Depois de uma conversa sobre a hipocrisia do Natal, das prendas compradas por obrigaçao, - poderia continuar por aqui porque a conversa teve muito tema e muitas ideias, essencialmente da outra parte - cheguei a uma bonita ideia.
Critica-se as prendas compradas sem qualquer valor sentimental, so pela obrigaçao de "prestar contas" a alguem da nossa familia ou do nosso circulo. Pois entao, porque nao dar prendas com verdadeiro valor sentimental, em que o individuo que recebe essa prenda, perceba imediatamente a importancia que tem na vida do outro. Assim, proponho aqui que se ofereçam... poemas! Porque?
1º ponto - Nao e material, nao poderiamos criticar o materialismo das pessoas e o seu desejo de possuir coisas.
2º ponto - E muito menos criticar o consumismo porque a unica coisa que se consome e' um pedaço de tempo e entrega.
3º ponto - E' original. Os poemas nao se fabricam em serie, nao ha dois poemas iguais, cada um com um sentimento e mensagem diferente
4º ponto - E´ pessoal. Quem recebe sente a pessoa que o ofereceu nesse seu poema. Sempre que o ler, lembrar-se-a dessa pessoa e da mensagem que o poema quis transmitir.
5º ponto - E´ versatil. Quer dizer, qualquer um pode escrever um poema, ha varias maneiras diferentes de os escrever, poemas que rimam ou nao, poemas longos ou de apenas uma palavra.
Deve haver mais pontos, mas deixo para a imaginaçao de cada um. Deixei portanto o meu contributo para este Natal, uma sugestao que de certeza vai agradar a quem o ler. Ah, e nao vale daquelas desculpas "nao tenho jeito para escrever", "nao consigo transmitir bem o que sinto" porque um poema pode ser uma palavra apenas, uma ideia, uma memoria, um momento, uma imagem. Va la, e´ so preciso um pequeno esforço.
Um poema pode ser das melhores prendas que se podem receber, nao e´?... (pvt..)
Deixo-vos agora, no vosso espirito natalicio, gastando os ultimos euros e desejo-vos portanto um bom Natal, cheio de prendas com sentimento e valor emocional e que percebam verdadeiramente o Natal, o que ele representa e o que ele nos pode dar.
Espero tambem que nao deixem de acreditar no Natal, no que ele pode dar e representar. O Natal pode ser todos os dias, mas podemos celebra-lo com quem gostamos num dia comum.
Um optimo Natal para todos, com muitos doces, presentes e sorrisos e um surpreendente Ano Novo 2004 cheio de boas experiencias para que possam crescer um bocadinho mais.
quarta-feira, dezembro 24, 2003
sábado, dezembro 20, 2003
Deixei para trás o barulho, as gargalhadas, os jogos... Deixei para trás aquela festa onde está tanta gente junta mas sozinha. E eu não quero continuar sozinha a fingir que sorrio. Saí e deixei para trás os cínicos.
Sinto a maresia presa dentro de mim. De olhos fechados, sinto o mundo à minha volta, indiferente. Mas é tão agradável, puder viver este momento.
Oiço os teus silenciosos passos desenhando-se na minha direcção. Seguiste-me. Então, também te sentiste só naquela multidão de festa? Ou simplesmente me olhavas à espera de me veres? Deixa, não me respondas. O importante é que neste momento caminhas na minha direcção e eu não preciso de olhar para trás para saber que és tu e que não me magoarás.
A praia está vazia... O sol está a pôr-se, já ninguém quer apreciar o mar a estas horas... Frio, dizem. Fools... Quando a praia é mais bela é ao fim do dia... O sol tinge as nuvens de um vermelho doce, uns laranjas, uns amarelos e, no topo das nuvens, um branco intenso e belo... Tenho tanta pena que já tão pouca gente levante o queixo e admire o céu. Ele chove sorrisos, se ao menos alguém olhar para ele...
Estás perto, já sinto o teu calor. Páras atrás de mim. E como eu, admiras o horizonte. As tuas mãos, vagarosamente, pousam nos meus ombros e escorregam pelos braços. A brisa da tua respiração dança com alguns dos meus cabelos. Encostas os teus labios à minha cabeça e beijas-me aí. O teu sorriso transmite-se e sorrio eu também.
