sábado, março 04, 2006

(...)
Tenho amigos. Rimos juntos, choramos à vez, partilhamos horas e, de vez em quando, dizemos que gostamos muito uns dos outros. O que é verdade e sabe bem. (...)
Qual o nome para o calor no peito quando, no escuro de um quarto, vemos um filme encostados, cabeças pousadas os ombros de outros?! Ou um abraço num dia especial, ou num dia normal. Ou um beijo na face inesperado e doce. Ou uma dança sedutiva a alguém que sabemos que não se seduzirá, que se ri como nós do exagero dos movimentos. Ou quando nos apercebemos do génio de alguém e o queremos seguir e absorver tudo o que nos deixar beber. Ou quando nos despimos de cascas a alguém que pouco conhecemos mas cujo olhar nos é tão familiar e convidativo. Ou quando na solidão da noite nos imaginamos junto deles, de cabeça no seu colo, sabendo que nos protegem. Ou quando nos deparamos connosco nos gestos de outro. Ou quando desejamos escrever as palavras mais belas numa dedicatória que alguém tanto merece e julgamo-nos incapazes de as descobrir. Ou quando as lemos e a comoção afoga-nos os olhos. Ou quando as saudades apertam. Alguém conhece o nome desse calor no peito que sinto em todas estas ocasiões? E porque ninguém fala dele?
À falta de melhor... amo-vos.
[mais uma experiência]

Estou doente
Vê-me o meu corpo mole
Os olhos azuis cada vez mais despidos
E diz-me que estou doente
Quis ser poeta e olha onde estou
No ridículo
Numa perda de tempo
(o teste é já segunda)
o meu pai chegou.

