Cara - ,
Estou só e cansada e preciso de falar. Já ninguém me ouve há algum tempo. Tenho estado calada, bem verdade. Mas não me vês agora ansiosa por uma conversa prolongada? Tu, que me vais ler quando tiveres tempo, não me vais interromper agora em que direi o que me lembrar.
É difícil estar só. É muito difícil querer ser alguém completamente diferente. E não falo de como todos somos diferentes e iguais, em que parece existir um pote de características comuns de onde retiramos as nossas e cuja combinação nunca será igual a de mais ninguém. Não. Peguei em algo original. E, condenada por isso, sinto-me só. Não escolhi nada, sou assim. Quis mudar, mas apenas o impulso basta para me enojar. Não há como fugir a mim. E não há como viver assim.
É tão frustrante para mim escrever sempre com as mesmas palavras. Li certo dia que usamos apenas cerca de 300 palavras no nosso vocabulário. Os meus textos não são mais que uma composição dada dessas mesmas 300 palavras, possivelmente ainda menos. É por isso que às vezes me sinto tão pobre. Qualquer um pega em palavras como "ti", "comigo", "pensar" ou "sentir" e escreve um bonito texto porque, ao ser o mais geral possível, maior é a possibilidade de quem ler interpretar de uma maneira agradável para si. Sou simples e sou oca, diz-me a palavra.
Lembro-me dos primeiros tempos da nossa amizade. O fascínio, a velocidade com que trocava de sentimentos por ti, o entusiasmo, a novidade, a surpresa. Queria poder contar-te tudo de novo, como te fiz ao princípio em que me despi depressa enquanto sorria, tão tola, por conseguir. Admirei-te por me teres feito amar-me. Mas passou. Sinto isso hoje. Já criei as minhas barreiras para ti, já me olhaste desconfiada e incompreensível. Já me embaraçaste. Já não me procuras. Já não precisas de mim. Já não sabes que este texto é para ti. Não te posso perder. Devolve-me os olhos fundos e o sorriso tentador. Preciso de me voltar a sentir fascinante.
Perdoa-me a falta de senso de todo este texto. É muito tarde para mim e vim de um sitio que não me pertence. Estava lá gente minha, mas o meio não me serve. Cheiro a esse lugar nas mãos e nos cabelos, espero que não me perturbe o sono que já pesa em mim. Até breve, espero, um grande abraço que nunca trocámos para ti,
Laura
(Repara na quantidade de vezes que usei as palavras "mim" e "ti" nesta carta. Mas descanso porque isto não é poesia nem prosa, são frases mal apagadas da cabeça estoirada. Não quero ser poeta aqui.)
domingo, fevereiro 25, 2007
sábado, janeiro 13, 2007
A Condição Sobre-Humana
Pedro sofre de uma condição terrível. Não sabe viver de outra forma e é uma pessoa triste por não ser como nós. Pedro não sente abraços por causa da sua condição. Não beija, não sabe como, não arrisca toques discretos nem se descai em tiques nervosos. Não tem qualquer sinal de espontaneidade. Não se sabe perder numa música ou num poema, Pedro não compreende a arte, não lhe encontra utilidade. Não vê cores para além das reais, não descobre áureas sobre a cabeça de ninguém. Não acredita em superstições, não usa amuletos, nem reza. Não sabe andar nas nuvens, ir à lua ou perder a cabeça. Não compreende os termos nem quem se vence por eles. Pedro é incapaz de enlouquecer, apesar de todas as limitações angustiantes que o atormentam, porque a sua própria condição o impede. Não sabe dançar e não sabe fingir. Pedro não se ri histericamente nem é capaz de disparatar para divertir os amigos. Pedro não tem amigos. Não compreende quem se enamora. Pedro não se enamora, falta-lhe a loucura (porque Pedro não enlouquece) e o esquecimento. Ele não esquece, sabe de cor cada palavra que disse e o que lhe responderam, cada pequena traição, cada descuido, cada hálito perceptível. Não consegue abstrair-se dos pequenos detalhes errados, especialmente dos seus. Uma palavra embrulhada na língua, um desequilíbrio ridículo, uma cor desencontrada na roupa, um cabelo teimoso, um espirro sonoro, um esforço inútil e embaraçoso por não ser nada disto, uma tentativa facilmente