Lentamente, sentamo-nos na areia que afaga os nossos pés já descalsos. Encosto-me a ti, ao teu corpo que me protege. Aconchegas o teu queixo ao meu ombro, ligas os teus lábios ao meu ouvido caso me queiras sussurar algo (não precisas, percebo o teu silêncio, mas sabe sempre bem umas palavras a acariciar-nos a orelha pequena...). Os nossos braços estão unidos, ombro com ombro, cotovelo com cotovelo, antebraço com antebraço, pulso com pulso, mão com mão, dedos com dedos. Abraçados. Somos um só. Olhando o horizonte, apreciando o espectáculo que tanto é o mais belo como o mais barato, basta viveres para o poderes ver. O pôr-do-sol sauda-nos. Benvindos à noite. A Noite. A Nossa Noite.
(to be continued)
Sinto a maresia presa dentro de mim. De olhos fechados, sinto o mundo à minha volta, indiferente. Mas é tão agradável, puder viver este momento.
Oiço os teus silenciosos passos desenhando-se na minha direcção. Seguiste-me. Então, também te sentiste só naquela multidão de festa? Ou simplesmente me olhavas à espera de me veres? Deixa, não me respondas. O importante é que neste momento caminhas na minha direcção e eu não preciso de olhar para trás para saber que és tu e que não me magoarás.
A praia está vazia... O sol está a pôr-se, já ninguém quer apreciar o mar a estas horas... Frio, dizem. Fools... Quando a praia é mais bela é ao fim do dia... O sol tinge as nuvens de um vermelho doce, uns laranjas, uns amarelos e, no topo das nuvens, um branco intenso e belo... Tenho tanta pena que já tão pouca gente levante o queixo e admire o céu. Ele chove sorrisos, se ao menos alguém olhar para ele...
Estás perto, já sinto o teu calor. Páras atrás de mim. E como eu, admiras o horizonte. As tuas mãos, vagarosamente, pousam nos meus ombros e escorregam pelos braços. A brisa da tua respiração dança com alguns dos meus cabelos. Encostas os teus labios à minha cabeça e beijas-me aí. O teu sorriso transmite-se e sorrio eu também.
Lentamente, sentamo-nos na areia que afaga os nossos pés já descalsos. Encosto-me a ti, ao teu corpo que me protege. Aconchegas o teu queixo ao meu ombro, ligas os teus lábios ao meu ouvido caso me queiras sussurar algo (não precisas, percebo o teu silêncio, mas sabe sempre bem umas palavras a acariciar-nos a orelha pequena...). Os nossos braços estão unidos, ombro com ombro, cotovelo com cotovelo, antebraço com antebraço, pulso com pulso, mão com mão, dedos com dedos. Abraçados. Somos um só. Olhando o horizonte, apreciando o espectáculo que tanto é o mais belo como o mais barato, basta viveres para o poderes ver. O pôr-do-sol sauda-nos. Benvindos à noite. A Noite. A Nossa Noite.
(to be continued)
domingo, novembro 16, 2003
Não quero tornar este blog um diário, não quero que seja uma descrição do que faço ou do que vejo fazer. Procuro escrever aqui o que sinto, opiniões, ideias, algo para pensar. Liberto-me. Não faço referencias à minha vida pessoal. Mas hoje vou ter de abrir uma excepção. Não posso deixar de demonstrar o meu agradecimento à amizade daqueles que me rodeiam porque, a semana passada, no meu aniversário, conseguiram surpreender-me de tal modo que mudei por dentro, sinto-me agora feliz e grata por estar aqui hoje, com todos eles. Vou deixar, então, uma carta dirigida a todos eles, em especial àqueles que se reuniram e quiseram mostrar a sua amizade em conjunto. Foi muito bonito. Obrigada!
Caros amigos,
Não posso deixar passar mais sem vos agradecer por tudo o que me proporcionaram. Não sei como vos retribuir os momentos que me deram de alegria senão com a minha amizade reforçada e talvez estas palavras que aqui vos deixo. Um muito obrigada a cada um de vós pela surpresa que me deram. Não é apenas o que me ofereceram que me faz sorrir (adorei claro), mas o meu maior sorriso é o de saber que se reuniram para celebrar em conjunto o meu aniversário, mais um. Uma ligação entre os meus amigos, mesmo de grupos diferentes, é isso que me alegra, ser um elo de ligação também entre todas estas pessoas que adoro. Cada um de vós, individualmente, partilhou comigo momentos que nos ligaram ainda mais. Imagino-vos, ao assinar aquele grande postal, a recordarem esses momentos. Sei que significo diferentes coisas para cada um de vocês e alegra-me bastante saber que se recordam de mim tal como eu vos recordo, individualmente. E após um agradecimento geral, parto para o individual.
