(Os textos seguintes foram escritos no workshop de Escrita Criativa a que tive o prazer de ir em Agosto. Aconselho a todos a experimentarem porque qualquer um consegue escrever textos bonitos e interessantes, como tive a oportunidade de aprender lá.)
Escrever bem é deixar fluir o pensamento, deixá-lo pousar delicadamente no papel, escorregando pela tinta, ou grafite, com que o escritor se sente livre. Escrever bem é não pensar em regras, não pensar em leitores, nas suas opiniões e reacções à escrita, é simplesmente escrever. Não interessa tanto o bem da escrita que se faz, mas, muito mais importante, o bem que a escrita nos faz.
Escrever bem é libertar-se, é deixar sair de nós tudo o que nos alegra, o que nos entristece, os medos, as dúvidas, as angústias, as vergonhas, as diferenças. É deixar de ser apenas um corpo com pensamentos mas ser mais do que isso, ser papel, ser palavras, ser tinta, ser a própria escrita. É empenhar todo o amor, toda a força, todo o sentimento que nos move nas palavras que se escreve, elas que nos borbulham dentro da cabeça, deixá-las sair para que novas palavras nos encham de novo.
Sofia, leva-me para tua casa porque sou diferente e bem sabes como gostas de diversidade. Não me acomodo num só sítio e poderás desfrutar da minha companhia quando e onde quiseres, sou bastante flexível. Não faço muito ruído se precisares de silêncio mas não te deixarei adormecer profundamente. Posso rir-me histericamente das tuas piadas mas nunca te farei sentir embaraçada com elas. Vou conversar contigo sobre filosofia mas não te vou maçar com perguntas. Vou comentar contigo as fofoquices que ouvimos mas não nos deixarei cair no ridículo. Vou dançar contigo sobre as nossas camas mas com cuidado para não incomodarmos os vizinhos. Vamos chorar juntas se houver ocasião para isso mas não te deixarei isolar na tua amargura. Vou partilhar silêncios contigo. Serei a tua companhia se precisares e ausência se quiseres saborear um pouco de solidão. E, se me levares contigo para tua casa, hei-de te mostrar o que conheço e reaprenderei tudo de novo contigo, se me quiseres ensinar. Mas, por favor, Sofia, não me deixes aqui porque aqui tudo é igual e bem sei o quanto odeio a monotonia.
quinta-feira, setembro 30, 2004
quarta-feira, setembro 22, 2004
Epa... Ando a escrever muito sobre política e o mundo lá fora. Estou a mudar o blog! Espero que não vos incomode muito,mas tenho mais uma questão a apontar.
Acho que é compreensível que, no dia de hoje, comente um pouco sobre a minha, nossa situação neste "regresso" às aulas. É muito estranho para mim ouvir falar em início de aulas quando ainda estou de férias. Ainda ontem, não fazia ideia qual era a minha turma. Como é que posso imaginar alguém a ter aulas? Ou a ir apenas à escola para ter furos/feriados (chamem-lhe o que quiserem).
Interessada como sou (às vezes...), estive atenta a parte do debate na rtp1 sobre este regresso às aulas. A nossa ministra esteve lá, assim como alguns outros políticos, professores, alunos. Fiquei decepcionada com alguns comentários por serem demasiado comestíveis, comerciais, i.e., certas entidades limitaram-se a dizer aquilo que nós, em casa, já esperavamos ouvir. Isso não vale de muito, meus senhores, tudo isso já foi dito. Já sabemos que o sistema informático não funcionou. O que eu acho completamente compreensível; é um sistema novo, é natural que ocorram erros. Não desculpo os exagerados atrasos porque, apesar de compreender os erros encontrados ao longo do processo, não aceito que não tenham sido previstos e prevenidos, no sentido de se iniciar a colocação de professores com atecedência, prevendo todos estes atrasos. Ninguém sabia quantos erros informáticos apareceriam neste novo sistema. Não sejam tão severos. Há muita gente a trabalhar para que tudo esteja pronto a horas (o que não aconteceu) mas não vamos cair em cima daqueles que durante meses não pararam, que deram fins-de-semana, horas extra e quem sabe o que mais para tratar de tudo isto. Todos vimos no que deu, não vale a pena voltar a falar do assunto, não é por criticarmos que as coisas vão andar mais depressa. Talvez se, em vez das criticas tão severas, nos deleitassem com alternativas eficazes. Para dizer mal, já temos muita gente.
Outra coisa que não compreendo é andarem já a exigir a demissão da ministra. Ela acabou de chegar... A culpa não é só dela. É de todo um conjunto, não é a demissão da ministra que fará a lista de colocados sair mais depressa. Tenham calma, deixem-na cometer mais erros e só nessa altura deverão preocupar-se com a sua demissão. Para já, na minha humilde opinião, é uma ideia sem sentido.
A minha maior preocupação neste momento, a este nível, são as minhas aulas. Têm-se esquecido muitas vezes os próprios alunos em todo o debate. Estou no 12º ano, vou ter exames em Junho. Tenho matéria para aprender. Todos os anos oiço os professores queixarem-se da falta de tempo para darem todo o programa até à data prevista, deixam por vezes matéria para o ano seguinte. Mas, desta vez, não há ano seguinte. Há exames e são os exames que me preocupam. São os exames que nos vão decidir o próximo ano. Em vez de questionarem a nossa ministra se pensa na sua demissão, perguntem se já considerou adiar as datas dos exames de forma a que este atraso na colocação dos professores não prejudique tanto os alunos do secundário.
Foi curioso ver os alunos que foram entrevistados no debate. Um pertencente ao ensino privado e outro ao público, já tendo passado também pelo privado. "Surfistas" de Lisboa/Cascais, como a própria jornalista os descreveu. Estavam ambos felizes pelo ensino que recebiam. Mas acredito que seria também interessante entrevistarem alunos de escolas fora de Lisboa. E, uma sugestão, deixem os alunos participarem no debate. Temos os professores, os políticos, temos todos a dar a sua opinião à excepção dos alunos, o objectivo/alvo de todo o Ensino e Educação. Não temos nós uma palavra a dizer sobre o assunto? Ninguém me perguntou nada, mas eu tomei a liberdade de expressar a minha opinião.
Comentem este post, deêm a vossa opinião. Qualquer que seja. Está aberto o debate.
(desculpem o longo post)
Acho que é compreensível que, no dia de hoje, comente um pouco sobre a minha, nossa situação neste "regresso" às aulas. É muito estranho para mim ouvir falar em início de aulas quando ainda estou de férias. Ainda ontem, não fazia ideia qual era a minha turma. Como é que posso imaginar alguém a ter aulas? Ou a ir apenas à escola para ter furos/feriados (chamem-lhe o que quiserem).