desmascarada de ser tão livre como os outros. Pedro não é livre, é prisioneiro dos seus planos e horários, que cumpre escrupulosamente, porque tem de ser, e não tem a capacidade de improvisar. Não consegue perder tempo. Todos os gestos são estudados e elaboradamente descritos e previstos muito antes de os executar. Pedro perdeu o instinto. Tem protocolos determinados para vestir, despir, abrir a porta, cumprimentar o vizinho, dormir. Mas Pedro adormece de coração pesado, escondido da noite por baixo dos lençóis. Até o sono chegar, Pedro afoga-se em vergonha, por todos os pormenores que falhou durante o dia, mas que apenas ele recordará de novo, e culpa, por ter cedido à sua debilitação e impotência para mudar. Viverá para sempre nesse estado estático e constante. Pedro sabe exactamente tudo o que é afectado em si por esta monstruosa condição e, por isso mesmo, padece mais, por saber o quanto é poderosa e impossível de eliminar. Uma vez atingido na sua totalidade, um indivíduo jamais se poderá libertar dela. Faz parte do processo ter noção de tudo isto, faz parte o martírio constante durante os momentos de solidão, que, aliás, se tornam mais comuns. Ninguém aceita gente como o Pedro, mudas porque não há nada para dizer, buracos bem fundos que recolhem tudo o que os rodeia mas jamais dão algo de volta. Não são iguais. Pedro está só e cada vez se isolará mais. Pedro possui uma terrível condição que o impede de viver entre nós, de viver como um de nós. Pedro está desesperado por ser quem é. Pedro não pode mudar. Pedro sofre de Consciência.
Pedro sofre de uma condição terrível. Não sabe viver de outra forma e é uma pessoa triste por não ser como nós. Pedro não sente abraços por causa da sua condição. Não beija, não sabe como, não arrisca toques discretos nem se descai em tiques nervosos. Não tem qualquer sinal de espontaneidade. Não se sabe perder numa música ou num poema, Pedro não compreende a arte, não lhe encontra utilidade. Não vê cores para além das reais, não descobre áureas sobre a cabeça de ninguém. Não acredita em superstições, não usa amuletos, nem reza. Não sabe andar nas nuvens, ir à lua ou perder a cabeça. Não compreende os termos nem quem se vence por eles. Pedro é incapaz de enlouquecer, apesar de todas as limitações angustiantes que o atormentam, porque a sua própria condição o impede. Não sabe dançar e não sabe fingir. Pedro não se ri histericamente nem é capaz de disparatar para divertir os amigos. Pedro não tem amigos. Não compreende quem se enamora. Pedro não se enamora, falta-lhe a loucura (porque Pedro não enlouquece) e o esquecimento. Ele não esquece, sabe de cor cada palavra que disse e o que lhe responderam, cada pequena traição, cada descuido, cada hálito perceptível. Não consegue abstrair-se dos pequenos detalhes errados, especialmente dos seus. Uma palavra embrulhada na língua, um desequilíbrio ridículo, uma cor desencontrada na roupa, um cabelo teimoso, um espirro sonoro, um esforço inútil e embaraçoso por não ser nada disto, uma tentativa facilmente desmascarada de ser tão livre como os outros. Pedro não é livre, é prisioneiro dos seus planos e horários, que cumpre escrupulosamente, porque tem de ser, e não tem a capacidade de improvisar. Não consegue perder tempo. Todos os gestos são estudados e elaboradamente descritos e previstos muito antes de os executar. Pedro perdeu o instinto. Tem protocolos determinados para vestir, despir, abrir a porta, cumprimentar o vizinho, dormir. Mas Pedro adormece de coração pesado, escondido da noite por baixo dos lençóis. Até o sono chegar, Pedro afoga-se em vergonha, por todos os pormenores que falhou durante o dia, mas que apenas ele recordará de novo, e culpa, por ter cedido à sua debilitação e impotência para mudar. Viverá para sempre nesse estado estático e constante. Pedro sabe exactamente tudo o que é afectado em si por esta monstruosa condição e, por isso mesmo, padece mais, por saber o quanto é poderosa e impossível de eliminar. Uma vez atingido na sua totalidade, um indivíduo jamais se poderá libertar dela. Faz parte do processo ter noção de tudo isto, faz parte o martírio constante durante os momentos de solidão, que, aliás, se tornam mais comuns. Ninguém aceita gente como o Pedro, mudas porque não há nada para dizer, buracos bem fundos que recolhem tudo o que os rodeia mas jamais dão algo de volta. Não são iguais. Pedro está só e cada vez se isolará mais. Pedro possui uma terrível condição que o impede de viver entre nós, de viver como um de nós. Pedro está desesperado por ser quem é. Pedro não pode mudar. Pedro sofre de Consciência.