JM: Tens sido um grande e especial amigo. Sempre presente, sempre com uma palavra amiga, e mesmo sem palavras, só o olhar já ajuda. Obrigada por estares sempre a postos para mudarmos o mundo.
AQ: Quando pensei que estavamos longe, chamaste-me e mostraste-me que há amizades que não arrefecem, que podem tornar-se mais fortes e significativas. Obrigada por me chamares para aqui.
SR: O teu sorriso proibe-nos de lembrar borrões. És uma optima companhia, uma optima conversa, uma optima voz. Obrigada por viveres comigo os meus desvaneios e sonhos.
PP: És os meus olhos do mundo. Acordas-me tanto e permites-me ser quem sou, atiras-me para dentro de mim. Obrigada por me mostrares tudo o que tens mostrado, quer interior quer exteriormente.
SA: Admiro-te muito, sempre o fiz, e adoro ouvir-te, saborear as tuas palavras e o teu pensamento. Tens muito valor. Obrigada por me permitires vê-lo e apreciá-lo, por descobrir mais de mim em ti.
CB: Provavelmente és a pessoa que conheço há mais tempo deste grupo. Ainda bem, porque só significa que continuamos juntas a passear por aí. Obrigada pela tua presença, pelo teu sorriso.
AM: Foste uma tão boa surpresa. Em tão pouco tempo já me mostraste tanto e é bom saber que reparas quando ninguém está a olhar. Obrigada pela tua alegria muito transmissível.
AL: És uma optima pessoa, optima companhia e sei que tens muito dentro de ti para dar e mostrar. Obrigada pela amizade e por tudo o que transmites.
CC: É optimo reconhecer-te, depois de um tempo mais longe, tens sido uma optima amiga, uma optima pessoa com quem estar e se divertir. Obrigada pelos momentos que partilhaste comigo.
FB: Tem sido muito bom conhecer-te. Estaremos mais próximas com o tempo mas onde estamos agora, já é muito gratrificante o ter-te conhecido. Obrigada pelos intervalos em que juntamos o grupo.
AC: Tens sido uma optima companhia, um bom amigo com quem falar e rir. Já estivemos juntos em momentos fantásticos e ainda bem que estiveste presente. Obrigada por isso.
AR: É uma alegria estar contigo, a tua boa-disposição, a tua alegria, a tua energia são fascinantes. Obrigada pelos momentos partilhados e pelas animadas conversas.
LL: Tens sido outra grande surpresa. Uma boa amiga e companhia. Já passei muitos bons momentos contigo e esperemos que ainda passe mais. Obrigada pela nova amizade.
JR: Tem sido bom encontrar-te novamente na mesma turma. Acredito que vamos passar bons tempos juntos. Obrigada por estares.
Há muito mais gente que me alegrou neste dia mas terei de me reduzir a estes agradecimentos. Não deixo de me sentir muito agradecida e feliz por todos os outros amigos que estiveram comigo nesse dia e que ainda estão. Termino, então, agradecendo novamente a todos os que me conhecem por tudo o que me proporcionaram e proporcionam. Obrigada!
Caros amigos,
Não posso deixar passar mais sem vos agradecer por tudo o que me proporcionaram. Não sei como vos retribuir os momentos que me deram de alegria senão com a minha amizade reforçada e talvez estas palavras que aqui vos deixo. Um muito obrigada a cada um de vós pela surpresa que me deram. Não é apenas o que me ofereceram que me faz sorrir (adorei claro), mas o meu maior sorriso é o de saber que se reuniram para celebrar em conjunto o meu aniversário, mais um. Uma ligação entre os meus amigos, mesmo de grupos diferentes, é isso que me alegra, ser um elo de ligação também entre todas estas pessoas que adoro. Cada um de vós, individualmente, partilhou comigo momentos que nos ligaram ainda mais. Imagino-vos, ao assinar aquele grande postal, a recordarem esses momentos. Sei que significo diferentes coisas para cada um de vocês e alegra-me bastante saber que se recordam de mim tal como eu vos recordo, individualmente. E após um agradecimento geral, parto para o individual.
JM: Tens sido um grande e especial amigo. Sempre presente, sempre com uma palavra amiga, e mesmo sem palavras, só o olhar já ajuda. Obrigada por estares sempre a postos para mudarmos o mundo.