Interessada como sou (às vezes...), estive atenta a parte do debate na rtp1 sobre este regresso às aulas. A nossa ministra esteve lá, assim como alguns outros políticos, professores, alunos. Fiquei decepcionada com alguns comentários por serem demasiado comestíveis, comerciais, i.e., certas entidades limitaram-se a dizer aquilo que nós, em casa, já esperavamos ouvir. Isso não vale de muito, meus senhores, tudo isso já foi dito. Já sabemos que o sistema informático não funcionou. O que eu acho completamente compreensível; é um sistema novo, é natural que ocorram erros. Não desculpo os exagerados atrasos porque, apesar de compreender os erros encontrados ao longo do processo, não aceito que não tenham sido previstos e prevenidos, no sentido de se iniciar a colocação de professores com atecedência, prevendo todos estes atrasos. Ninguém sabia quantos erros informáticos apareceriam neste novo sistema. Não sejam tão severos. Há muita gente a trabalhar para que tudo esteja pronto a horas (o que não aconteceu) mas não vamos cair em cima daqueles que durante meses não pararam, que deram fins-de-semana, horas extra e quem sabe o que mais para tratar de tudo isto. Todos vimos no que deu, não vale a pena voltar a falar do assunto, não é por criticarmos que as coisas vão andar mais depressa. Talvez se, em vez das criticas tão severas, nos deleitassem com alternativas eficazes. Para dizer mal, já temos muita gente.
Outra coisa que não compreendo é andarem já a exigir a demissão da ministra. Ela acabou de chegar... A culpa não é só dela. É de todo um conjunto, não é a demissão da ministra que fará a lista de colocados sair mais depressa. Tenham calma, deixem-na cometer mais erros e só nessa altura deverão preocupar-se com a sua demissão. Para já, na minha humilde opinião, é uma ideia sem sentido.
A minha maior preocupação neste momento, a este nível, são as minhas aulas. Têm-se esquecido muitas vezes os próprios alunos em todo o debate. Estou no 12º ano, vou ter exames em Junho. Tenho matéria para aprender. Todos os anos oiço os professores queixarem-se da falta de tempo para darem todo o programa até à data prevista, deixam por vezes matéria para o ano seguinte. Mas, desta vez, não há ano seguinte. Há exames e são os exames que me preocupam. São os exames que nos vão decidir o próximo ano. Em vez de questionarem a nossa ministra se pensa na sua demissão, perguntem se já considerou adiar as datas dos exames de forma a que este atraso na colocação dos professores não prejudique tanto os alunos do secundário.
Foi curioso ver os alunos que foram entrevistados no debate. Um pertencente ao ensino privado e outro ao público, já tendo passado também pelo privado. "Surfistas" de Lisboa/Cascais, como a própria jornalista os descreveu. Estavam ambos felizes pelo ensino que recebiam. Mas acredito que seria também interessante entrevistarem alunos de escolas fora de Lisboa. E, uma sugestão, deixem os alunos participarem no debate. Temos os professores, os políticos, temos todos a dar a sua opinião à excepção dos alunos, o objectivo/alvo de todo o Ensino e Educação. Não temos nós uma palavra a dizer sobre o assunto? Ninguém me perguntou nada, mas eu tomei a liberdade de expressar a minha opinião.
Comentem este post, deêm a vossa opinião. Qualquer que seja. Está aberto o debate.
(desculpem o longo post)
terça-feira, setembro 21, 2004
Hoje de manhã, quando encontrei "Sic 10 Horas" no meu constante zapping, parei para tomar atenção a um polícia que contava as últimas novidades sobre o caso da menina de 8 anos desaparecida há já uma semana. Quando soube inicialmente da notícia fiquei a pensar para mim o martírio de todas as noites dos pais que não sabem da filha, se está viva, se morta, bem ou mal. Como será imaginar uma filha naquele momento noutro local qualquer sem que ninguém saiba? Se eu já fico doente com o desaparecimento do meu telemóvel, ou da minha mala, ou do que quer que seja relativamente insignificante, não consigo sequer imaginar a aflição de um pai cujo filho está desaparecido. Mas não é este ponto que queria focar.
O que me prendeu mais a esta história foi a revelação que aquele polícia nos deu. Ao que tudo indica, a mãe, juntamente com o padrasto, vendeu a sua filha a um casal alemão para que a pequena Joana fosse viver com eles. Foi, portanto, levada com a polícia, algemada. Até se apurar a verdade.
A população está indignada. Foi a população, e não a própria mãe, que iniciou as buscas. Foi a população que deu por falta da menina. Pelo que foi dito, certa vez, quando a menina ficou doente, foi a senhora do supermercado que a levou ao hospital, e não a mãe. Contaram-se coisas que nunca me tinham passado pela cabeça (mesmo que, quando vi pela primeira vez a mãe a falar na televisão, não lhe ter encontrado a preocupação que esperava de qualquer mãe...).
Falou-se, então, do crime supostamente cometido pela mãe da menina. E, para o cúmulo, a venda da sua filha não é crime em Portugal. Mas... como é que isso é possível?! Bem, pelo que foi explicado pelo tal polícia, não é crime vender uma criança em Portugal, só o será caso seja para abuso sexual ou escravidão.
Pensem o que quiserem. Só vos digo que quando penso nisto, volto a recordar-me do que escrevi no post anterior, sobre o tráfico de crianças, e pergunto-me se tudo isto não andará à volta do mesmo. Pensem o que quiserem...
O que me prendeu mais a esta história foi a revelação que aquele polícia nos deu. Ao que tudo indica, a mãe, juntamente com o padrasto, vendeu a sua filha a um casal alemão para que a pequena Joana fosse viver com eles. Foi, portanto, levada com a polícia, algemada. Até se apurar a verdade.
A população está indignada. Foi a população, e não a própria mãe, que iniciou as buscas. Foi a população que deu por falta da menina. Pelo que foi dito, certa vez, quando a menina ficou doente, foi a senhora do supermercado que a levou ao hospital, e não a mãe. Contaram-se coisas que nunca me tinham passado pela cabeça (mesmo que, quando vi pela primeira vez a mãe a falar na televisão, não lhe ter encontrado a preocupação que esperava de qualquer mãe...).
Falou-se, então, do crime supostamente cometido pela mãe da menina. E, para o cúmulo, a venda da sua filha não é crime em Portugal. Mas... como é que isso é possível?! Bem, pelo que foi explicado pelo tal polícia, não é crime vender uma criança em Portugal, só o será caso seja para abuso sexual ou escravidão.
Pensem o que quiserem. Só vos digo que quando penso nisto, volto a recordar-me do que escrevi no post anterior, sobre o tráfico de crianças, e pergunto-me se tudo isto não andará à volta do mesmo. Pensem o que quiserem...
sábado, setembro 04, 2004
Eu não consigo estar mais calada. Nem sei como alguém consegue. Será que não viram televisão ontem? Não sabem o que aconteceu na Rússia? Não vos choca? Porque se conformam? Já se contam 500 mortos, metade deles crianças. Como é possível brincarem com as vidas daquelas crianças? Não consigo compreender o terrorismo, não consigo aceitar que um grupo de pessoas, que come, dorme, veste-se, vive, se apodere de uma escola e provoque tantas mortes de crianças. Crianças... Aquelas caras, aqueles olhos. Valeu a pena? O que mudou? Mudou um pouco de mim. Mas não era esse o objectivo principal, pois não?
