SEM #1
Viena é vigiada por corvos. Os pombos tornam-se anónimos quando surgem as aves negras. Passeiam-se em passos humanizados, nos jardins que dão cor à cidade. São solitários, alguns negros, outros com algumas penas castanhas brilhantes e uma imponencia respeitosa.
Um corvo poisa no topo de um muro de um monumento às vítimas de guerra. Olha a estátua simbólica e conversam. A fotografia tira-se e é compreensível a inevitabilidade daquele quadro.
Viena tem três cores. Viena é branca nos edifícios grandiosos que compõem a cidade. O parlamento é suportado por mulheres de braço sobre o ombro, irmãs ou cúmplices do poder da responsabilidade. No Rataus e em Hofburg surge igualmente o negro, a cor do tempo denso e do ar apertado, que marcarra o claro que antes surgia. Por fim, o verde confirma a cidade que percorremos, nos topos das catedrais e edifícios da História da arte e humanidade.
Viena é a anfitriã. Convida-nos a entrar, a conhecer, exibe a sua magnitude e agradece com um sorriso. Abraça e não se impõe. Encanta.
sexta-feira, julho 31, 2009
terça-feira, junho 16, 2009
Não fui feito para isto, Senhor Doutor. Voltou ao consultório este mês, sem grande vontade. O hospital não era para si, nunca o fora durante aquelas sete décadas de saúde intacta. Orgulhava-se de não o conhecer.
Acabaram por se cruzar há poucas semanas, quando o almoço farto com os amigos da malha os apresentou. A dor viera rápida e intensa. Feito homem, quisera aguentar-se, mas a vida era-lhe cara e não recusou a visita ao grande edifício de bata branca.
Não demorou muito até poder exibir outra marca de guerra (desta vez, de um inimigo diferente) na sua larga barriga, das que crescem com o ócio dos dias livres. Sorri às enfermeiras, a quem insiste em impressionar com as vitórias das cartas, a esperteza saloia e algum humor brejeiro facilmente disfarçado com as brincadeiras familiares.
Tudo correra, obviamente, bem, ou não seria ele o valente do bairro. Sairia refeito daquele hospital, após os dias de recobro pós-cirúrgico e alguns exames de rotina para confirmar a sua saúde de ferro.
Voltou este mês, com os exames. Surpreendeu-se, afinal não passara com distinção na prova, mas sim com umas cábulas escondidas nas entranhas, que teriam de ser confiscadas pelo cirurgião. O joguinho na sombra da Alameda adiou-se mais uma vez.
Os olhos penosos dos amigos não facilitam o equilíbrio da postura e a conversa dos doutores é silenciosa. Tem que ser, é o que lhe dizem. De novo no consultório, no hospital de que não se orgulha de reconhecer, dois médicos, altos, jovens e invencíveis, discutem entre si a melhor abordagem para desbravar de novo as vísceras matreiras daquele doente, sentado, de dedos enleados e pernas tensas, de olhar inquisidor preso nos lábios sussurrantes dos grandes, que aguarda instruções e uma solução simples.
Custou-lhe a ausência e interrompe. Sabe, Senhor Doutor, é que não fui feito para isto. O senhor doutor reconhece o velho e pergunta porquê. Sabe, Senhor Doutor, é que eu fui feito para aproveitar a vida, para me divertir, sabe como é. Sempre tive muita saúde. Sem demora, o doutor abstrai-se de novo, desta vez no ecrã onde preenche espaços de burocracia branca para avançar com a cirurgia, talvez ainda este mês consiga arranjar vaga. Sabe, Senhor Doutor, é que eu sinto-me bem! Não me dói nada, não sinto nada! Como bem, Senhor Doutor, não tenho mesmo queixas nenhumas! E o doutor imprime a folha bem preenchida para trazer da próxima vez, não pode esquecer, onde tem as informações que necessita (não as que procura). Tem mesmo que ser? Pois tem, tem aí umas coisinhas que temos de tirar. Os olhos do velho decaem com ele. Interrompe-se a conversa para novos teclados acelerados. O velho recupera, sem pressas, os exames e prepara-se para sair.