AQ: Quando pensei que estavamos longe, chamaste-me e mostraste-me que há amizades que não arrefecem, que podem tornar-se mais fortes e significativas. Obrigada por me chamares para aqui.
SR: O teu sorriso proibe-nos de lembrar borrões. És uma optima companhia, uma optima conversa, uma optima voz. Obrigada por viveres comigo os meus desvaneios e sonhos.
PP: És os meus olhos do mundo. Acordas-me tanto e permites-me ser quem sou, atiras-me para dentro de mim. Obrigada por me mostrares tudo o que tens mostrado, quer interior quer exteriormente.
SA: Admiro-te muito, sempre o fiz, e adoro ouvir-te, saborear as tuas palavras e o teu pensamento. Tens muito valor. Obrigada por me permitires vê-lo e apreciá-lo, por descobrir mais de mim em ti.
CB: Provavelmente és a pessoa que conheço há mais tempo deste grupo. Ainda bem, porque só significa que continuamos juntas a passear por aí. Obrigada pela tua presença, pelo teu sorriso.
AM: Foste uma tão boa surpresa. Em tão pouco tempo já me mostraste tanto e é bom saber que reparas quando ninguém está a olhar. Obrigada pela tua alegria muito transmissível.
AL: És uma optima pessoa, optima companhia e sei que tens muito dentro de ti para dar e mostrar. Obrigada pela amizade e por tudo o que transmites.
CC: É optimo reconhecer-te, depois de um tempo mais longe, tens sido uma optima amiga, uma optima pessoa com quem estar e se divertir. Obrigada pelos momentos que partilhaste comigo.
FB: Tem sido muito bom conhecer-te. Estaremos mais próximas com o tempo mas onde estamos agora, já é muito gratrificante o ter-te conhecido. Obrigada pelos intervalos em que juntamos o grupo.
AC: Tens sido uma optima companhia, um bom amigo com quem falar e rir. Já estivemos juntos em momentos fantásticos e ainda bem que estiveste presente. Obrigada por isso.
AR: É uma alegria estar contigo, a tua boa-disposição, a tua alegria, a tua energia são fascinantes. Obrigada pelos momentos partilhados e pelas animadas conversas.
LL: Tens sido outra grande surpresa. Uma boa amiga e companhia. Já passei muitos bons momentos contigo e esperemos que ainda passe mais. Obrigada pela nova amizade.
JR: Tem sido bom encontrar-te novamente na mesma turma. Acredito que vamos passar bons tempos juntos. Obrigada por estares.
Há muito mais gente que me alegrou neste dia mas terei de me reduzir a estes agradecimentos. Não deixo de me sentir muito agradecida e feliz por todos os outros amigos que estiveram comigo nesse dia e que ainda estão. Termino, então, agradecendo novamente a todos os que me conhecem por tudo o que me proporcionaram e proporcionam. Obrigada!
sexta-feira, novembro 14, 2003
terça-feira, novembro 04, 2003
Dogville - Part II
Afinal o que nos distingue, nós, seres humanos, Humanidade, dos restantes animais? A nossa racionalidade? E isso é o quê? Não é que não saiba mas preferia que me especificassem melhor. O nosso pensamento, é isso? A lógica que seguimos sobre os conhecimentos que adquirimos? A forma como nos afastamos (por vezes...) do instinto e como conseguimos organizar o saber? Muito bem, talvez isso nos distinga dos restante animais, já que estes não sabem criar vacinas ou automóveis para uma qualidade de vida superior. Mas também há mais coisas que nos distinguem dos animais, não há? Devido à nossa capacidade mental superior somos capazes de distinguir os nossos actos, e os dos outros essencialmente, como bons ou maus. Os humanos têm a possibilidade de serem bondosos, piedosos, generosos, civilizados. É isso que nos ensinam, o Bem. Temos a possibilidade, e dever, talvez, de nos entreajudarmos e de sermos bons humanos. Temos ética, algo que provavelmente os animais selvagens não têm. Ninguém os condena por matarem outros seres, por terem vários parceiros sexuais, por se comerem uns aos outros, por lutarem entre si pelo poder ou pela fêmea, por roubarem a comida dos outros. Somos então superiores a todos os outros os outros seres vivos. Julgamo-nos superiores. Concordaria se simplesmente fossemos sempre superiores. Mas, por vezes, vemos certos actos tão animalescos, tão insensíceis, tão egoístas que nos fazem duvidar da capacidade de auto controlo que caracteriza o Humano. Por detrás de qualquer convicção, doutrina, valor, parece estar sempre o lado animal e selvagem do Homem. O grotesco, o insensível, o impiedoso, o carente, o perverso. Será que alguém poderá ser sempre bom especime do nosso ser, mantendo-se racional e bom mesmo quando algo maléficamente poderoso o chama?