Ontem estive com mais atenção aos noticiários da noite. Não gosto dos telejornais portugueses, que preferem galinhas só com uma pata do que notícias realmente interessantes e importantes. Mas hoje não pude deixar de ver. No fim de um noticiário, o pivôt relembra toda a tragédia da Chechénia, mostram-se imagens das crianças feridas, das mães deitadas sobre o cadáver dos filhos, pais a chorar, enfim, toda a tragédia. E, para finalizar, o pivôt despede-se com "Resta-me desejar-lhe um bom fim-de-semana". UM QUÊ?? Agora?!?! Depois destas imagens, destes factos, deste terror, quer que eu tenha um BOM fim-de-semana?!? Hipócrita! Qual é a alma que consegue dormir sem pensar nisto, sem se sentir impotente perante os acontecimentos. Nada disto se justificava, mas o que estava nas nossas mãos que pudesse ser evitado? Não consigo sonhar com coisas bonitas hoje. Quem consegue?
Também ontem soube que existia tráfico de crianças em Portugal. Sabiam? Pelos vistos até há bastante gente a saber. E porque se calam? Porque me dizem "Não sabias?! Ainda não tinhas percebido?"? Não sabia, não, e fiquei desolada quando soube. E, pergunto eu agora, se já sabiam, porque é que ninguém faz nada? Porque se limitam a estar calados, a contar aos outros que já sabiam?? Eu não me quero calar, não me quero conformar com o facto de 150 crianças serem abandonadas por ano num unico hospital, recém-nascidas, e não se saber exactamente para onde vão. Realmente, como é que as mães conseguem sair do hospital sem as crianças, não seria tão fácil localizá-las e entregar as crianças?? Negócio nos hospitais públicos? E a quantidade de crianças em condições de serem adoptadas, a quantidade de famílias a quererem adoptar e a lentidão dos processos para a adopção? Não posso acreditar que seja mesmo verdade, pois não?... Somos da União Europeia. Já deviamos ter um pouco mais de juízo. Ah, e mais. Sobre o aborto. Alguém sabe efectivamente qual é a nossa lei sobre o aborto? Pelos vistos, é igual à espanhola que diz que se a gravidez provocar problemas psicológicos à mulher, o aborto torna-se legal. Então porque é que os médicos espanhois aceitam os problemas psicologicos de uma mulher que quer abortar e os médicos portugueses não? Mais um esquema do tal negócio?? Eles querem as crianças? Os nossos médicos?!? Estou aterrorizada mas não me quero calar. Não sei ainda bem o que vou fazer mas não me consigo conformar com isto, com isto não, já foi longe demais. Estou farta de ser ingénua e impotente. Uma voz pode fazer muito, ao menos deixem-me acreditar nisso.
Alguém está comigo?...
Ontem estive com mais atenção aos noticiários da noite. Não gosto dos telejornais portugueses, que preferem galinhas só com uma pata do que notícias realmente interessantes e importantes. Mas hoje não pude deixar de ver. No fim de um noticiário, o pivôt relembra toda a tragédia da Chechénia, mostram-se imagens das crianças feridas, das mães deitadas sobre o cadáver dos filhos, pais a chorar, enfim, toda a tragédia. E, para finalizar, o pivôt despede-se com "Resta-me desejar-lhe um bom fim-de-semana". UM QUÊ?? Agora?!?! Depois destas imagens, destes factos, deste terror, quer que eu tenha um BOM fim-de-semana?!? Hipócrita! Qual é a alma que consegue dormir sem pensar nisto, sem se sentir impotente perante os acontecimentos. Nada disto se justificava, mas o que estava nas nossas mãos que pudesse ser evitado? Não consigo sonhar com coisas bonitas hoje. Quem consegue?
Também ontem soube que existia tráfico de crianças em Portugal. Sabiam? Pelos vistos até há bastante gente a saber. E porque se calam? Porque me dizem "Não sabias?! Ainda não tinhas percebido?"? Não sabia, não, e fiquei desolada quando soube. E, pergunto eu agora, se já sabiam, porque é que ninguém faz nada? Porque se limitam a estar calados, a contar aos outros que já sabiam?? Eu não me quero calar, não me quero conformar com o facto de 150 crianças serem abandonadas por ano num unico hospital, recém-nascidas, e não se saber exactamente para onde vão. Realmente, como é que as mães conseguem sair do hospital sem as crianças, não seria tão fácil localizá-las e entregar as crianças?? Negócio nos hospitais públicos? E a quantidade de crianças em condições de serem adoptadas, a quantidade de famílias a quererem adoptar e a lentidão dos processos para a adopção? Não posso acreditar que seja mesmo verdade, pois não?... Somos da União Europeia. Já deviamos ter um pouco mais de juízo. Ah, e mais. Sobre o aborto. Alguém sabe efectivamente qual é a nossa lei sobre o aborto? Pelos vistos, é igual à espanhola que diz que se a gravidez provocar problemas psicológicos à mulher, o aborto torna-se legal. Então porque é que os médicos espanhois aceitam os problemas psicologicos de uma mulher que quer abortar e os médicos portugueses não? Mais um esquema do tal negócio?? Eles querem as crianças? Os nossos médicos?!? Estou aterrorizada mas não me quero calar. Não sei ainda bem o que vou fazer mas não me consigo conformar com isto, com isto não, já foi longe demais. Estou farta de ser ingénua e impotente. Uma voz pode fazer muito, ao menos deixem-me acreditar nisso.
Alguém está comigo?...
quinta-feira, setembro 02, 2004
Só chegaste agora... Devias ter chegado um pouco antes. Agora já não sei o que te dizer. Sabes, estive aqui tempos sozinha, esperando-te. É curioso como as pessoas que passavam por mim várias vezes, cada vez com mais compras, olhavam-me com pena, com medo também. Detesto cruzar-me com gente conhecida quando estou sozinha. Não quis parar num sitio. Isso não podia ser, só mostrava a minha impaciência. Andei por todas aquelas ruas, fingindo ter um lugar para ir, evitando passar na mesma rua mais que duas vezes. Uma vez, parei numa loja. Entrei. Passeei-me por lá, vendo ao promenor o que vendiam, mesmo sem estar minimamente interessada. Devo ter demorado demasiado tempo, mais do que um normal comprador necessita, porque um funcionário da loja olhou tantas vezes para mim que teve mesmo de me vir perguntar se precisava de ajuda. Disse que não, obrigada. Saí passado pouco tempo, já me tornara suspeita. Percorri todos os lugares por onde podia ir e voltei ao ponto de partida onde tu ainda não estavas. Sentei onde antes estivera sentado um mendigo. Vê lá, até ele tem outro sitio para onde ir. Pensei e repensei em tudo o que te tinha para dizer. Todos essas ideias, essas confusões rebolavam na minha cabeça, pedindo ordem e libertação. E eu ia libertá-las contigo, extrair tudo, deixar-me esvaziar totalmente. Ia ficar exausta. Ia dar-te o poder de me destruir ou de me salvares. Terias tudo para isso. Mas tanto revolvi na minha cabeça, tanto arrumei para te mostrar que se tornou ridiculo. Como quando repetes uma palavra tantas vezes que, no fim, já não te recordas do que significa. Já não ia significar nada. A conversa que iamos ter já tinha sido totalmente imaginada na minha cabeça, todas as conversas possiveis, e jáo não conseguiria improvisar mais. Só chegaste agora, e agora já não tenho mais nada para te dizer. Talvez tenhas tu mais uma palavra para eu ouvir.
