domingo, fevereiro 07, 2010

O peito pesa-me como há muito não acontecia. Fugiste-me. Não o deixei, mas fugiste na mesma. Preparaste bem o escape, explicavas-me como o tempo altera rotas, como é o expectável, como não te surpreenderia. Passo por ingénua por acreditar em nós. Sorrias e olhavas por cima de mim.
E hoje és tu. Disseste "não me conheces". E o peito dói por ver que não nos conheço. Eu estive sempre muito atenta e não o vi chegar. Ou talvez tenha visto. Mas tu dizias que era mesmo assim e eu sou apenas ingénua e não tenho o direito de lutar por algo em que acredito. É o tempo que altera as rotas. Não somos nós que decidimos por onde vamos. Não sou eu que te posso prender a nós. Não és tu que decides o teu vagar nem os teus dias. Não tens controlo. Não terei também, talvez. A minha vontade não valerá de muito, as tentativas repetidas não te provarão nada em contrário ao que sempre me disseste, é tudo expectável.
Dói. A ingenuidade. Ou a falta dela.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Conta comigo. Sei que mal me vês, que tens outros mais presentes, mas não me esqueças. Este sorriso faz-me falta e sentimos de igual forma, não vês? Sei que não sou a primeira escolha, que há a companhia do costume e é mais prático marcar o número de sempre, mas se ficarem treze à mesa e a superstição falar mais alto, terei todo o gosto. Se ninguém estiver com grande vontade, tenta-me. Enfim, se a angústia te bater à porta, será um prazer combatê-la a teu lado. Estarei em boa companhia e a alma cresce. A partilha fertiliza-nos. Sei que o sentes também. E, mesmo que não me vejas em ocasiões frequentes, lembra-te que o sinto contigo. Conta comigo, sim?

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Lamento. Não consigo terminar a porcaria do texto. E, sim, continuo sem dizer asneiras. Ainda vou tentar.

Também tenho saudades.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Nota sobre SEM

Terminei.

Os últimos posts actualizados foram o SEM #13, #14 e #20. Espero que gostem da viagem que vos trouxe para casa.

Obrigada por continuarem por cá. Gosto de voltar e de vos ver aqui.

segunda-feira, agosto 31, 2009

SEM #32
Ainda bem que estava meio adormecida durante as despedidas finais. O coração estava mais calmo e a alma ainda descansada. A cabeça, anestesiada, não nos incomodou. Quase que não reparei que se tinham ido embora para longe. Por muito tempo.
O tempo podia ter sido mau nos meus olhos, mas tivemos sorte, o amanhecer trouxe um céu limpo no nosso sorriso.
Afortunada. Mudaremos este final. Havemos de nos encontrar de novo, a meio caminho.


Fim

domingo, agosto 30, 2009

SEM #31
Foi a última noite e as horas eram preciosas. Não dispensámos o passeio nocturno e acabámos junto ao rio. O sol acabara de se deitar, sentámo-nos na ponte e tentámos não nos perder. A conversa fluiu, como sempre. Seguiríamos o curso do rio e cada uma de nós chegaria a casa algum tempo depois. Avisaram-me para ter cuidado e não virar à esquerda num certo cruzamento ou não chegaria ao meu país. Recitou-se um poema sobre o mar numa lingua que não compreendo, mas cuja musicalidade encanta. Faltou-me a memória para um poema de casa, mas não esqueci as histórias. Sentámo-nos de costas para a cidade e despedimo-nos. Cantou-se e aprendemos a contar tempos bizarros. O frio apertou e as mãos tornaram-se instrumentos de sopro sem vergonha na noite aberta desta cidade que nos acolheu. Rimo-nos. Há tanto mais a aprender aqui, com esta gente. Um dia, quem sabe, passearemos de novo junto a um rio pela noite. Noutro lugar. Talvez então já terei um poema para a ocasião.