Foram estas questões que se me depuseram ao ver o filme Dogville. Não posso ficar indiferente a um filme como este. Cheio de simbolismo e ideias que nos vão fazendo comichão na mente. E ainda hoje, passadas quase duas semanas de ter visto o filme, ainda me perturbam.
Será que todos nós procuramos poder para podermos dispôr tudo a nosso prazer? Quando Grace chega à vila e se dispõe a ajudar e trabalhar uma hora por dia para cada casa, ninguém parece ter trabalho para ela, ninguém precisa de nada. Provavelmente, os habitantes desta pequena povoação eram felizes, pelo menos, conformados: viviam bem e pacatamente naquele espaço só deles, sem preocupações de maior,sem muito trabalho, apenas rotina que repetiam sem preocupação para se sustentarem. E não estavam preparados para aquela "prenda". Eram humildes e provavelmente sentiriam-se envergonhados se aceitassem a ajuda da boa-vontade de Grace; estariam a rebaixar-se, a dizer que precisavam de ajuda. Por isso, Grace, graças ao apoio de Tom, começou a trabalhar em coisas "desnecessárias" para aqueles habitantes. Começou a realizar coisas que eram importantes que fossem realizadas mas que ninguém diria que sim, ninguém poderia dar parte de fraco. Grace aceitou esta "definição" do seu trabalho, assim como o narrador que, com uma certa ironia e tom de brincadeira, nos descreve os trabalhos "sem importância" que Grace agora realizaria. Trabalhos que serviriam apenas para ela, coitada, poder ter algo para fazer. E, com o tempo, as mão perfeitas e puras de Grace vão-se habituando ao trabalho, com gosto, e depressa as suas mãos não se distinguiriam das dos outros habitantes. Por uns tempos o seu trabalho é apreciado, quer da parte de quem o realiza, quer da parte de quem o bondosamente oferece. A parte feliz da história.
Mas, com o passar do tempo, os habitantes começam a aperceber-se do poder que lhes foi dado sobre Grace. Ela precisa do consentimento de todos para poder permanecer na aldeia e fará qualquer coisa para não ser entregue a quem a procura. É então que cada habitante, à sua maneira, vai-se dando conta das suas necessidades e desejos e aproveita-se da fraqueza de Grace para a obrigar a satisfazê-los. A bondade da aldeia degrada-se, apodrece sem que Dogville se dê conta. Quando a polícia começa a colocar cartazes de Grace pela aldeia, os habitantes exigem uma maior demonstração de agradecimento de Grace, aumentam-lhe os turnos de trabalho e começam a criticar os seus erros pontuais. Os trabalhos "desnecessários" parecem agora tornar-se indespensáveis e Grace começa a deixar de ser tratada como uma amiga, como o era, ou tentava ser, mas apenas como uma criada que se tem de limitar a fazer o que os seus amos lhe dizem. Grace corre para cada trabalho e quando passa pelo pequeno carreiro entre as três arvores cuidadas, é repreendida: aquele carreiro só pode ser usado pelos habitantes daquela terra e ela era apenas uma visitante, não estava ali há muito tempo. Grace não reclama, como o leitor ou o espectador poderão fazer, por tal acto tão exagerado por algo insignificante como a passagem por um pequeno carreiro. Tem de se limitar as contentar-se pelo facto de continuar naquela aldeia de gente simples.
(continua...)