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Não somos um só. Não nos fundimos, não esquecemos o resto do mundo, não morremos um pelo outro. É tudo mentira. Não somos um filme de cores torradas e gestos lentos. Não nos vejo de perto num calor único e eterno. Vejo-te apenas a ti, demasiado perto para te reconhecer. Vejo a ponta do teu nariz e os pêlos da tua face a nascerem discretos. Estás demasiado perto, não consigo ver o mundo. E agora, meu bem, acabou-se. Vim ver como seria se tudo fosse como no ecrã e descobri que não é. É mentira. Não há certezas nem eternidades, não há promessas loucas nem pureza nos actos. Eu tentei embriagar-me no que me faziam crer ser real, mas não chegou. Adeus, meu bem. Afasta-te depressa para que não veja mais o nascimento vagaroso dos pêlos da tua face. Afasta-te para que veja de novo os teus olhos num contexto de cara e os possa fixar e dizer-lhes palavras sinceras de amizade. Afaste-me um pouco mais para que veja onde estou e quem me esperava aqui perto. Se estiveres longe o suficiente, sou capaz de te mostrar aquilo que sempre foi meu e que, por pouco, ia perdendo. O meu coração arde, mas não é por ti. Não é por este aperto sufocante. É por eles. Alguns deles. São eles que me dão vida, que me constroem e destroem, são o que os filmes confundiram por essa exclusividade. Podias um dia ter-te tornado um deles, se ao menos não te tivesses chegado tanto. A culpa não é tua. Também quis conhecer algo mais – porque falam tanto?! –, mas não sabia que era aqui que devia procurar. Hoje compreendo. Adeus, meu bem, vou voltar para eles. Fico só, sim, mas se fizer o que tiver de ser feito por eles, fico bem. E eu nunca te chegaria. Adeus.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Poemas/Prendas de Natal
Sabes porque chove?
Não, o céu não é egoísta
nem o mundo te quer mal.
Chove porque chove,
Porque o dia assim o pediu.
Enrosca-te no calor da casa,
Fecha os olhos e sorri.
Chove porque chove
E a vida espera por ti.
--------
Não existem sonetos,
nem quadras, nem rimas,
Que compreendam a alegria
de rever o sorriso saudoso
Que rompe distâncias
e torna o tempo moroso
Fica comigo esta tarde
Num café onde possamos rir
Vamos revistar as nossas vidas
Hoje não temos que sair
-------
Se o dia despertar negro,
Recorda beijos de olhos cerrados
Se receberes palavras árduas,
Saboreia melhor as doces
Se chover onde estás,
Dança ao som de Jobim
Se te sentires só,
Já sabes, chama por mim.
---------
Há quem se conforte apenas
Nas memórias doces de um tempo passado
Há quem se afogue na mágoa falsa
De não ser mais que um baú encerrado
Mas há quem conheça outra fortuna,
A das horas e dos dias abertos,
Onde se declaram sonetos de amor
À vida, ao Ser, aos prazeres secretos
E tu, que oiro possuis?
Sabes porque chove?
Não, o céu não é egoísta
nem o mundo te quer mal.
Chove porque chove,
Porque o dia assim o pediu.
Enrosca-te no calor da casa,
Fecha os olhos e sorri.
Chove porque chove
E a vida espera por ti.
--------
Não existem sonetos,
nem quadras, nem rimas,
Que compreendam a alegria
de rever o sorriso saudoso
Que rompe distâncias
e torna o tempo moroso
Fica comigo esta tarde
Num café onde possamos rir
Vamos revistar as nossas vidas
Hoje não temos que sair
-------
Se o dia despertar negro,
Recorda beijos de olhos cerrados
Se receberes palavras árduas,
Saboreia melhor as doces
Se chover onde estás,
Dança ao som de Jobim
Se te sentires só,
Já sabes, chama por mim.