sábado, fevereiro 18, 2006

Hoje. Felizmente, não tinha pensado muito no dia de hoje, não tinha planeado as minhas falas, ou mesmo as dos outros, como geralmente faço. Consegui escondê-lo do pensamento, consegui ser espontânea e viver um, e apenas um, momento daqueles. É agora e não posso pensar no que vou dizer. Vou ser eu.
Sei que ao subir estas escadas me vou encontrar com eles. Já não o vejo há mais de um ano (já passaram dois?), vou conhecê-la pela primeira vez. São ambos amigos, diferentes cumplicidades, mas os dois especiais. E nunca a vi… mas sei quem é.
Os olhos inquietos procuram o casaco negro que certamente ele trará. Encontro-o, estão ali. E, num momento, estou de frente para o casal. Sentados nas escadas, entretidos com o seu segredo. Acordam para mim. Sorrio-lhes. Ele continua igual, obviamente, não é pessoa de mudanças. E ela… é quem eu sabia que era. Ao primeiro relance, vi-lhe desenhados no corpo os contornos dos seus desenhos. Era quem me tinha apresentado, “esta sou eu, desenhada por mim, com os meus traços, com as minhas mãos” e, sim, ela sabia quem era. Vi-a, num instante apenas, nua nos seus traços como se me apresentou. Então é ela…
Formalidades cumpridas. Subimos para uma conversa à mesa. Sentei-me à frente dos dois. E conversámos. Receava (ao subir as escadas, instantes antes do encontro) de me envergonhar, de me conter, de me fechar como é costume, mas, incrivelmente, sentia-me tão bem junto deles que o à-vontade falou por mim. Foi bom revê-lo e ter uma voz a lutar comigo contra algumas das suas ideias que sempre julguei indemolíveis. E foi bom conhecer essa nova voz (não tem pronúncia, era a minha grande curiosidade) que se dirige tão naturalmente a mim, segurando-me com os olhos, fixos nos meus, ligados. Quando o diálogo era entre nós as duas, os olhos de ambas prendiam-se, admirando-se mutuamente, segredando acrescentos às palavras cruzadas. E o sorriso convidativo…
Mas houve algo mais que me fascinou. Os casais nunca me convenceram. Nunca me levaram a acreditar num sentimento sincero, puro, eterno. Nunca vi naqueles beijos chupados almas cruzando-se, mas apenas línguas, carne, fluidos. Os toques nunca foram para mim profundos, apenas superficiais, fúteis, mãos cheias de corpo e vazias de alma e entrega. Carência cega e mimada. Fome.
Sabia que ele e ela estavam juntos, mas não sabia como. Cada pessoa tem o seu modo de se relacionar e não sabia como o deles funcionava. E fiquei enternecida.
Nunca vi um casal tão perfeito. Com as pernas enleadas, a dela por cima da dele, irrequietas. Por vezes, surgiam brigas inocentes pela posição, sorriam-se, brincavam até encontrarem novo apoio com gestos cobertos de ternura. Partilhavam um afecto tão grande, nada cego, autêntico. Como se fossem realmente um só corpo, vivo, comandado por duas almas, não gémeas, mas siamesas, presas pelo mesmo corpo.
E o que mais me estranhou não foram estes mimos, foi o facto de não me sentir a mais. Não me senti, obviamente, parte daquele conjunto, mas a natureza daquela união já não tinha necessidade de atenção e resposta mútua, era algo tão impregnado neles que tornava as suas brincadeiras de pernas debaixo da mesa tão banais como um sacudir de cabelo quando se aventura em frente aos olhos.
Mas nada disto me derrubaria as ideias se não fosse aquele momento… Nem me recordo já do que estávamos a conversar na altura pois, mal se começou a desenrolar, apaguei tudo o resto para o seguir.
Era ele que me falava. Provavelmente sobre os seus ideais que sempre o caracterizaram e que geraram fascinantes discussões entre nós. Enquanto falava, tomei atenção a ela. Ouvia-o também, atenta como sempre se mostrou. Vagarosamente, pousa a mão na curva do braço dele apoiado na mesa. Sinto-a, vai-se instalar. De sorriso tranquilo, embalada pelas palavras que já não oiço, afaga o braço dele com a mão que lhe resta. E, aquecendo-me repentinamente no peito, deita delicadamente a sua cabeça naquele braço afagado, no ninho que aconchegou havia instantes e onde, agora, de olhos fechados, sorria, confortável.
O amor é isto e nada mais, soube-o naquele instante. O conforto, a cegueira dos olhos cerrados, a confiança naquele nicho, segurança, calor. Sei que ela sentiu também no seu peito o calor, a forma que o corpo tem de nos dizer que está bem. Confortável. No conforto acreditava. Percebi ali, amor é conforto. Afinal… sempre existe!
Talvez nem ele nem mesmo ela se tenham apercebido deste pequeno instante, como disse, os seus gestos afectuosos já eram de tal forma naturais que poisos destes não seriam tão raros que merecessem anotação. Não, o conforto deve ser permanente. Não os queria acordar daquele momento, procurei acordar eu, voltar às palavras dele, ver-lhe de novo a face, a boca que me falava, os olhos que me buscavam. Devo ter voltado a tempo, o discurso não tinha sido interrompido, logo, não se deve ter apercebido da minha alienação momentânea pelos gestos. Finjo esquecer o sucedido para retomar o diálogo.
O tempo passa, efectivamente, depressa. Os dias acabam, as horas terminam. Chegou a altura de me despedir deste meu casal amigo. Deixamos a mesa, afastamo-nos para um sítio mais espaçoso onde corpos desconhecidos demasiado perto não perturbem as últimas palavras de hoje.
Estou, de novo, de frente para o casal, ela do lado esquerdo, ele do direito. Curioso como, agora que deixo por escrito, me apercebo da importância e beleza do lado de cada um. Ela, a artista, do lado da criatividade, da imaginação, do coração; ele do direito, que, de acordo com os seus princípios e valores, não poderia estar mais correcto. Mas adiante…
Decidi despedir-me dele primeiro, afinal é aquele que conheço há mais tempo. Tive saudades dele, da forma como me abanava determinantemente para eu reagir, sempre com uma presença segura e amiga, mostrando-me não o caminho mas todas as alternativas. Ele olha para mim, julgo que descobriu a pessoa feliz (por vezes) que ouviu havia dias ao telefone. Depois deste encontro, não deixaremos passar tanto tempo até ao próximo reencontro.
Pouso agora o olhar nela. Sorri-me com a cara toda. Ainda bem que decidiu vir, os nossos receios de um encontro após algum tempo de convívio virtual, o medo da desilusão, do desencanto, estavam felizmente postos de parte. Vejo-lhe na cara o espelho da minha satisfação por nos termos conhecido. Repetiremos, sem dúvida, este encontro.
E, porque o tempo não pára, despeço-me finalmente dos dois, que não supõem sequer que a amiga que ali os deixou acordará confortável no dia seguinte graças ao amor que provaram ser possível.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

I'm an idiot. Era só para dizer isso...

