #27
Aqui há problemas de gente crescida. Aqui onde um prematuro, das outras margens, corresponde em tamanho à cabeça de um internado. Aqui não é a lingua a maior barreira de comunicação. Aqui perde-se esperança.
Na cama do fundo, M. Antov, repousando em coma, representa uma das consequências mais graves do contacto com uma espécie ameaçadora neste país: a carraça. Infectada com um bichinho devastador, trouxe uma encefalite severa a este senhor que se preparava para atingir a meta da velhice. Ali descansa, sem ser possível prever-lhe grande futuro.
Ao seu lado, outro senhor, adormecido no mesmo destino, é o resultado de vários episódios de uma tragédia que muitos temem na idade madura. Acidente Vascular Cerebral. Não se sabe a equação final.
Chamam-me a atenção para o seu nome. V. Antov. Irmão. Lado a lado no infortúnio, por mero acaso, numa casa onde não querem pertencer. Uma história que não se sabe, nem se quer, contar.

terça-feira, agosto 25, 2009

SEM #26
O doutor de nariz vermelho interrompe a conversa a três, de tradução simultânea. Vem entusiasmado e pede uma pausa no aborrecimento do serviço pouco concorrido de Pedopsiquiatria (é Agosto, há mais que fazer!) para pôr em marcha algo que traz planeado. A voz colocada e os gestos largos coordenam os sorrisos tímidos dos jovens internados, enfermeiros, médicos e psicólogos. Ao chegar a mim, não obtém resposta, mas a M. rapidamente o informa da minha insuficiência linguística. Já no inglês internacional, convida-me a tomar parte do filme que ele, o realizador, pretende fazer. Pois com certeza, vamos a isso. Coreografando energicamente todos os intervenientes, cria a cena: o sono da princesa adormecida sofre uma tentativa de violação por parte de um mauzão e sua cúmplice (eu), escondidos atrás de uma árvore e de um arbusto, mas é subitamente salvo pelo seu anjo da guarda que grita "Parem!" em eslavo, o que mata os vilões. O recém-contratado conselheiro continua a dizer que sim a todas as sugestões do realizador de nariz vermelho, como é suposto, e, em dois takes, fica perfeita. Há palmas, há muitos sorrisos, mesmo nos mais soturnos e sépticos à brincadeira, há agradecimentos aos actores e, para minha satisfação secreta, os narizes vermelhos distribuídos pelos participantes mais jovens englobam-me no grupo dos premiados.
Levo mais um sorriso para casa.

segunda-feira, agosto 24, 2009

SEM #25
Aproveitamos o bom dia para experimentar, finalmente, a bicicleta. Orientados por duas nativas amigas, andamos bem e depressa no verde e nas ruas, para não desperdiçar as duas poucas horas que temos.
Paramos junto a um palácio para casamentos e, pois claro, exigimos a fotografia de grupo. Armados de sorriso turístico, aguardamos o casal que atravessa a ponte para os abordarmos e pedirmos colaboração. Para grande surpresa nossa, assim que lhe estendemos a máquina, o senhor recusa-a e procura afastar-se aflitivamente de nós. Antes de desaparecer, as nativas pedem de novo, desta vez na verdadeira língua do casal, e, por fim, lá aceitam tirar gentilmente a fotografia.
Arrumamo-nos por entre bicicletas e murmurinhos curiosos e esperamos que o senhor, agora já sorridente, clique no botão. Já está!
Uma de nós vai recolher a câmara e agradecer mais uma vez. Quem o entendeu conta, junto ao grupo que fica no sítio, que, a princípio, o senhor julgava que o queriamos fotografar. Ela segura na máquina, vê a fotografia no ecrã, sorri ao senhor, agradece. Perguntamo-nos porque quereriamos nós tirar uma fotografia ao senhor ao estender-lhe a câmara. Esperamos em grupo que a câmara regresse para vermos nós o resultado final.
Por cima da cabeça de todos nós, o dedo gordo do senhor cobre o céu e as caras que estariam sorridentes. Perfeito. Não tiramos fotografia ao senhor mas ele insiste em aparecer. Já longe, não nos deve ter visto rir.