---------
Há quem se conforte apenas
Nas memórias doces de um tempo passado
Há quem se afogue na mágoa falsa
De não ser mais que um baú encerrado
Mas há quem conheça outra fortuna,
A das horas e dos dias abertos,
Onde se declaram sonetos de amor
À vida, ao Ser, aos prazeres secretos
E tu, que oiro possuis?
terça-feira, dezembro 26, 2006
Reflexões sobre o Natal e Ano Novo - ano 06
Este ano decidi acreditar que cada desejo de boas festas apregoado em cartazes nas ruas, em anúncios de televisão, em centros comerciais e por aí adiante se destinavam mesmo a mim. Quis parar para ler bem o que lá estava escrito e pensar, foi para mim que o escreveram, pensaram em mim quando decidiram desejar as boas festas. Sinto-me logo mais bem disposta.
E posso falar de prendas, outra vez. Acho que só este ano me apercebi exactamente do negócio. Isto porque no dia em que decidi dedicar-me a arranjar as prendas que gostaria de oferecer encontrei coisas muito engraçadas, mas apercebi-me que eram apenas engraçadas porque eu precisava de arranjar prendas e que não seriam minimamente úteis ou significantes fora da época. Há realmente coisas muito engraçadas nesta altura, aí está o negócio. Portanto, fiquei muito deprimida nessa altura e decidi revoltar-me. Não comprei prendas para quase ninguém. Tive outras ideias...
Chegaram as vésperas e deu-me uma vontade imensa de dizer a quem estimo o quanto gosto delas. Quis abraçar gente que nunca tinha abraçado antes (e porquê?). Eu sinto o espírito de Natal, o meu espírito, que pode ser bastante diferente dos outros. É para se dizer o quanto se gosta das pessoas e estar em família, não é?... Sim, disse a algumas das pessoas a quem queria dizer. Não abracei nenhuma delas.
E chega esta altura e começamos a rever mentalmente o ano que agora termina, já que não podemos analisar bem o que vem aí porque só vai começar agora. Este foi um bom ano. Bem melhor que o ano passado, que foi terrível para mim. Lutei por algumas coisas, consegui algumas, outras serão terminadas no próximo ano e poucas ficaram para trás. Estou satisfeita.
Tinha pensado em fazer aqui uma selecção dos melhores concertos deste ano. Fui a muitos, nunca tinha ido a tantos e tão importantes. A música é muito importante para mim, cada vez me apercebo mais disso. Um concerto hipnotizou-me completamente pela novidade, pela energia, pelo local, pelo contexto, por tudo, deixei de fazer sentido por uma hora e tal. Noutro concerto cumpri uma grande promessa feita a uma menina pequena há já dez anos. Saltámos e vivemos as duas juntas, não uma vez, mas várias, e agora a minha pequena amiga já vai descansar melhor e sentir-se mais feliz e real. Ela chorou, pobrezita, quando se sentiu real. Foi muito especial para nós. E, finalmente, no concerto da minha vida (acho que posso dizê-lo), revivi uma altura muito importante para mim, entreguei-me às memórias, às descobertas, às vivências intensas dessa época. Esse tempo é, talvez, o maior responsável por aquilo que sou hoje e a música recordou-me o quanto estou grata por isso. Estou tão grata. Vivi tanto aquele concerto, nunca me tinha acontecido. Calculo que saibam os músicos presentes em cada um destes concertos que referi...
E, finalmente, a escrita. Este ano foi tão importante para a afirmação da escrita como a minha arte (cada um tem a sua, digam o que disserem). Acredito que me descobri de novo na poesia (e tenho de agradecer a uma pessoa em especial que inconscientemente me "obrigou" a redescobri-la) e a prosa está pronta para ser testada em termos mais seguros e determinados. Termino o ano com vários projectos promissores em mãos e que me trarão novas revelações. Queria contar-vos tudo agora, mas não posso, é tanto e tão importante que prefiro guardar a surpresa para o momento oportuno. Espero que o próximo ano me traga muitos desses momentos.
Concluindo... dei muitos passos em frente este ano. Não posso parar agora. O ano é muito grande, há muito a fazer, há muito a evoluir e a conquistar. E estou a sentir cada palavra que aqui escrevo.
Páro agora para pensar em todos os que sei que passam por este blog. E, agora que já vos revi, desejo-vos (porque sei quem são) um ano 2007 tão formidável como se compromete hoje a sê-lo. Fiquem comigo, celebrem-no comigo quando chegar a altura. Carpe Diem.
