segunda-feira, novembro 30, 2015

BCN #52

A aventura é também feita de distância. O tempo não pára à nossa espera, os lugares caminham à mesma velocidade, o tempo transforma na mesma medida. E assim as relações se constroem, se maturam, evolvem. Mantenho as ligações pelos diversos meios que o desenvolvimento tecnológico me permite. Mas são pequenas linhas invisíveis que não podem transmitir tudo. Sinto-me perto, sinto-os perto, mas falta um toque. Um abraço. Um olhar. 

quinta-feira, novembro 26, 2015

BCN #51

Fui ao primeiro jantar de serviço desde que cá cheguei. Vem muita gente, internos, especialistas, enfermeiros, educadoras sociais, administrativas. Vem o chefe. Todos sorriem em conjunto. Parece-me que, de facto, as vozes espanholas são mais sonoras que as portuguesas (ou pelo menos as que eu conheço). Bebem-se uns copos, provam-se tapas. Explicam-me o que é cada prato e retiro deles a novidade do país onde estou e a proximidade do sabor lusitano. Como aquele choco frito, suficientemente tradicional para ser catalão, mas surpreendentemente evocativo da especialidade da minha cidade natal. Falam-me dos diferentes embutidos, como o fouet, e de como são feitos com os intestinos do porco. O empregado dispara os vários pratos disponíveis e escolho o único cujo nome consegui apanhar. Fala-se de dança, de cerveja, observa-se o flirt da ponta da mesa e avisa-se o T. para levantar os olhos do decote da P. Rimo-nos. Comemos e disfrutamos. Que bom fazer parte de uma equipa.

quarta-feira, novembro 25, 2015

BCN #50

Vivo numa casa de gente alegre. Sei que a A. está a chegar porque oiço a sua voz a cantarolar pelas escadas acima. Entra e prossegue, animada. Segue para a sala, pega na guitarra e junta música à festa. É já de noite, mas pouco importa. A felicidade é para ser vivida de peito cheio a qualquer hora.
E hoje sinto-me um pouco mais satisfeita. Empenhei-me na árdua tarefa de encontrar os sapatos perfeitos para uma ocasião formal que se aproxima. Sim, é árdua para quem não tolera muito bem este tipo de compras. Mas tinha que ser. Fui para a avenida que já conhecia por ter muitas sapatarias e fui pululando entre elas. Procurava o toque barcelonês dos sapatos que tenho visto por aqui. Elegante, algo andrógeno, uma reinvenção dos elementos masculinos subitamente apropriados (e bem!) pelo mundo feminino. Depois alguns experimentos encontrei. Estou satisfeita. Acho que me portei à altura. E, sim, é um ato que necessita ser festejado.

terça-feira, novembro 24, 2015

BCN #49

A empatia é uma característica empática para qualquer profissional de saúde. Mais ainda, creio eu, para quem trabalha em saúde mental. é o que nos permite conhecer melhor o outro, asim como sentir mais de perto o seu sofrimento. O que, por vezes, é duro para nós próprios. Porque somos humanos, feitos de emoções e relações. E há vezes em que o sofrimento do outro ressoa mais em nós.
Como hoje, quando uma mulher implora que lhe parem toda a medicação porque já não suporta mais a cefaleia crónica que tem há anos. Depois de uma nova tentativa de mudança de medicação, piorou e nem era para vir hoje, conta, que nem se consegue levantar da cama. O marido obrigou-a a vir, ele que também se encontra lacrimejante. A incapacidade provocada pela dor crónica espelha-se no seu sofrimento e no do marido. E eu quero ajudá-la. Quero que não sinta mais dor, que viva a vida que exige e que merece. Faço o meu melhor. Desejo-lhe as melhoras. Do fundo do coração.

segunda-feira, novembro 23, 2015

BCN #48

Assim não pode ser, disse-me. Sinto a pressão e a pressa. O doente não foi avisado, a família não foi avisada, o relatório não está pronto. Na sexta disse-me que se faria segunda de manhã e afinal hoje já não há tempo. A ambulância já está à espera. O que está feito está pobre. Falta isto e isto. Corro para que seja tudo mais rápido (imagino eu). Sei que é o teu primeiro relatório, mas não pode voltar a acontecer. Agora já sabes como é. Quero que invistas mais. Que te impliques mais. O próximo doente terá de ser como se fosse teu filho. 
Entendido. Não voltará a acontecer. Aqui vou trabalhar a sério. Finalmente.