Eu sinto-me bem… Não fui feito para isto, fui feito para aproveitar a vida. A voz arrefece e confessa-se, sou fraco. Sozinho no seu diálogo, apercebe-se por fim da veracidade do que diz. Ao levantar-se vagarosamente, de olhos cheios e voz enfraquecida, não entusiasma o grande cirurgião, alto, jovem e invencível, para um sorriso honesto. Não encontrará ali mais ninguém. Terá de procurar a coragem noutros companheiros. Sou fraco. Sente os dedos apressados do senhor doutor e afasta-se.
A voz não poderá tremer de novo ao chegar à Alameda.
Acabaram por se cruzar há poucas semanas, quando o almoço farto com os amigos da malha os apresentou. A dor viera rápida e intensa. Feito homem, quisera aguentar-se, mas a vida era-lhe cara e não recusou a visita ao grande edifício de bata branca.
Não demorou muito até poder exibir outra marca de guerra (desta vez, de um inimigo diferente) na sua larga barriga, das que crescem com o ócio dos dias livres. Sorri às enfermeiras, a quem insiste em impressionar com as vitórias das cartas, a esperteza saloia e algum humor brejeiro facilmente disfarçado com as brincadeiras familiares.
Tudo correra, obviamente, bem, ou não seria ele o valente do bairro. Sairia refeito daquele hospital, após os dias de recobro pós-cirúrgico e alguns exames de rotina para confirmar a sua saúde de ferro.
Voltou este mês, com os exames. Surpreendeu-se, afinal não passara com distinção na prova, mas sim com umas cábulas escondidas nas entranhas, que teriam de ser confiscadas pelo cirurgião. O joguinho na sombra da Alameda adiou-se mais uma vez.
Os olhos penosos dos amigos não facilitam o equilíbrio da postura e a conversa dos doutores é silenciosa. Tem que ser, é o que lhe dizem. De novo no consultório, no hospital de que não se orgulha de reconhecer, dois médicos, altos, jovens e invencíveis, discutem entre si a melhor abordagem para desbravar de novo as vísceras matreiras daquele doente, sentado, de dedos enleados e pernas tensas, de olhar inquisidor preso nos lábios sussurrantes dos grandes, que aguarda instruções e uma solução simples.
Custou-lhe a ausência e interrompe. Sabe, Senhor Doutor, é que não fui feito para isto. O senhor doutor reconhece o velho e pergunta porquê. Sabe, Senhor Doutor, é que eu fui feito para aproveitar a vida, para me divertir, sabe como é. Sempre tive muita saúde. Sem demora, o doutor abstrai-se de novo, desta vez no ecrã onde preenche espaços de burocracia branca para avançar com a cirurgia, talvez ainda este mês consiga arranjar vaga. Sabe, Senhor Doutor, é que eu sinto-me bem! Não me dói nada, não sinto nada! Como bem, Senhor Doutor, não tenho mesmo queixas nenhumas! E o doutor imprime a folha bem preenchida para trazer da próxima vez, não pode esquecer, onde tem as informações que necessita (não as que procura). Tem mesmo que ser? Pois tem, tem aí umas coisinhas que temos de tirar. Os olhos do velho decaem com ele. Interrompe-se a conversa para novos teclados acelerados. O velho recupera, sem pressas, os exames e prepara-se para sair.
Eu sinto-me bem… Não fui feito para isto, fui feito para aproveitar a vida. A voz arrefece e confessa-se, sou fraco. Sozinho no seu diálogo, apercebe-se por fim da veracidade do que diz. Ao levantar-se vagarosamente, de olhos cheios e voz enfraquecida, não entusiasma o grande cirurgião, alto, jovem e invencível, para um sorriso honesto. Não encontrará ali mais ninguém. Terá de procurar a coragem noutros companheiros. Sou fraco. Sente os dedos apressados do senhor doutor e afasta-se.