Sabes quando ouves uma música e te sentes apaixonado? Mesmo sem pensares em ninguém. Quando a música te pede para chorares, a voz triste que pede um acompanhamento. E sentes-te bem quando choras. Quando deixas que a música te leve. Sabes essa sensação? A música não é só ruído, não. É tanto sentimento. Não ouves, naquela guitarra delirante, na distorção que usa, nos acordes, nas notas, nos dedilhados, na raiva com que toca, na tristeza com que brinca com as cordas? E a voz, não a ouves, vinda mesmo lá de dentro, chorando palavras e gritos de esperança, de desilusão, de amor? Será que canta para alguém? Ou simplesmente canta para aquela música que a fez apaixonar, como a mim me faz? Conseguia escrever uma carta de amor sem amar ninguém. Bastava ouvir aquela música. Sabes qual é, não sabes? Queres... ouvi-la comigo?
Sabes quando ouves uma música e te sentes apaixonado? Mesmo sem pensares em ninguém. Quando a música te pede para chorares, a voz triste que pede um acompanhamento. E sentes-te bem quando choras. Quando deixas que a música te leve. Sabes essa sensação? A música não é só ruído, não. É tanto sentimento. Não ouves, naquela guitarra delirante, na distorção que usa, nos acordes, nas notas, nos dedilhados, na raiva com que toca, na tristeza com que brinca com as cordas? E a voz, não a ouves, vinda mesmo lá de dentro, chorando palavras e gritos de esperança, de desilusão, de amor? Será que canta para alguém? Ou simplesmente canta para aquela música que a fez apaixonar, como a mim me faz? Conseguia escrever uma carta de amor sem amar ninguém. Bastava ouvir aquela música. Sabes qual é, não sabes? Queres... ouvi-la comigo?
terça-feira, agosto 31, 2004
(trabalho de Português de 11º ano - Escrever um texto sobre "Jovens, vós sois a esperança do futuro" texto argumentativo)
Desisti de implorar aos poderosos, aos importantes, aos dirigentes pela transformação do mundo. Desisti de lhes mostrar que são eles os responsáveis pela continuação da prodridão da sociedade, que a sua cegueira é bastante visível aos seus inferiores. E como este auditório não me ouve, nem a mim, nem ao restante mundo, dirijo-me a vós, jovens, para que me dês um tempo da vossa atenção, para que vos possa nomear de esperança do futuro.
Bem vos oiço, em cada dia que crescem mais um pouco, a vossa indignação perante os espinhos da rosa que nos presentiaram. Sois a voz da verdade, os que compreendem verdadeiramente o sigificado das palavras desonestidade, tirania, violência, injustiça ou maldade mesmo, por vezes, sem as teres experenciado. Agora que começais a acordar do sonho de infância, vais encontrar a verdadeira essência do Homem e a verdadeira imagem do mundo. E, como a vossa criança ainda não abandonou o vosso olhar, têndes a capacidade de razer desse vosso sonho e utopia as soluções para as confusões onde estamos todos enleados.
Vós sois os filhos dos poderosos e importantes mas também dos pobres, dos doridos, dos injustiçados. Sois o futuro destes, mas, no momento da descoberta da realidade, todos são capazes de distinguir o Bem do Mal, o Puro do Doentio. E, nesse momento, tendes duas opções: ou vos conformais, continuais vivendo nesse mundo que tanto vos espantou e indignou, reaprendendo a viver nessa sociedade de mentira, destruição e perversidade ou então levantai-vos, uni-vos e lutai por um lugar melhor, pelo local que o vosso sonho infantil vos mostra.
E é isto que vos peço. Vós tendes essa possibilidade de mudar o mundo! O Tempo está do vosso lado (já pensastes, quem ficará poderoso e responsável quando os actuais responsáveis e poderosos definharem?!). Vós tendes a voz, a força, a coragem, a vontade, as armas. O Mundo terá de vos ouvir pois sois o produto dele, sois a futura geração e é essa geração que governará o próximo mundo.
E tu, sim, tu que pensas que uma única voz (a tua, a minha) não levantará qualquer borrão, tu que não acreditas na força e poder que tens, que queres desistir, que queres calar-te, conformar-te, tu enganas-te! A tua presença conta, porque se somarmos todas essas vozes amedrontadas criaremos tal medo à Maldade que a sua única possessão será a Vergonha de alguma vez ter existido. Todos temos uma palavra a dizer, uma opinião, um voto, não podemos deixar que mais uma poeira que nos quer cegar nos faça retroceder a indignação.
Levantai-vos, jovens, pois sois a esperança do Mundo. Vós sois os verdadeiros poderosos, os únicos possíveis vencedores desta guerra de valores. Porque o Tempo não pára e o futuro pertence-vos. Não deixeis que o veneno deste mundo moribundo vos controle e manipule porque é a vossa integridade que deverá governar-nos. E, por isso, acredito que o Homem será melhor pois vós estareis lá, e eu já não terei de desconfiar quando alguém me oferece um sorriso, saberei então que é da nossa nova esperança.
(Interessante o entusiasmo dos comentários do professor quando li o texto na aula... oh well...)
Desisti de implorar aos poderosos, aos importantes, aos dirigentes pela transformação do mundo. Desisti de lhes mostrar que são eles os responsáveis pela continuação da prodridão da sociedade, que a sua cegueira é bastante visível aos seus inferiores. E como este auditório não me ouve, nem a mim, nem ao restante mundo, dirijo-me a vós, jovens, para que me dês um tempo da vossa atenção, para que vos possa nomear de esperança do futuro.
Bem vos oiço, em cada dia que crescem mais um pouco, a vossa indignação perante os espinhos da rosa que nos presentiaram. Sois a voz da verdade, os que compreendem verdadeiramente o sigificado das palavras desonestidade, tirania, violência, injustiça ou maldade mesmo, por vezes, sem as teres experenciado. Agora que começais a acordar do sonho de infância, vais encontrar a verdadeira essência do Homem e a verdadeira imagem do mundo. E, como a vossa criança ainda não abandonou o vosso olhar, têndes a capacidade de razer desse vosso sonho e utopia as soluções para as confusões onde estamos todos enleados.