As pessoas que não conhecemos pessoalmente não deviam falar à nossa frente. Isto porque de vez em quando descubro personagens magnificas sobre as quais começo a imaginar personalidades, vidas, qualquer coisa de fascinante sobre elas.
Como aquela rapariga de olhos enormes em Medicina. Que usa saias e botas, cabelo muito encaracolado, apanhado atrás. Parece uma bruxa, e não no sentido de feio ou mau, mas sim num sentido de fazer poções e feitiços. E o olhar é o mais fascinante. Olhos enormes, muito abertos, sobrancelhas pesadas, um olhar eternamente desconfiado. Não sorri muito.
Até ao dia que a oiço conversar com alguém e toda a magia se perdeu. E no outro dia dirigiu-se a mim, riu-se (sorriu) da minha piada. Já não é a bruxa misteriosa que via nela, mas não deixa de me atrair.
Ou o outro rapaz que também considerava muito curioso, de cabelo pelos ombros, barba por fazer, ar perdido. Até ao dia que me meti com ele e falámos. Tem uma voz muito bonita, foi o que recordei dele. Mas não está perdido, já tem um bom grupo.
Talvez eu julgue inconscientemente que essas gentes estão sozinhas à espera que eu pegue nelas e as cuide, só minhas. E esqueço-me que são gente viva que não espera por wannabe poets que lhes dêem um rosto novo, uma personalidade certa.
Ainda há uma personagem que nunca ouvi a voz, que nunca se deu a conhecer para além do que vejo sempre. É o "nosso amigo" do comboio. Um homem que corre sempre, sempre!, para o comboio, mesmo que esteja 15 minutos adiantado e que se senta sempre, sempre!, no mesmo lugar. Entra em pânico quando está ocupado. Nunca presenciei uma cena dessas, mas já ouvi relatos. Vai o caminho todo a fazer Sudokus. E quando sai da estação, também sai sempre, sempre!, a correr. Sobe as escadas (rolantes, ou não) a correr.

Enfim... vidas.
(próximo post é o 100. Estou a guardá-lo para um texto que tenho aqui. Espero que o mereça.)

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Tenho os pés gelados e ninguém para mos aquecer

E uma vontade enorme e escrever
Falta-me o jeito, falta-me o tempo
Falta
O peso das costas na responsabilidade
de ser o que desenhei
e desenharam
por mim
para mim
De repente
,

os olhos rasgados
pela lâmina da luz azul
Porque vivo numa casa tão estranha?
azul ou rosa
para que serve a cor se não muda
se se acomoda
nem padece
nem apodrece
nem aparece
se a pudesse
desligar...


(não devia ficar tanto tempo sem escrever...)

sexta-feira, dezembro 30, 2005

New Year's Eve Prayer - Jeff Buckley

you my love are allowed to forget about the christmas you just spent stressed out in your parents house

you my love are allowed to shed the weight of all the years before like bad disco clothes, save them for a night of dancing, stoned with you lover

you my love are allowed to let yourself drown every night in bottomless wild and naked symbolic dreams

you my love in sleep can unlock your youth and your most terrifying magic and dreaming is for the courageous

you my love are allowed to grab my guitar and sing me idiot love songs if you lost your ability to speak, keep it down to two minutes

you my love are allowed to rot and to die and to live again more alive and incandescent than before

you my love are allowed to beat the shit out of your television, choke it's thoughts and corrupt its mind kill kill kill kill the motherfucker before the song of zombiefied pain and panic and malaise and its narrow right winged vision and its cheap commercial gang rate becomes the white noise of the world (turn about is fair play)

you my love are allowed to forgive and love your television

you my love are allowed to speak in kisses to those around you and those up in heaven

you my love are allowed to show your babies how to dance full bodied, starry eyed, audacious, supernatural and glorified

you my love are allowed to suck in every single endeavor

you my love are allowed to be soaked like a lovers blanket in the New York summertime with the wonder of your own special gift

you my love are allowed to receive praise

you my love are allowed to have time

you my love are allowed to understand

you my love are allowed to love

woman disobey little man believe

you my love are a rebellion

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Ponham todos uma velinha para que 2006 seja melhor que 2005. Tem de ser melhor...