domingo, novembro 22, 2015

BCN #47

Dia de despedidas. Não sem antes um brinde logo pela manhã com os respetivos cappucino, café com leite e chocolate quente.
À tarde haveria outra despedida. Sem pressas, aproveitamos o dia como se tivessemos o tempo todo do mundo. Como se tivessemos em nossa casa, para sempre. No sofá, vendo televisão. Cozinhando o almoço (as salsichas alemãs para partilharmos a experiência). Revendo as fotografias destes dias no computador. 
Assim, talvez, a despedida não seja tão difícil. Assim, talvez, só nos recordemos que nos veremos apenas daqui a umas boas semanas mesmo antes de sair de casa. Depois da mala feita e chave na porta. Talvez a vivência da tranquilidade caseira me deixe este sentimento bom prolongar-se um pouco mais.
Até breve.

sábado, novembro 21, 2015

BCN #46

Na casa Batlló respira-se Gaudi. Novamente, sem linhas retas, ondulações ergonómicas, incorporações naturais. O azul dos mosaicos ao longo do pátio interior vão clareando a sua cor para que, no final, com a luz do sol, tudo seja uniforme. Um cogumelo gigante onde se senta o casal apaixonado e o pau de cabeleira. A espiral do teto no salão. As cores, a escadaria, as madeiras e os vidros. E, há que notá-lo, um audio-guia que nos ajuda a entrar no espírito gaudiano.
Último jantar antes da partida. Mais tapas e pinchos, numa casa em que, da mesa onde estamos, vemos flamenco na televisão. Impressiona-me a intensidade com que se desenrolam as mãos e se fazem soar os pés. Há uma mística que, só depois de entender a música, se poderá dançá-la. 
Ainda tenho muito que apreender por aqui.

sexta-feira, novembro 20, 2015

BCN #45

Saio a correr do trabalho para reencontrá-las de novo. Regresso hoje ao miradouro onde estive  a semana passada, quero partilhar com elas a paisagem que me encantou. Tenho, quiçá, alguma dificuldade em guardar os pequenos prazeres só para mim, se me entusiasmam necessito partilhá-los com quem amo. Para que não seja apenas meu, para que não restrinja o outro de se entusiasmar como eu. E, por isso, subo com alegria a estrada íngreme por saber que valerá a pena. Apesar do olhar inocentemente ameaçador de quem sobe a custo. No fim, os sorrisos confirmam que valeu a pena.

quinta-feira, novembro 19, 2015

BCN #44

Fui a única médica do serviço. Assim, tudo segue à minha velocidade, ao meu gosto. Vou conhecer o novo paciente que, deitado qual deus grego na sua cama, me diz que sou boa pessoa porque o vê na cor dos meus olhos. 
Ao final da tarde junto-me aos amores que me vieram visitar a Barcelona. Junto ao Aquário, comemos uns crepes e bebemos chocolate quente. Rimo-nos. Não se sente a distância nem o tempo que nos separou. Não se distingue nenhuma timidez pelo primeiro encontro recente entre elas. Como uma amizade de sempre, ainda antes de o ser. 
Cumpriu hoje a promessa de nos entregar as prendas que nos trouxera da Alemanha. As salsichas de Munique, os chocolates, as gomas. E uma prenda para o meu aniversário. Uma camisola verde, com escritos em alemão. Uma camisola com muito significado. Fora a nossa primeira troca realizada há alguns anos, em nome da amizade que se criara, uma camisola verde por uma t-shirt colorida. Quando nos reencontrámos, anos mais tarde, repetiu-se o gesto. É mais que uma camisola. É o reafirmar de uma amizade sólida e bonita. 
Que bom ter este amor tão perto.

quarta-feira, novembro 18, 2015

BCN #43

À mesa estamos cinco pessoas. Provam-se tapas, bebe-se sangria, relaxa-se do dia longo, que agora se finaliza da melhor maneira. Sorrimos, falamos uma língua em comum, mas que não é a materna de nenhuma de nós. Há três nacionalidades diferentes à mesa, pelo que se escolhe o inglês internacional para comunicar. O sorriso, esse, é transversal. Ainda há pouco estavamos tão distantes. Uma velha amiga na Alemanha, a sua irmã na Roménia, um grande amor em Portugal e uma nova amiga na Catalunha. Não deixo de me maravilhar com as possibilidades do mundo em que vivo. Que bom ter tanto carinho aqui tão perto. Que bom poder matar tantas saudades de uma só vez. Um brinde!