Até muito breve,
Laura Brown
Este ano decidi acreditar que cada desejo de boas festas apregoado em cartazes nas ruas, em anúncios de televisão, em centros comerciais e por aí adiante se destinavam mesmo a mim. Quis parar para ler bem o que lá estava escrito e pensar, foi para mim que o escreveram, pensaram em mim quando decidiram desejar as boas festas. Sinto-me logo mais bem disposta.
E posso falar de prendas, outra vez. Acho que só este ano me apercebi exactamente do negócio. Isto porque no dia em que decidi dedicar-me a arranjar as prendas que gostaria de oferecer encontrei coisas muito engraçadas, mas apercebi-me que eram apenas engraçadas porque eu precisava de arranjar prendas e que não seriam minimamente úteis ou significantes fora da época. Há realmente coisas muito engraçadas nesta altura, aí está o negócio. Portanto, fiquei muito deprimida nessa altura e decidi revoltar-me. Não comprei prendas para quase ninguém. Tive outras ideias...
Chegaram as vésperas e deu-me uma vontade imensa de dizer a quem estimo o quanto gosto delas. Quis abraçar gente que nunca tinha abraçado antes (e porquê?). Eu sinto o espírito de Natal, o meu espírito, que pode ser bastante diferente dos outros. É para se dizer o quanto se gosta das pessoas e estar em família, não é?... Sim, disse a algumas das pessoas a quem queria dizer. Não abracei nenhuma delas.
E chega esta altura e começamos a rever mentalmente o ano que agora termina, já que não podemos analisar bem o que vem aí porque só vai começar agora. Este foi um bom ano. Bem melhor que o ano passado, que foi terrível para mim. Lutei por algumas coisas, consegui algumas, outras serão terminadas no próximo ano e poucas ficaram para trás. Estou satisfeita.
Tinha pensado em fazer aqui uma selecção dos melhores concertos deste ano. Fui a muitos, nunca tinha ido a tantos e tão importantes. A música é muito importante para mim, cada vez me apercebo mais disso. Um concerto hipnotizou-me completamente pela novidade, pela energia, pelo local, pelo contexto, por tudo, deixei de fazer sentido por uma hora e tal. Noutro concerto cumpri uma grande promessa feita a uma menina pequena há já dez anos. Saltámos e vivemos as duas juntas, não uma vez, mas várias, e agora a minha pequena amiga já vai descansar melhor e sentir-se mais feliz e real. Ela chorou, pobrezita, quando se sentiu real. Foi muito especial para nós. E, finalmente, no concerto da minha vida (acho que posso dizê-lo), revivi uma altura muito importante para mim, entreguei-me às memórias, às descobertas, às vivências intensas dessa época. Esse tempo é, talvez, o maior responsável por aquilo que sou hoje e a música recordou-me o quanto estou grata por isso. Estou tão grata. Vivi tanto aquele concerto, nunca me tinha acontecido. Calculo que saibam os músicos presentes em cada um destes concertos que referi...
E, finalmente, a escrita. Este ano foi tão importante para a afirmação da escrita como a minha arte (cada um tem a sua, digam o que disserem). Acredito que me descobri de novo na poesia (e tenho de agradecer a uma pessoa em especial que inconscientemente me "obrigou" a redescobri-la) e a prosa está pronta para ser testada em termos mais seguros e determinados. Termino o ano com vários projectos promissores em mãos e que me trarão novas revelações. Queria contar-vos tudo agora, mas não posso, é tanto e tão importante que prefiro guardar a surpresa para o momento oportuno. Espero que o próximo ano me traga muitos desses momentos.
Concluindo... dei muitos passos em frente este ano. Não posso parar agora. O ano é muito grande, há muito a fazer, há muito a evoluir e a conquistar. E estou a sentir cada palavra que aqui escrevo.
Páro agora para pensar em todos os que sei que passam por este blog. E, agora que já vos revi, desejo-vos (porque sei quem são) um ano 2007 tão formidável como se compromete hoje a sê-lo. Fiquem comigo, celebrem-no comigo quando chegar a altura. Carpe Diem.