sábado, agosto 29, 2009

SEM #30
Não vem escrito em lado nenhum. Inventam-se os livros de viagens, que aconselham todos os hoteis e restaurantes, os monumentos e museus essenciais ao turista e, quem os segue, sentes-se satisfeito por ter cumprido o programa e conhecer em profundidade o país. Mentira. As fotografias e o dinheiro gasto não chega. É preciso escavar, ir pelos caminhos estreitos, às terras escondidas e é preciso perder-se.
Perdemo-nos entre as gentes da pequena cidade. Uma rua enfeita-se de bancas onde cada família cozinha para nós. O prato é o mesmo, o entusiasmo o mesmo, o sabor tenta diferir para ganhar o concurso. São muitos tachos a cozer ao longo da rua, mas não é o que mais fascina. Sinto-me convidada em casa alheia. As famílias cruzam-se, cumprimentam-se, servem-se os pratos sem pedir nada em troca, traz-se mais farnel de casa, as crianças juntam-se à mesa e uma banda popular canta músicas do país vizinho, um irmão de armas e de história mas por vezes conflituoso. E não há livro que nos convide a esta festa. (Nem o Lonely Planet.) É preciso a família convidar. É preciso o país querer-nos lá, pegar em nós e partilhar connosco. Há muito mais além dos livros.

sexta-feira, agosto 28, 2009

SEM #29
Isto não volta mais. Todos juntos numa sala vermelha, celebramos a despedida e, apesar disso, sente-se um começo. Terminámos apenas de nos conhecer. Agora sei como soa aquele riso, sei que piadas esperar dali, sei em que ouvido desabafar, sei o olhar que me fará sorrir, sei que expressão aqueles lábios insistem em repetir e sei o sonho daquela alma. Sei agora por onde seguir, sei como mergulhar em cada um deles, descobri o caminho brilhante de cada um. Somos todos tão diferentes que é impossível não nos apaixonarmos pela harmonia irresistível destas diferenças. Sorrimos de igual forma.
Ela sorria e dançava no seu jeito típico, braços largos e elevados, libertos, e a alegria esvoaçava com ela. Observei-a. Acordo para tudo o que absorvi. Apercebo-me do quanto ela, a sua dança, o seu sorriso, fará a saudade apertar cedo, como cada particularidade de cada um de nós se crava como única na memória e vai insistir em regressar. O peito aquece e os olhos tentam controlar-se.

quinta-feira, agosto 27, 2009

SEM #28
Almoçávamos perto do centro e a ciganita veio estender-nos a mão com palavras incógnitas. Uma de nós imediatamente lhe oferece a sandes que tinha na mão e que se preparava para comer. A cigana não hesita em recolher a oferta, mas mantém-se perto. A doadora insiste, na nossa língua internacional, que já tinha que comer, que podia ir andando. A ciganita estende-nos a outra mão e recomeça o choradinho, indiferente à dádiva. Do nosso lado, há protesto, aponta-se para a sandes entre palavras que se repetem devagar para se tornarem mais claras e a ciganita acaba por perceber a lógica destas viajantes. Devolve a sandes e repete a lengalenga. Estupefactas, desistimos de ajudar.
As prioridades dos outros confundem-nos.

quarta-feira, agosto 26, 2009

SEM #27
Aqui há problemas de gente crescida. Aqui onde um prematuro, das outras margens, corresponde em tamanho à cabeça de um internado. Aqui não é a lingua a maior barreira de comunicação. Aqui perde-se esperança.
Na cama do fundo, M. Antov, repousando em coma, representa uma das consequências mais graves do contacto com uma espécie ameaçadora neste país: a carraça. Infectada com um bichinho devastador, trouxe uma encefalite severa a este senhor que se preparava para atingir a meta da velhice. Ali descansa, sem ser possível prever-lhe grande futuro.
Ao seu lado, outro senhor, adormecido no mesmo destino, é o resultado de vários episódios de uma tragédia que muitos temem na idade madura. Acidente Vascular Cerebral. Não se sabe a equação final.
Chamam-me a atenção para o seu nome. V. Antov. Irmão. Lado a lado no infortúnio, por mero acaso, numa casa onde não querem pertencer. Uma história que não se sabe, nem se quer, contar.