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Não sei como cheguei aqui. Nunca pensei seguir este caminho, nunca julguei ser possível encontrá-lo sequer. O que é facto é que surgiu de mansinho, tocou-me na mão e eu segui, confiante. Como uma rua numa cidade deserta, uma noite sozinha, uma brisa que nos leva por ali, as luzes amareladas que nos mostram o caminho, visível e seguro, por mais desconhecido que seja.
E agora cheguei aqui. Só há uma decisão a tomar e chegou a altura de o fazer. Termino o percurso que tanto me tem agradado ou paro, submeto-me ao medo de ficar mais só do que sozinha e volto para trás. Qual é a dúvida afinal?
Recordo-me do que já percorri. Sinto os teus dedos tímidos passearem a medo ao longo dos meus cabelos, aproximando-se da minha face, provando-a, sempre na penumbra daquele momento. Mais ninguém os vê, apenas os sentimos. E seguem, entusiasmados com a minha recepção, à procura dos meus. Esperam-nos. Vês? Segui o caminho, recebi-os com ternura. E naquele dia nunca cruzámos o olhar, as mãos entrelaçadas disseram mais do que o possível.
O tempo voa. E que já percorremos desde então… As brincadeiras que se seguiram, as carícias inocentes, os gestos leves, o toque doce, sempre sempre na penumbra. Como se nem nós o soubéssemos, como se fosse um segredo das nossas partes.
Até que, um dia, os olhares cruzaram-se. E foi nos teus olhos que li a nossa história. Não era a chegada, mas sim o percurso. E pedias-me inconscientemente que me decidisse a seguir-te até ao fim ou a largar a brincadeira.
Nunca a quis deixar. Tinha apenas medo do fim do percurso, do que surgiria depois. Se fosses como eu compreenderias. Enquanto pensava no que me tinhas pedido, não fui capaz de te abandonar. O teu toque era tão quente.
E depois veio aquele momento. Mostraste-me o caminho. Caminhámos os dois de olhos cerrados e tão naturalmente os lábios encontraram-se. Nenhum de nós pensou no que significava. Simplesmente era. Era impossível evitá-lo, não podemos negar.
Claro que dessa vez foi perto demais de mim própria. Acordei assustada, o tempo tinha-se esgotado. Mostraste-me o destino do teu caminho. Sem te aperceberes, exigiste-me uma resposta urgente. E para mal dos meus pecados pensei, pensei, pensei.
Mas agora estou aqui. Estou em mim, completa. Lembras-te de como me aproximava vagarosamente de ti quando ensaiávamos a nossa dança? É assim que me chego de novo.
Leva-me para casa. Mostra-me o caminho como me mostraste antes. Não sei porque parei, porque duvidei de ti, sempre soube que tu eras o meu caminho e o meu destino. Nunca ninguém me levou pela mão com tanta ternura e sinceridade. Cuidaste tão bem de mim. Chegou a altura de caminhar a teu lado, mostrar-te o quanto quero aqui estar e o quanto feliz estou por isso.
Vem depressa. Leva-me. Vou seguir-te para onde fores. Vamos para casa, a nossa, a morada do fim desta estrada deserta. E vamos sentar-nos, tão confortáveis como sempre, aninhados em nós, certos do que somos e vamos rever o nosso filme, de novo de mãos abraçadas, inquietas, mas de gestos doces. Tens o coração tão aquecido como o meu. Sinto-o pulsar no meu peito. Deito a cabeça no teu ombro, espreitas-me e, de olhos escondidos, eu sorrio. Estou em casa.

sábado, dezembro 03, 2005

Ainda hei-de escrever algo que não me soe mal lido em voz alta
Algo que não me embarace
Que eu não me importe que toda a minha família leia
Ou que repitam à minha frente
Vocês sabem como não me sinto à vontade com isso
Talvez precise de fazer as pazes comigo antes de conseguir
Atingir a certeza do que quero dizer
De modo a defendê-lo perante qualquer pessoa
Aí sim, é possível que aceite o que escreva
E, depois, que me leiam à minha frente
Que me comentem, que me critiquem, que me elogiem
Porque agora, sinceramente...
Tenho vergonha

sábado, novembro 05, 2005

É muito ano... Tenho de pensar.