Até muito breve,
Laura Brown
sábado, dezembro 23, 2006
Agora tem de ser segredo, se alguém me apanha estou tramada. Tenho de estar com atenção, não posso cair no erro de dar pistas. É tão difícil esconder um sorriso, felizmente ninguém volta para trás para confirmá-lo. Oh, vida, quem diria... Dizia eu, todos os dias, para me poder levantar da cama e seguir pelas horas adentro à procura da Hora. Não sei se já chegou, mas é algo novo. E é segredo. E é medo, e é terror por não saber ser, por nunca ter sido, por não saber fingir saber ser. Medo precoce. Mas tenho sempre o sorriso inconsciente e o sinal atrás da orelha.
domingo, dezembro 10, 2006
Eu explico:
Eu tenho escrito, sim, não me esqueço disso. Só que o que tenho escrito são coisas para projectos específicos e que não posso pôr aqui. O último post foi apenas um texto que escrevi para não deixar este blog muito tempo sozinho. Eu prometo que até ao fim do ano eu ponho algo decente, mas preciso da vossa compreensão para esta ausência incómoda. E também fica prometido que assim que tiver os tais projectos terminados, bem bonitos e arranjados, eu mostro aqui! Até lá...
Laura Brown
Eu tenho escrito, sim, não me esqueço disso. Só que o que tenho escrito são coisas para projectos específicos e que não posso pôr aqui. O último post foi apenas um texto que escrevi para não deixar este blog muito tempo sozinho. Eu prometo que até ao fim do ano eu ponho algo decente, mas preciso da vossa compreensão para esta ausência incómoda. E também fica prometido que assim que tiver os tais projectos terminados, bem bonitos e arranjados, eu mostro aqui! Até lá...
Laura Brown
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Filo fax. Hora de sair de casa, já com algum atraso. Tranco a porta antes de ir andando para ter a certeza que não me esqueço das chaves. Volto a entrar antes disso para confirmar se o gás está desligado. Agora sim, desço pelas escadas, fecho a porta do prédio que quase de certeza está aberta. Subo a rua. No café, lá está a senhora de idade sentada na mesma cadeira, à mesma mesa, a olhar para quem passa, com os pés em cima da outra cadeira e com um café por perto. Pela roupa que traz, bem que poderia estar em casa. Talvez esteja. Continuo a subir. A escola primária está cheia de crianças eléctricas. Os rapazes assustam-me com algumas brincadeiras que têm. Não há tempo para olhar para as inocências a serem quebradas. Primeira passadeira, não costuma vir ninguém, segunda passadeira, não desvio o olhar enquanto não chegar ao outro lado. Continuo a subir. Terceira passadeira, a mais assustadora. Há carros que não param, há carros que ameaçam parar, há carros que param muito em cima. Geralmente começam a parar lá atrás, mas só avanço quando tenho a certeza que estão a dar-me passagem. Paro a meio para ter a certeza que não vem ninguém na segunda faixa, para que não aconteça como certa vez. Passei finalmente. Primeiros semáforos. Vermelho para mim. Olho para as horas expostas na rua, 9:53. Estou a tempo. Olho para o ecrã também lá perto, vejo as notícias e o cartaz. Os carros à minha frente param e avanço até à próxima faixa que está a andar. Está verde na passagem seguinte, infelizmente tenho de esperar que estes muitos carros parem. Cá está, verde finalmente para mim e o seguinte, que há pouco estava verde, fica vermelho. Carros da direita passam à minha frente, eu espero, não há pressa, tenho tempo. Fica verde para mim, mas ainda há carros a passar, uns poucos. Passei a estrada. Quarta passadeira, costumam parar. Chego à entrada lateral do hospital, digo “bom dia” ao segurança (ele fica tão contente, responde com um “bom dia” muito seguro e sério, mas no fundo, no fundo, sente falta dele quando eu não levanto a cabeça). Camiões a entrar e sair do hospital por aquela porta, tenho de lhes dar prioridade porque o espaço é estreito e não quero meter o pé na lama. Subo o caminho pela esquerda, chego a parte do estacionamento. Vem o cheiro às laranjas que estão nas árvores por ali espalhadas. Sabe bem, para contrastar com o cheiro a escape de há pouco. Vou pela estrada alcatroada para não ficar com os sapatos sujos. Há poças de água e carros na minha direcção, mais uma vez dou-lhes passagem porque não quero pôr o pé na água. Não há problema, chego a horas. Quando existe finalmente passeio do meu lado esquerdo, subo para lá e sigo, já sem contratempos, até ao Edifício. Gente a fumar à porta, de bata e ar novo, mas maduro. Alguns conhecidos dispersos dentro do edifício. A sala está aberta, olho o relógio na parede da esquerda, 10h em ponto, entro na sala e começa o dia.