Vós sois os filhos dos poderosos e importantes mas também dos pobres, dos doridos, dos injustiçados. Sois o futuro destes, mas, no momento da descoberta da realidade, todos são capazes de distinguir o Bem do Mal, o Puro do Doentio. E, nesse momento, tendes duas opções: ou vos conformais, continuais vivendo nesse mundo que tanto vos espantou e indignou, reaprendendo a viver nessa sociedade de mentira, destruição e perversidade ou então levantai-vos, uni-vos e lutai por um lugar melhor, pelo local que o vosso sonho infantil vos mostra.
E é isto que vos peço. Vós tendes essa possibilidade de mudar o mundo! O Tempo está do vosso lado (já pensastes, quem ficará poderoso e responsável quando os actuais responsáveis e poderosos definharem?!). Vós tendes a voz, a força, a coragem, a vontade, as armas. O Mundo terá de vos ouvir pois sois o produto dele, sois a futura geração e é essa geração que governará o próximo mundo.
E tu, sim, tu que pensas que uma única voz (a tua, a minha) não levantará qualquer borrão, tu que não acreditas na força e poder que tens, que queres desistir, que queres calar-te, conformar-te, tu enganas-te! A tua presença conta, porque se somarmos todas essas vozes amedrontadas criaremos tal medo à Maldade que a sua única possessão será a Vergonha de alguma vez ter existido. Todos temos uma palavra a dizer, uma opinião, um voto, não podemos deixar que mais uma poeira que nos quer cegar nos faça retroceder a indignação.
Levantai-vos, jovens, pois sois a esperança do Mundo. Vós sois os verdadeiros poderosos, os únicos possíveis vencedores desta guerra de valores. Porque o Tempo não pára e o futuro pertence-vos. Não deixeis que o veneno deste mundo moribundo vos controle e manipule porque é a vossa integridade que deverá governar-nos. E, por isso, acredito que o Homem será melhor pois vós estareis lá, e eu já não terei de desconfiar quando alguém me oferece um sorriso, saberei então que é da nossa nova esperança.
(Interessante o entusiasmo dos comentários do professor quando li o texto na aula... oh well...)
segunda-feira, agosto 23, 2004
Coffee and Cigarettes
Fui ontem ao cinema ver o filme "Coffee and Cigarettes". Sinceramente, esperava mais. Esperava conversas mais interessantes, mais movimento, mais interacção entre as supostas personagens.
É um filme diferente, sim, e eu até gosto de filmes diferentes. Vários sketches com diferentes personalidades como Iggy Pop, os White Stripes ou Bill Murray (só para citar alguns, que, por acaso, eram quase os únicos que eu conhecia...), sentadas a uma mesa de café, fumando cigarros, bebendo o seu café, e, por vezes, conversando. Filme a preto e branco. Alguns desses sketches podem fazer alguém adormecer. Mas, para os mais atentos e menos sonolentos, são capazes de reflectir coisas bem comuns em encontros de cafés.
Até dois grandes amigos podem estar juntos num café e perderem a conversa. Aí, ou se refugiam na chávena de café, bebendo e justificando o seu silêncio assim, ou procuram com o olhar algo bem longe da direcção onde se encontra a sua companhia. Podem também fumar, olhar para baixo ou mesmo comentar algo completamente desinteressante. Como o café que estão a beber. E, se o caso for mesmo grave, olham para o relógio, sem repararem nas horas, e dizem que têm de ir embora. O curioso, nesta situação, é a resposta "Tão cedo?!" da parte do outro. Ele bem sabe que não estão a fazer nada, estão simplesmente sentados num café sem terem nada para dizer um ao outro. E estes silêncios podem ser tortuosos. Mas um "Já?!" fica sempre bem.
Houve uma vez que estava num café com uma amiga. E, por momentos, ficámos as duas caladas. Mas não fomos só nós. O café todo estava em silêncio. Não havia música, não havia conversas, não havia qualquer ruído. E este silêncio tão intenso perturbou-me tanto, deu-me uma tontura tal, que tive de falar, qualquer coisa tinha de dizer (se bem me lembro, foi até uma coisa que já tinha dito na conversa anterior) para não sentir a minha cabeça às voltas. Foi muito estranho.
Li algures que uma amizade é quando duas pessoas estam juntas em silêncio e não se sentem constrangidas. Gostava de conseguir partilhar silêncios. Mas é dificil para mim.
O filme tem várias situações em cafés. Agora, que penso melhor no filme, até começo a gostar mais dele. Apesar de se basear sempre em encontros em cafés, tem sempre algo diferente entre eles. É curioso como nos apercebemos da insignificância das conversas de café deste filme e, no intervalo, até as nossas conversas nos parecem futeis. Como se estivessemos no filme, mas compreendessemos de outra forma aquele momento. Como se soubessemos que estamos a conversar para não nos sentirmos constragidos num silêncio quebrável.
Penso que já me estou a confundir neste texto. Chega por agora. Se forem ver o filme, tenham atenção a esses promenores, às reacções das personagens (que representam elas próprias) ao longo do tempo. Talvez da próxima vez que formos a um café, o momento nos saiba um pouco diferente.
"Tudo bem?...A sério?... Tens a certeza que está tudo bem contigo?... Não se passa nada?...então,hmm...não tens mesmo nada para desabafar?..."
Fui ontem ao cinema ver o filme "Coffee and Cigarettes". Sinceramente, esperava mais. Esperava conversas mais interessantes, mais movimento, mais interacção entre as supostas personagens.
É um filme diferente, sim, e eu até gosto de filmes diferentes. Vários sketches com diferentes personalidades como Iggy Pop, os White Stripes ou Bill Murray (só para citar alguns, que, por acaso, eram quase os únicos que eu conhecia...), sentadas a uma mesa de café, fumando cigarros, bebendo o seu café, e, por vezes, conversando. Filme a preto e branco. Alguns desses sketches podem fazer alguém adormecer. Mas, para os mais atentos e menos sonolentos, são capazes de reflectir coisas bem comuns em encontros de cafés.
Até dois grandes amigos podem estar juntos num café e perderem a conversa. Aí, ou se refugiam na chávena de café, bebendo e justificando o seu silêncio assim, ou procuram com o olhar algo bem longe da direcção onde se encontra a sua companhia. Podem também fumar, olhar para baixo ou mesmo comentar algo completamente desinteressante. Como o café que estão a beber. E, se o caso for mesmo grave, olham para o relógio, sem repararem nas horas, e dizem que têm de ir embora. O curioso, nesta situação, é a resposta "Tão cedo?!" da parte do outro. Ele bem sabe que não estão a fazer nada, estão simplesmente sentados num café sem terem nada para dizer um ao outro. E estes silêncios podem ser tortuosos. Mas um "Já?!" fica sempre bem.