Esta idade tem de ser pensada. Pensar no que passou, no que se segue, no que terminou, no que se inicia. Pensar em quem sou e o que represento. Daí que, ao pensar em mim, ao querer falar de mim, tentar, de novo, dizer quem sou no meio de frases encobertas, apercebo-me que não posso seguir o caminho comum. Eu não sou este corpo ou estes olhos, sou quem me vê, quem me sente, quem me lê, quem me sorri. Sou aquela que me reconhece nos textos sem nunca me ver e que me emociona em tudo o que faz. Sou aquele que me vai acordando aos poucos, o que se recusa a deixar-me ir atrás de quem me quer prender. Sou aquela que mostra o que é ter realmente esta idade, a que me diverte-te tanto. Sou aquele que me faz ver a sorte que tenho em estar onde estou. Sou aquela que sempre seguiu ao meu lado, que me lembra constantemente que a amizade pode ser para sempre. Sou aquele de quem nunca ouvi a voz séria e pesada, sempre alegre e vivo. Sou aquela cujo sorriso me carrega a alma e me faz acreditar em tudo o que preciso num abraço silencioso. Sou aquele que continua a puxar por todos aqueles pensamentos que constantemente tento esconder bem fundo para não serem ouvidos. Sou aquela que me ensinou o que a vida realmente é, as suas amarguras, as suas delícias, o seu tempo. Sou aquele que me fez acreditar que um sorriso é sempre possível numa face pesada. Sou aquele que me ensina um pouco mais sobre o que me envolve, o que me estima sem me querer dizer. Sou aquela do sorriso enorme que me aquece o pedaço de mim que julguei já ter perdido. Sou aquela que me mostra o quanto a espontaneadade que ignorava pode ser libertadora. Sou aquele que me explica a loucura dos anos.
E sou aquela que me mostrou primeiramente que a inteligência se pode esconder em palavras timidas. E aquele que partilhou e partilha tantos sonhos comigo. E aquela que se torna cúmplice dos meus actos controladamente ousados. E aquele que foi o primeiro a quem reconheci simpatia. E aquele que me dançou num momento tão especial e num sítio tão longe. E aquele que não se perde em si ou no tempo. E aquela que me mostrou que uma amizade, por vezes confundida, pode levar a lutas merecedoras. E aquela que me acompanhou em situações tão bonitas e permanece e quer permanecer a meu lado. E aquela que dança comigo num sorriso mútuo e feliz, livre e sincero. E aqueles que agora me encontraram e me surpreendem com a sua entrega imediata.
E, talvez um pouco mais que tudo isto, sou aquela que nunca sairá daqui, que estará sempre por mim, que deu a vida e deu-me a vida para que possa estar aqui hoje, nesta data tão estranha a tentar deixar algo escrito para que o dia não se desvaneça tão depressa como esta hora.

Obrigada por serem-me.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Chamaste-me morta. Já não é a primeira vez que me tratas por viva ou morta. Mas sempre desviaste o assunto, dizes e logo a seguir, sem me deixares reagir ou responder, "Pronto, não digo mais". E fico sem perceber porque me olhas dessa forma. Não me ofendes, sabes que percebo o que dizes nessas frases, mas gostava de perceber porque o repetes tanta vez, porque são os dois adjectivos que mais gostas de utilizar comigo.
E estou morta agora.
Compreendo-te. Tens razão. Morri por dentro, vê-se pelos meus olhos. Falas-me e não te oiço com o mesmo entusiasmo com que fazia. E és a única pessoa capaz de me entusiasmar. Fugiu-me. Sigo atrás de todas estes indivíduos que nos rodeiam, também eles seguindo-se uns aos outros, vamos todos dar ao mesmo sitio. Já não sei o meu percurso, sigo aquele que me traçaram. Morri e deixo-me levar, as águas carregam-me o corpo. Não estou feliz, não estou triste. Sou um sorriso falso, uma amizade fingida, não gosto de vocês, não vos conheço, não me conhecem, não sabem quem fui uma vez nem aquilo que sonhei ser, não quero que tentem animar-me, não quero que reparem no meu olhar sério, não quero a vossa amizade. Está suja. É falsa. Não quero prendas, não vou conseguir fingir o sorriso. Porque será que deixei de me conseguir esconder? Porque será que agora todos veêm quando estou em baixo, quando me perco nos meus pensamentos, porque não posso ter duas vidas, uma interior e outra exterior sem que me olhem daquela forma? Não quero que se preocupem, sinto-me idiota por estar assim, não quero que nas suas cabeças pensem o quanto idiota sou por estar assim. Por isso queria esconder. Mas eles conseguem ver. Não queria...
Porque são felizes? Não consigo caber na sua felicidade, não a vou perturbar, não quero... Mas preciso de alguém...