segunda-feira, novembro 20, 2006
[...] Não, não chorei nesse dia nem nos que se seguiram. Para ser franca, não me recordo bem dos dias seguintes. Lembro-me do silêncio, lembro-me do meu pai deixar de ter o olhar vazio do dia anterior e de o encher de desprezo por mim. Não me lembro de ouvir a sua voz dirigida a mim. Lembro-me da senhora que cuidava da nossa casa se dirigir a mim, dizia-me que o almoço estava servido, que o jantar estava servido, que o meu pai já tinha saído, que o meu pai estava no escritório e que não queria ser incomodado, que tivesse calma com o meu pai, que tivesse cuidado comigo. Lembro-me que era a única que me tocava, abraçava-me quando o meu pai saía, como se tivesse medo que eu o quisesse seguir. Não me lembro de mais ninguém. Não me lembro da cerimónia, não me lembro da família, não me lembro dos telefonemas nem dos cartões. Lembro-me só do silêncio e dos dias azuis. [...]
[um pequeno excerto de um longo projecto que tenho em mãos desde Agosto. O resto só será divulgado quando estiver tudo terminado. Ainda vai demorar.]
[um pequeno excerto de um longo projecto que tenho em mãos desde Agosto. O resto só será divulgado quando estiver tudo terminado. Ainda vai demorar.]
sábado, outubro 28, 2006
Hoje acordei-me ao espelho e era feia
E se eu fosse uma farsa?
E se eu fosse uma falsa optimista,
Um sorriso conveniente, uma piada triste?
[...]
E se eu fosse fraca em vez de forte,
se fosse cega em vez de visionária,
se fosse fria em vez de amiga?
O que seria de mim
se um dia todos acordassem
para essa realidade em que sou
uma farsa?
Ele sabe que sim.
Atira-mo à cara sempre que pode
Ri-se de mim
Como todos aqueles que apenas me vêem passar o fariam
se descobrissem o que tento ser
Poeta?! Quem diria...
Tão mortinha e insonsa
Uma tola de queixo arrogante
Que julga apagar a sua vergonha
(tão grande, tão grande)
ao escrever sobre ela...
[...]
Escreve para te lamentarem
Porque o farão, sem dúvida,
aqueles que ainda não viram
a farsa que és
Pensas neles[..]?
Eles são reais, como o teu amor por
alguns
deles, mas tu não o és.
[...]
Porque hoje acordei e, logo de manhã, vi-me ao espelho
Tinha-me deitado bela, com os olhos azuis no seu lugar
E acordei num espaço cru e real
Em que tudo eu sou corpo desarrumado
Caeiro, confio em ti para tornares este
poema em poema.
Vou dormir que é melhor...
[e terminaram por agora este tipo de poemas, não são um bom cartão de visita para ninguém]
E se eu fosse uma farsa?
E se eu fosse uma falsa optimista,
Um sorriso conveniente, uma piada triste?
[...]
E se eu fosse fraca em vez de forte,
se fosse cega em vez de visionária,
se fosse fria em vez de amiga?
O que seria de mim
se um dia todos acordassem
para essa realidade em que sou
uma farsa?
Ele sabe que sim.
Atira-mo à cara sempre que pode
Ri-se de mim
Como todos aqueles que apenas me vêem passar o fariam
se descobrissem o que tento ser
Poeta?! Quem diria...
Tão mortinha e insonsa
Uma tola de queixo arrogante
Que julga apagar a sua vergonha
(tão grande, tão grande)
ao escrever sobre ela...
[...]
Escreve para te lamentarem
Porque o farão, sem dúvida,
aqueles que ainda não viram
a farsa que és
Pensas neles[..]?
Eles são reais, como o teu amor por
alguns
deles, mas tu não o és.
[...]
Porque hoje acordei e, logo de manhã, vi-me ao espelho
Tinha-me deitado bela, com os olhos azuis no seu lugar
E acordei num espaço cru e real
Em que tudo eu sou corpo desarrumado
Caeiro, confio em ti para tornares este
poema em poema.
Vou dormir que é melhor...
[e terminaram por agora este tipo de poemas, não são um bom cartão de visita para ninguém]
Subscrever:
Mensagens (Atom)