A voz não poderá tremer de novo ao chegar à Alameda.
quinta-feira, maio 07, 2009
Perdi-o. Há pessoas que julgamos eternas porque nascemos juntas para o ser. E depois os dias apodrecem os nossos braços dados e ele vira a cara, enojado e indiferente, sem nunca compreender que este corpo que me dói tinha algo que lhe pertencia. Ele tinha o meu sangue e esqueceu-se dele. Bebe agora de outro. Não ri mais comigo. Ignora-me e não vê maldade nisso. Já não sabe o que me move. Aos poucos, largou-me o braço e afasta-se lentamente, fixando algum ponto que desconheço e desprezo. Já não há palavras confortáveis. Já não há desabafos nem cumplicidades. Morremos. Morri para aquela alma petra. E ele segue, galante, sem nunca olhar para trás. Cospe se o chamo. Não sabe que estou aqui.
Perdi-o. Não o sei achar. Fico magoada e não acredito mais em solidez.
Perdi-o. Não o sei achar. Fico magoada e não acredito mais em solidez.
segunda-feira, maio 04, 2009
Desta vez o cigarro era diferente. Não lhe senti o cheiro, começo a duvidar até que estivesse aceso. Talvez nem fosse cigarro, talvez fosse uma extensão da sua imponência. Imponência. Era ela, sem dúvida.
O fascínio da sala invadia assim que se sentia a sua vida. Apesar das janelas largas, o ambiente rubro pesava aos olhos dos que lá permaneciam. Curvados sobre os teclados já pouco esbranquiçados, comprometiam-se a funcionar satisfatoriamente para aquela Mulher do fundo. Não era preciso olhá-la de frente. Sentia-se. O peito cheio e frondoso, o queixo elevado e o olhar semi-cerrado, o sorriso trocista, mas maternal e a postura. A postura fazia adivinhar toda a admiração que cada um guardava, cada pequena pessoa que se encondia atrás das secretárias apertadas, cada um apertava esse fascínio no seu intimo dorido por ser necessária a precisão das suas acções. Porque era tudo para Ela, a Mulher da pose imponente, e ela precisava dessa eficácia. E eram felizes por cumprirem e satisfazerem as suas necessidades.
E o cigarro nos dedos elegantes. E os dedos na mão firme. E a mão do braço seguro no ar, quieto, observando cada respiração lenta da sala das janelas largas. E o braço do corpo aberto e seguro de si. E o corpo de postura confiante. Protectora. A imponência protegia. A imponência mima. O cigarro não se sente. E tudo bate certo enquanto a presença daquela Mulher se mantiver assim, a fumar.
- possívelmente, a ser melhorado -
O fascínio da sala invadia assim que se sentia a sua vida. Apesar das janelas largas, o ambiente rubro pesava aos olhos dos que lá permaneciam. Curvados sobre os teclados já pouco esbranquiçados, comprometiam-se a funcionar satisfatoriamente para aquela Mulher do fundo. Não era preciso olhá-la de frente. Sentia-se. O peito cheio e frondoso, o queixo elevado e o olhar semi-cerrado, o sorriso trocista, mas maternal e a postura. A postura fazia adivinhar toda a admiração que cada um guardava, cada pequena pessoa que se encondia atrás das secretárias apertadas, cada um apertava esse fascínio no seu intimo dorido por ser necessária a precisão das suas acções. Porque era tudo para Ela, a Mulher da pose imponente, e ela precisava dessa eficácia. E eram felizes por cumprirem e satisfazerem as suas necessidades.
E o cigarro nos dedos elegantes. E os dedos na mão firme. E a mão do braço seguro no ar, quieto, observando cada respiração lenta da sala das janelas largas. E o braço do corpo aberto e seguro de si. E o corpo de postura confiante. Protectora. A imponência protegia. A imponência mima. O cigarro não se sente. E tudo bate certo enquanto a presença daquela Mulher se mantiver assim, a fumar.
- possívelmente, a ser melhorado -
terça-feira, abril 28, 2009
quarta-feira, abril 22, 2009
Há dias assim, em que um acto de coragem e vontade altera a história natural da vivência.