domingo, agosto 23, 2009

SEM #24
A visita estava a terminar e preparavamo-nos para nos despedir da cidade, visitando um último lugar. A caminho da estação, percorremos a rua sugerida por quem aqui viveu. Tínhamos apenas o nome e nem uma expectativa do que encontrar.
Após uma nova igreja que certamente não seria a atracção principal, não compreendíamos, ao longo da caminhada pelo percurso, o porquê daquela sugestão entusiasta. Até que, numa pequena entrada, a estranheza chama-nos a atenção. Dentro da cidade arrumada e limpa, as paredes pintadas, o ambiente suburbano e a descontracção da juventude surpreendem. Seguimos por esta perpendicular e visitamos a pousada da juventude que tem como quartos as antigas celas da prisão que ali se encontrava. Ao sairmos, confiantes de que deveria mesmo haver algo para nos deslumbrar naquela rua prestes a terminar, seguimos pela transversal antes de regressar ao caminho principal. O ambiente, violado pela arte das ruas, aconselhava-me um cuidado especial por me recordar locais pouco propícios para jovens como eu.
Até que entramos em Metelkova. Já não são grafittis, é algo mais. São imagens surreais, são paredes forradas de quadros, bustos, molduras, enfeites, cores, objectos. São padrões rosa e verde, são palavras de ordem, são telhados de linhas bizarras, são estátuas reinventadas. São carros explodidos com panos velhos, são placas inclinadas, são parques infantis no meio do turbilhão de formas e cores nunca antes vistas à luz do sol. Não compreendo onde estou.
A máquina fotográfica não pára, sinto-me tonta e incapaz de absorver tudo isto, confio na memória digital para me ajudar a observar mais tarde, com calma, cada detalhe deste espaço. Porque são só detalhes. Porque o conjunto precisa de um olhar cuidado. Porque nos invade e nos confunde. Porque é belo e bizarro. Porque não se espera e porque se destaca do resto. Porque existe.
Ainda atordoada, saímos do bairro e prosseguimos até à estação. Ainda bem que nos aconselharam este percurso, deixo Ljubljana de queixo caído.

sábado, agosto 22, 2009

SEM #23
Não toquei em Ljubljana. Entrei de mansinho, pela ponte dos dragões, que reclamam alguma atenção, e encontrei-me dentro da vida da cidade. O mercado resplandecia de cores e frescura, os comerciantes honestos forneciam as recordações e presentes imprescindíveis aos visitantes e os habitantes compunham a vivacidade deste quadro, ao som de uma banda Mariachi. Ljubljana está acordada, sorridente, cheirosa, e vem-nos receber.
Ao percorrer este quadro, o som mexicano desvanece enquanto um jazz popular surge gradualmente enquanto um novo trio surge ao fundo da rua. As três pontes, ensombradas por quadros suspensos no céu, abrem caminho para Perseven, o poeta enaltecido pela companhia da sua musa, que medita.
Subimos ao castelo, animado por inúmeros casamentos com acordeonista acompanhante que tomam lugar no topo da cidade. Passeámos no longo jardim denso que termina em mais música, desta vez um pequeno festival de cantautores croatas a favor da pacificação e termino dos acordos entre estes países vizinhos. Fugimos do temporal que se ameaça e sonhamos com os ombros doces dos amantes enquanto chovem folhas ao longo do caminho. Descobrimos uma galeria de arte mutada em padaria, que agradece um pequeno contributo à sua ajuda a cuidar do nosso apetite. Surpreendemo-nos com as aranhas gigantes e encantamo-nos com as luzes da noite de aguaceiros. Enamoramo-nos.
Mas não toquei em nada. Deixei tudo intacto, tudo tão encantador e confortável como encontrei. Não quis estragar nada porque tenho de cá voltar. Tenho olhares amigos a quem quero trazer aqui. Quero partilhar tudo isto de novo. Não lhe toquei para que espere o meu regresso.