Houve uma vez que estava num café com uma amiga. E, por momentos, ficámos as duas caladas. Mas não fomos só nós. O café todo estava em silêncio. Não havia música, não havia conversas, não havia qualquer ruído. E este silêncio tão intenso perturbou-me tanto, deu-me uma tontura tal, que tive de falar, qualquer coisa tinha de dizer (se bem me lembro, foi até uma coisa que já tinha dito na conversa anterior) para não sentir a minha cabeça às voltas. Foi muito estranho.
Li algures que uma amizade é quando duas pessoas estam juntas em silêncio e não se sentem constrangidas. Gostava de conseguir partilhar silêncios. Mas é dificil para mim.
O filme tem várias situações em cafés. Agora, que penso melhor no filme, até começo a gostar mais dele. Apesar de se basear sempre em encontros em cafés, tem sempre algo diferente entre eles. É curioso como nos apercebemos da insignificância das conversas de café deste filme e, no intervalo, até as nossas conversas nos parecem futeis. Como se estivessemos no filme, mas compreendessemos de outra forma aquele momento. Como se soubessemos que estamos a conversar para não nos sentirmos constragidos num silêncio quebrável.
Penso que já me estou a confundir neste texto. Chega por agora. Se forem ver o filme, tenham atenção a esses promenores, às reacções das personagens (que representam elas próprias) ao longo do tempo. Talvez da próxima vez que formos a um café, o momento nos saiba um pouco diferente.
"Tudo bem?...A sério?... Tens a certeza que está tudo bem contigo?... Não se passa nada?...então,hmm...não tens mesmo nada para desabafar?..."
segunda-feira, agosto 02, 2004
segunda-feira, julho 19, 2004
Aqui
Sentaram-se as duas na cama da Clara.
Com os olhos esquecidos na ponta dos dedos dos pés, Lucia segredou:
– Sabes, Clara, se não fosses tu... eu sozinha não teria a coragem de lutar de novo.
Levantou os olhos e prendeu-os aos dela. Sorriu.
– Ele voltou ontem à noite. Disse que estava com pressa, que vinha deixar-me só uns papéis, sem importância, mas lá o convenci a sentar-se para um café. Não tive medo, Clara, olhei o Pedro nos olhos, amarrei-o bem ao meu olhar e depois disse-lhe tudo o que tinha para dizer. Não me recordo das palavras exactas mas lembro-me dos sentimentos.
Clara juntou-se ao sorriso da sua amiga.
– Ele não fugiu, não podia, e, cá para mim, gostava de estar assim preso, também ele queria voltar. Não somos nada, nada mesmo, sem o outro. – Lucia leva o seu olhar de volta para os pés. – Custou entender isso, tivemos de voltar a ser nada para compreender o desejo de sermos, juntos, tudo... Regressámos. Fizemos amor. E sentimo-nos um só, novamente. Estamos completos agora. Para sempre, creio.
Clara admirava as palavras que ouvia. Adorava finais felizes. E aqueles sorrisos que se escondem de mansinho por entre a sinceridade dos sentimentos cativavam-na. Estava tão absorta na sua admiração que não evitou um susto quando Lucia levantou a voz e mudou de discurso.
– Ah, que lamechices que para aqui digo! Não te queria aborrecer, Clara, só queria agradecer-te por todo o apoio que me deste, a sério, és fantástica! – Lucia agarra a mão de Clara e sorriem exageradamente uma para a outra.
– Oh, não aborreces nada!, já sabes que adoro ouvir-te falar assim tão feliz. Fico muito contente por ti, por vocês os dois, e, já sabes, se precisares de alguma coisa estou sempre aqui. – E pousou a outra mão sobre as outras já abraçadas.
– Eu sei, eu sei. – respondeu Lucia, inclinando delicadamente a cabeça. - Então e tu? Como vão as coisas com o Luís?
Sem querer revelar-se, Clara segurou forte o seu sorriso mas entristeceu-o.
– Vão bem... Partiu na terça para Inglaterra, vê lá tu. É pena é o seu trabalho roubá-lo tantas vezes de mim. – riu forçadamente – Mas ele é muito afectuoso, manda-me sempre lembranças e cartas com palavras tão doces que me fazem engordar. – riu-se novamente – É sempre uma festa quando falamos ao telefone, e agora com as novas modernices, torna-se mais divertido, com internet e isso.
Lucia não se tinha rido. Limitava-se a sorrir-lhe penosamente, como ela lhe pedia em silêncio.
– Mas custa-te... ou não?!
– Claro que custa, mas torna-se mais fácil de suportar com todas estas novas tecnologias, a sério. Ainda não te mostrei o novo telemóvel que ele me ofereceu, pois não?
Clara desesperava por um sinal de entusiasmo por parte de Lucia. Não encontrou. Lucia sorria-lhe com o mesmo sorriso, testando-a, rasgando a sua expressão para libertar Clara de si própria. Esta, percebendo, que não conseguia segurar por muito mais tempo o seu sorriso, agitou o olhar, que fugiu para o tapete, para a porta, para os olhos de Lucia e, rapidamente, de volta para o tapete. Lucia fixava-a.
– Passo optimos momentos quando estamos juntos. Amo-o muito. E ele também me ama, tenho a certeza... Talvez até nos saibam melhor esses momentos estando separados algum tempo, aproveitamos mais, sabes?... E mesmo quando não está cá, eu saio com amigos e amigas, divirto-me muito. Nunca perco este meu sorriso. – E, apesar de tremer por dentro, olhou nos olhos da sua amiga e sorriu-lhe com muita força.
Finalmente, Lucia devolveu-lhe o sorriso.
– És feliz, então.
O olhar cai.
– Penso que sim...
Lucia viu aqui o fim da conversa. Admirava toda a força mostrada por Clara e preparava-se para se levantar, ondular até à porta da rua, vestir o seu casaco castanho, abraçar futilmente a sua querida amiga, despedir-se e abandoná-la.
– Mesmo que, às vezes, me sinta sozinha cá em casa... Muito sozinha, aliás.
Lucia surpreendeu-se. Não esperava aquelas palavras. Clara sempre foi forte, nunca se mostrava triste ou abatida. E, agora, depois de anos de amizade, pela primeira vez, encontrava-se sentada na sua cama, com os pés suspensos e nervosos, as mão enleadas e irrequietas, e um olhar de criança triste a quem roubam uma brincadeira. Lucia, por momentos, não soube o que fazer.
– À noite, quando me deito, geralmente não consigo dormir. Tenho frio. E o silêncio torna-se insuportável. E, estupidamente, acredito que alguém ainda me vai telefonar e fazer-me companhia durante as horas. Mas já é tarde. E, nem eu tenho coragem de incomodar, nem ninguém ainda está acordado. E só consigo adormecer assim, à espera.
Clara levanta-se repentinamente e levanta a cabeça, olhando o infinito.
– E, sim, é optimo ouvir o Luis ao telefone, rimo-nos, vêmo-nos, apesar de tudo, estamos próximos. Mas quando desligamos... – Lucia, timidamente, levanta-se também – É como se toda a minha alegria e felicidade estivessem do outro lado da linha. Só fico com a Solidão e a Lágrima. E o Silêncio, claro, a esse até lhe sinto o cheiro a podre e velho. Que vergonha...