Conheci-vos com aqueles sorrisos brilhantes e enormes e mostraram-me a cor dos passos que dava a medo. Deram-me a mão, acarinharam-na, ofereceram-me os braços à volta do corpo e os lábios doces na bochecha envergonhada. Foram a força que me ensinou a dar, a receber e a partilhar a alegria imensa dos dias comuns, dos gestos puros, do riso e do amor livre. Aprendi tanto só por vos ver, por admirar a áurea que vos preenchia o olhar. Quiseram-me convosco e eu corri. Corri como havia muito tempo que não fazia, como não sobrasse alternativa para o meu corpo doente. Quis-vos tão perto e tive-vos aqui. Recostei-me, cobri-me com o vosso conforto, suguei todas as palavras e gestos.
Nasceu o peso nos ombros e o aperto das mãos atadas. Restou esperar.
E hoje é um dia novo. Hoje vi-vos de volta, com o brilho reluzente, os mimos de sempre, a cumplicidade invejável. Oiço-vos o riso e tremo. O peso do peito aquece e torna-se comoção. Continuo sem conseguir reagir. É bom, é muito bom. Voltaram. Não para mim, que não é o que importa, mas para o que tinham. Para o que eram. Para o que admirei com tanto fascínio, o que tanta força me dera antes.
Observo-vos de longe, uns passos mais atrás do que antigamente. Sorrio cada vez que descubro a áurea intacta à vossa volta. A emoção regressa. Há algo renovado e preparado para seguir em frente, confiante. Desta vez não correrá por caminhos erróneos. Desta vez, deixo-vos assim, entregues ao que sempre foi vosso.
Sorrio-vos daqui. Feliz.
[após 3ª edição]
Conheci-vos com aqueles sorrisos brilhantes e enormes e mostraram-me a cor dos passos que dava a medo. Deram-me a mão, acarinharam-na, ofereceram-me os braços à volta do corpo e os lábios doces na bochecha envergonhada. Foram a força que me ensinou a dar, a receber e a partilhar a alegria imensa dos dias comuns, dos gestos puros, do riso e do amor livre. Aprendi tanto só por vos ver, por admirar a áurea que vos preenchia o olhar. Quiseram-me convosco e eu corri. Corri como havia muito tempo que não fazia, como não sobrasse alternativa para o meu corpo doente. Quis-vos tão perto e tive-vos aqui. Recostei-me, cobri-me com o vosso conforto, suguei todas as palavras e gestos.
Nasceu o peso nos ombros e o aperto das mãos atadas. Restou esperar.
E hoje é um dia novo. Hoje vi-vos de volta, com o brilho reluzente, os mimos de sempre, a cumplicidade invejável. Oiço-vos o riso e tremo. O peso do peito aquece e torna-se comoção. Continuo sem conseguir reagir. É bom, é muito bom. Voltaram. Não para mim, que não é o que importa, mas para o que tinham. Para o que eram. Para o que admirei com tanto fascínio, o que tanta força me dera antes.
Observo-vos de longe, uns passos mais atrás do que antigamente. Sorrio cada vez que descubro a áurea intacta à vossa volta. A emoção regressa. Há algo renovado e preparado para seguir em frente, confiante. Desta vez não correrá por caminhos erróneos. Desta vez, deixo-vos assim, entregues ao que sempre foi vosso.
Sorrio-vos daqui. Feliz.
[após 3ª edição]
segunda-feira, abril 06, 2009
Carpe Diem. As palavras não foram logo estas, mas os gestos partiram sempre delas. Tudo o que se construiu, de uma forma tão sólida, tão segura e determinada, tão indiscutível e imparável, formou-se através do que escondíamos em nós durante tantos anos. Éramos maiores. Rebentavam os corpos em nós, o ardor dos dias rugia no silêncio do quarto e ligavamo-nos na escuridão. A luz era vaga, mas sabiamo-nos lá. Por algo místico, sabíamos quem éramos. Sabia que me sugarias tudo o que tinha para dar, que não resistiria por seres o que mais procurava. Fui para ti tudo o que consegui ser. Dei-me. E tive tudo de volta.