Lucia entrou em pânico. Não sabia o que fazer. Clara, para si, era a amiga em quem podia contar, a pessoa que estava lá por ela, o seu apoio, a mão no seu ombro, na sua face, secando as suas lágrimas e amarguras. Não a julgava capaz de sofrer, ela sempre fora forte para si e para os outros. Não sabia ajudá-la. Nunca o tinha feito e nunca julgara realmente possivel ser necessario a sua ajuda. Não sabia reagir. Limitava-se a olhá-la, ouvi-la e espantava-se.
Clara parou e olhou fixamente Lucia. Implorava-lhe atenção e compreensão. Tinha os olhos perdidos, cansados, vermelhos, delirantes. Lucia, a medo, pousou a sua mão no ombro de Clara.
– Não tenhas vergonha... Todos temos medo, todos estamos sós. E é a solidão que nos une... eu estou aqui, não tenhas medo...
Clara forçou um sorriso, não muito extenso, já não conseguiu mais. Agradeceu o apoio. As duas mulheres, agora desconhecidas, ficaram em silêncio por uns momentos, fingindo desconfiados sorrisos, desastrosos, inconvenientes.
Uma lágrima treme no olho de Clara. Esta aproxima-se mais de Lucia e beija-a nos lábios. Um beijo desesperado, calmo mas intenso. Lucia está petrificada. Lentamente, Clara afasta-se, olha no fundo de Lucia e, no meio do seu choro gemido, sussura-lhe:
– Conseguias amar-me como amas o Pedro?...
Lucia não conseguia responder. Estava assustada, perdida. Agora era ela que estava a segurar, era ela a coluna, o ombro, a mão, a força. E não podia quebrar. Ela não estava preparada para isto, tenha vindo apenas para lhe contar o sucedido da noite anterior e agradecer o seu apoio. Não sabia como reagir. Só sabia que não queria estar ali. Recuou um passo. Olhou Clara com pena.
– É melhor eu ir-me embora.
Esperou uma reacção qualquer, um simples “sim”, bastava um aceno, mas Clara continuava imóvel, surda, esperando, talvez ainda, a resposta à sua pergunta.
– Desculpa... – E recuando outro passo, viu Clara soltar-se de joelhos para o chão, pousando as mãos fracas nos joelhos, inclinando a cabeça e o olhar, e chorando passivamente, sem soluços, sem pressas.
Virou costas e, sem se deter, Lucia apressou-se para a porta da rua, arrancou o seu casaco castanho do bengaleiro e, sem olhar para trás, saiu e fechou a porta, levando consigo um lágrima teimosa.
Clara ouviu a porta fechar-se. Sorriu com a ironia. Sozinha novamente. Olha para a cama onde o Silêncio está sentado, fixando-a, rindo-se de sua cara. Ela levanta-se e, para grande espanto do Silêncio, senta-se ao seu colo, abraça-o e adormece ali, suspirando:
– Hoje fico por aqui.
Sentaram-se as duas na cama da Clara.
Com os olhos esquecidos na ponta dos dedos dos pés, Lucia segredou:
– Sabes, Clara, se não fosses tu... eu sozinha não teria a coragem de lutar de novo.
Levantou os olhos e prendeu-os aos dela. Sorriu.
– Ele voltou ontem à noite. Disse que estava com pressa, que vinha deixar-me só uns papéis, sem importância, mas lá o convenci a sentar-se para um café. Não tive medo, Clara, olhei o Pedro nos olhos, amarrei-o bem ao meu olhar e depois disse-lhe tudo o que tinha para dizer. Não me recordo das palavras exactas mas lembro-me dos sentimentos.
Clara juntou-se ao sorriso da sua amiga.
– Ele não fugiu, não podia, e, cá para mim, gostava de estar assim preso, também ele queria voltar. Não somos nada, nada mesmo, sem o outro. – Lucia leva o seu olhar de volta para os pés. – Custou entender isso, tivemos de voltar a ser nada para compreender o desejo de sermos, juntos, tudo... Regressámos. Fizemos amor. E sentimo-nos um só, novamente. Estamos completos agora. Para sempre, creio.
Clara admirava as palavras que ouvia. Adorava finais felizes. E aqueles sorrisos que se escondem de mansinho por entre a sinceridade dos sentimentos cativavam-na. Estava tão absorta na sua admiração que não evitou um susto quando Lucia levantou a voz e mudou de discurso.
– Ah, que lamechices que para aqui digo! Não te queria aborrecer, Clara, só queria agradecer-te por todo o apoio que me deste, a sério, és fantástica! – Lucia agarra a mão de Clara e sorriem exageradamente uma para a outra.
– Oh, não aborreces nada!, já sabes que adoro ouvir-te falar assim tão feliz. Fico muito contente por ti, por vocês os dois, e, já sabes, se precisares de alguma coisa estou sempre aqui. – E pousou a outra mão sobre as outras já abraçadas.
– Eu sei, eu sei. – respondeu Lucia, inclinando delicadamente a cabeça. - Então e tu? Como vão as coisas com o Luís?
Sem querer revelar-se, Clara segurou forte o seu sorriso mas entristeceu-o.
– Vão bem... Partiu na terça para Inglaterra, vê lá tu. É pena é o seu trabalho roubá-lo tantas vezes de mim. – riu forçadamente – Mas ele é muito afectuoso, manda-me sempre lembranças e cartas com palavras tão doces que me fazem engordar. – riu-se novamente – É sempre uma festa quando falamos ao telefone, e agora com as novas modernices, torna-se mais divertido, com internet e isso.
Lucia não se tinha rido. Limitava-se a sorrir-lhe penosamente, como ela lhe pedia em silêncio.
– Mas custa-te... ou não?!
– Claro que custa, mas torna-se mais fácil de suportar com todas estas novas tecnologias, a sério. Ainda não te mostrei o novo telemóvel que ele me ofereceu, pois não?
Clara desesperava por um sinal de entusiasmo por parte de Lucia. Não encontrou. Lucia sorria-lhe com o mesmo sorriso, testando-a, rasgando a sua expressão para libertar Clara de si própria. Esta, percebendo, que não conseguia segurar por muito mais tempo o seu sorriso, agitou o olhar, que fugiu para o tapete, para a porta, para os olhos de Lucia e, rapidamente, de volta para o tapete. Lucia fixava-a.
– Passo optimos momentos quando estamos juntos. Amo-o muito. E ele também me ama, tenho a certeza... Talvez até nos saibam melhor esses momentos estando separados algum tempo, aproveitamos mais, sabes?... E mesmo quando não está cá, eu saio com amigos e amigas, divirto-me muito. Nunca perco este meu sorriso. – E, apesar de tremer por dentro, olhou nos olhos da sua amiga e sorriu-lhe com muita força.