Não tirei o vestido branco nem compus os pés descalços. O cheiro da terra molhada e a árvore para onde subimos continuam presentes. As crianças ainda são pequenas. Estamos aqui, na mesma. As mãos juntas, a alma no olhar, a força no peito. O amor pelas coisas pequenas e doces, o incómodo pelo regular e sintético, a paixão pela arte e poesia, a dor pelo que corrompe e amordaça. E a luta. Por nós. Mesmo que sejamos outros nomes que não o que nos deram. Encontrámos os nossos algures nas margens das nossas palavras.
Encontrámo-nos, minha Irmã. Encontrámo-nos uma na outra. E assim seremos daqui para sempre. Que venham as Horas, estamos prontas há muito tempo.
Não tirei o vestido branco nem compus os pés descalços. O cheiro da terra molhada e a árvore para onde subimos continuam presentes. As crianças ainda são pequenas. Estamos aqui, na mesma. As mãos juntas, a alma no olhar, a força no peito. O amor pelas coisas pequenas e doces, o incómodo pelo regular e sintético, a paixão pela arte e poesia, a dor pelo que corrompe e amordaça. E a luta. Por nós. Mesmo que sejamos outros nomes que não o que nos deram. Encontrámos os nossos algures nas margens das nossas palavras.
Encontrámo-nos, minha Irmã. Encontrámo-nos uma na outra. E assim seremos daqui para sempre. Que venham as Horas, estamos prontas há muito tempo.
[post número duzentos parabéns à minha Irmã]
segunda-feira, março 23, 2009
Vais ler. Um dia ou dois depois de o escrever vais ler. E, um minuto ou dois depois vais dizer-me "és capaz de melhor". E, um instante ou dois depois, vou baixar o queixo, confirmar o que me disseste e envergonhar-me por já não ser capaz de melhor.
Disse hoje ao J. que parecia que já não era a mesma pessoa que aqui escrevia. Não sou. Perdi-me no meio das escolhas múltiplas, das paredes pesadas e da ignorância gratuita. Não me encontro lá. Não tenho casa aqui. Olho este meu filho e peço-lhe perdão. Ele é pequeno, também não será capaz de me puxar.
Há que vencer a passividade. Há que levantar cedo e tomar o banho que se impõe apesar da preguiça. Há que escrever a Hx mesmo quando a vontade é nula, quando o interesse já morreu. Há que ler. Ler muito. Lembrar as palavras, os autores, o sublime, a arte e o sonho. Há que voltar a emocionar o peito. Há que doer ouvir a Hyper Chondriac Music, há que ficar até às 2h a escrever o que os dedos quiserem jorrar. Quando chegar o seu tempo. Há que viver. Há que acreditar.
Ando há quase dois anos nisto. A desculpar-me aqui pela minha fraqueza de espírito. Preciso de voltar a mim. De me admirar. Sinto que é isso que mais falta me faz, sentir que tenho valor, que não sou vulgar. Parece que, afinal, a estima própria não era assim tão pouca...
Disse hoje ao J. que parecia que já não era a mesma pessoa que aqui escrevia. Não sou. Perdi-me no meio das escolhas múltiplas, das paredes pesadas e da ignorância gratuita. Não me encontro lá. Não tenho casa aqui. Olho este meu filho e peço-lhe perdão. Ele é pequeno, também não será capaz de me puxar.
Há que vencer a passividade. Há que levantar cedo e tomar o banho que se impõe apesar da preguiça. Há que escrever a Hx mesmo quando a vontade é nula, quando o interesse já morreu. Há que ler. Ler muito. Lembrar as palavras, os autores, o sublime, a arte e o sonho. Há que voltar a emocionar o peito. Há que doer ouvir a Hyper Chondriac Music, há que ficar até às 2h a escrever o que os dedos quiserem jorrar. Quando chegar o seu tempo. Há que viver. Há que acreditar.
Ando há quase dois anos nisto. A desculpar-me aqui pela minha fraqueza de espírito. Preciso de voltar a mim. De me admirar. Sinto que é isso que mais falta me faz, sentir que tenho valor, que não sou vulgar. Parece que, afinal, a estima própria não era assim tão pouca...
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