Finalmente, Lucia devolveu-lhe o sorriso.
– És feliz, então.
O olhar cai.
– Penso que sim...
Lucia viu aqui o fim da conversa. Admirava toda a força mostrada por Clara e preparava-se para se levantar, ondular até à porta da rua, vestir o seu casaco castanho, abraçar futilmente a sua querida amiga, despedir-se e abandoná-la.
– Mesmo que, às vezes, me sinta sozinha cá em casa... Muito sozinha, aliás.
Lucia surpreendeu-se. Não esperava aquelas palavras. Clara sempre foi forte, nunca se mostrava triste ou abatida. E, agora, depois de anos de amizade, pela primeira vez, encontrava-se sentada na sua cama, com os pés suspensos e nervosos, as mão enleadas e irrequietas, e um olhar de criança triste a quem roubam uma brincadeira. Lucia, por momentos, não soube o que fazer.
– À noite, quando me deito, geralmente não consigo dormir. Tenho frio. E o silêncio torna-se insuportável. E, estupidamente, acredito que alguém ainda me vai telefonar e fazer-me companhia durante as horas. Mas já é tarde. E, nem eu tenho coragem de incomodar, nem ninguém ainda está acordado. E só consigo adormecer assim, à espera.
Clara levanta-se repentinamente e levanta a cabeça, olhando o infinito.
– E, sim, é optimo ouvir o Luis ao telefone, rimo-nos, vêmo-nos, apesar de tudo, estamos próximos. Mas quando desligamos... – Lucia, timidamente, levanta-se também – É como se toda a minha alegria e felicidade estivessem do outro lado da linha. Só fico com a Solidão e a Lágrima. E o Silêncio, claro, a esse até lhe sinto o cheiro a podre e velho. Que vergonha...
Lucia entrou em pânico. Não sabia o que fazer. Clara, para si, era a amiga em quem podia contar, a pessoa que estava lá por ela, o seu apoio, a mão no seu ombro, na sua face, secando as suas lágrimas e amarguras. Não a julgava capaz de sofrer, ela sempre fora forte para si e para os outros. Não sabia ajudá-la. Nunca o tinha feito e nunca julgara realmente possivel ser necessario a sua ajuda. Não sabia reagir. Limitava-se a olhá-la, ouvi-la e espantava-se.
Clara parou e olhou fixamente Lucia. Implorava-lhe atenção e compreensão. Tinha os olhos perdidos, cansados, vermelhos, delirantes. Lucia, a medo, pousou a sua mão no ombro de Clara.
– Não tenhas vergonha... Todos temos medo, todos estamos sós. E é a solidão que nos une... eu estou aqui, não tenhas medo...
Clara forçou um sorriso, não muito extenso, já não conseguiu mais. Agradeceu o apoio. As duas mulheres, agora desconhecidas, ficaram em silêncio por uns momentos, fingindo desconfiados sorrisos, desastrosos, inconvenientes.
Uma lágrima treme no olho de Clara. Esta aproxima-se mais de Lucia e beija-a nos lábios. Um beijo desesperado, calmo mas intenso. Lucia está petrificada. Lentamente, Clara afasta-se, olha no fundo de Lucia e, no meio do seu choro gemido, sussura-lhe:
– Conseguias amar-me como amas o Pedro?...
Lucia não conseguia responder. Estava assustada, perdida. Agora era ela que estava a segurar, era ela a coluna, o ombro, a mão, a força. E não podia quebrar. Ela não estava preparada para isto, tenha vindo apenas para lhe contar o sucedido da noite anterior e agradecer o seu apoio. Não sabia como reagir. Só sabia que não queria estar ali. Recuou um passo. Olhou Clara com pena.
– É melhor eu ir-me embora.
Esperou uma reacção qualquer, um simples “sim”, bastava um aceno, mas Clara continuava imóvel, surda, esperando, talvez ainda, a resposta à sua pergunta.
– Desculpa... – E recuando outro passo, viu Clara soltar-se de joelhos para o chão, pousando as mãos fracas nos joelhos, inclinando a cabeça e o olhar, e chorando passivamente, sem soluços, sem pressas.
Virou costas e, sem se deter, Lucia apressou-se para a porta da rua, arrancou o seu casaco castanho do bengaleiro e, sem olhar para trás, saiu e fechou a porta, levando consigo um lágrima teimosa.
Clara ouviu a porta fechar-se. Sorriu com a ironia. Sozinha novamente. Olha para a cama onde o Silêncio está sentado, fixando-a, rindo-se de sua cara. Ela levanta-se e, para grande espanto do Silêncio, senta-se ao seu colo, abraça-o e adormece ali, suspirando:
– Hoje fico por aqui.
quinta-feira, julho 01, 2004
Acho que afinal já não acredito no Peter Pan. Ele veio-me buscar no Sábado, voltei ao meu quarto lá na Terra do Nunca. Soube-me tão bem voltar a poder voar, a sonhar com aquele mundo em que não tenho regras para seguir.
Mas ontem à noite, esperei por ele outra vez. Sorri ao pensar que ele voltaria e levar-me-ia mais uma noite para longe. De repente, ouvi dois estalidos na persiana. Seria ele? E então, percebi, que já não era mais criança para acreditar num Peter Pan. Isto porque fiquei muito assustada, tive a certeza de que, se ouvisse alguma voz a chamar o meu nome, por mais jovial que fosse a voz, sentir-me-ia apavorada e correria até ao quarto dos meus pais, provavelmente, e pediria que fossem ao meu quarto ver o que se passava, ou, simplesmente, que falassem comigo para eu poder ouvir uma voz conhecida e de confiança.
E foi aí que percebi, para grande tristeza minha, que já não consigo acreditar no Peter Pan, ou no Pai Natal, ou no menino Jesus. Porque se me aparecesse um menino a voar no meu quarto, ou um velho de barbas na sala, ou uma voz desconhecida na minha cabeça, entraria em pânico e considerar-me-ia definitivamente doida.
Mas ontem à noite, esperei por ele outra vez. Sorri ao pensar que ele voltaria e levar-me-ia mais uma noite para longe. De repente, ouvi dois estalidos na persiana. Seria ele? E então, percebi, que já não era mais criança para acreditar num Peter Pan. Isto porque fiquei muito assustada, tive a certeza de que, se ouvisse alguma voz a chamar o meu nome, por mais jovial que fosse a voz, sentir-me-ia apavorada e correria até ao quarto dos meus pais, provavelmente, e pediria que fossem ao meu quarto ver o que se passava, ou, simplesmente, que falassem comigo para eu poder ouvir uma voz conhecida e de confiança.
E foi aí que percebi, para grande tristeza minha, que já não consigo acreditar no Peter Pan, ou no Pai Natal, ou no menino Jesus. Porque se me aparecesse um menino a voar no meu quarto, ou um velho de barbas na sala, ou uma voz desconhecida na minha cabeça, entraria em pânico e considerar-me-ia definitivamente doida.
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