Afinal o que nos distingue, nós, seres humanos, Humanidade, dos restantes animais? A nossa racionalidade? E isso é o quê? Não é que não saiba mas preferia que me especificassem melhor. O nosso pensamento, é isso? A lógica que seguimos sobre os conhecimentos que adquirimos? A forma como nos afastamos (por vezes...) do instinto e como conseguimos organizar o saber? Muito bem, talvez isso nos distinga dos restante animais, já que estes não sabem criar vacinas ou automóveis para uma qualidade de vida superior. Mas também há mais coisas que nos distinguem dos animais, não há? Devido à nossa capacidade mental superior somos capazes de distinguir os nossos actos, e os dos outros essencialmente, como bons ou maus. Os humanos têm a possibilidade de serem bondosos, piedosos, generosos, civilizados. É isso que nos ensinam, o Bem. Temos a possibilidade, e dever, talvez, de nos entreajudarmos e de sermos bons humanos. Temos ética, algo que provavelmente os animais selvagens não têm. Ninguém os condena por matarem outros seres, por terem vários parceiros sexuais, por se comerem uns aos outros, por lutarem entre si pelo poder ou pela fêmea, por roubarem a comida dos outros. Somos então superiores a todos os outros os outros seres vivos. Julgamo-nos superiores. Concordaria se simplesmente fossemos sempre superiores. Mas, por vezes, vemos certos actos tão animalescos, tão insensíceis, tão egoístas que nos fazem duvidar da capacidade de auto controlo que caracteriza o Humano. Por detrás de qualquer convicção, doutrina, valor, parece estar sempre o lado animal e selvagem do Homem. O grotesco, o insensível, o impiedoso, o carente, o perverso. Será que alguém poderá ser sempre bom especime do nosso ser, mantendo-se racional e bom mesmo quando algo maléficamente poderoso o chama?
Foram estas questões que se me depuseram ao ver o filme Dogville. Não posso ficar indiferente a um filme como este. Cheio de simbolismo e ideias que nos vão fazendo comichão na mente. E ainda hoje, passadas quase duas semanas de ter visto o filme, ainda me perturbam.
Será que todos nós procuramos poder para podermos dispôr tudo a nosso prazer? Quando Grace chega à vila e se dispõe a ajudar e trabalhar uma hora por dia para cada casa, ninguém parece ter trabalho para ela, ninguém precisa de nada. Provavelmente, os habitantes desta pequena povoação eram felizes, pelo menos, conformados: viviam bem e pacatamente naquele espaço só deles, sem preocupações de maior,sem muito trabalho, apenas rotina que repetiam sem preocupação para se sustentarem. E não estavam preparados para aquela "prenda". Eram humildes e provavelmente sentiriam-se envergonhados se aceitassem a ajuda da boa-vontade de Grace; estariam a rebaixar-se, a dizer que precisavam de ajuda. Por isso, Grace, graças ao apoio de Tom, começou a trabalhar em coisas "desnecessárias" para aqueles habitantes. Começou a realizar coisas que eram importantes que fossem realizadas mas que ninguém diria que sim, ninguém poderia dar parte de fraco. Grace aceitou esta "definição" do seu trabalho, assim como o narrador que, com uma certa ironia e tom de brincadeira, nos descreve os trabalhos "sem importância" que Grace agora realizaria. Trabalhos que serviriam apenas para ela, coitada, poder ter algo para fazer. E, com o tempo, as mão perfeitas e puras de Grace vão-se habituando ao trabalho, com gosto, e depressa as suas mãos não se distinguiriam das dos outros habitantes. Por uns tempos o seu trabalho é apreciado, quer da parte de quem o realiza, quer da parte de quem o bondosamente oferece. A parte feliz da história.
Mas, com o passar do tempo, os habitantes começam a aperceber-se do poder que lhes foi dado sobre Grace. Ela precisa do consentimento de todos para poder permanecer na aldeia e fará qualquer coisa para não ser entregue a quem a procura. É então que cada habitante, à sua maneira, vai-se dando conta das suas necessidades e desejos e aproveita-se da fraqueza de Grace para a obrigar a satisfazê-los. A bondade da aldeia degrada-se, apodrece sem que Dogville se dê conta. Quando a polícia começa a colocar cartazes de Grace pela aldeia, os habitantes exigem uma maior demonstração de agradecimento de Grace, aumentam-lhe os turnos de trabalho e começam a criticar os seus erros pontuais. Os trabalhos "desnecessários" parecem agora tornar-se indespensáveis e Grace começa a deixar de ser tratada como uma amiga, como o era, ou tentava ser, mas apenas como uma criada que se tem de limitar a fazer o que os seus amos lhe dizem. Grace corre para cada trabalho e quando passa pelo pequeno carreiro entre as três arvores cuidadas, é repreendida: aquele carreiro só pode ser usado pelos habitantes daquela terra e ela era apenas uma visitante, não estava ali há muito tempo. Grace não reclama, como o leitor ou o espectador poderão fazer, por tal acto tão exagerado por algo insignificante como a passagem por um pequeno carreiro. Tem de se limitar as contentar-se pelo facto de continuar naquela aldeia de gente simples.
(continua...)
domingo, outubro 19, 2003
Dogville - Part I
Não posso deixar de comentar o filme que tive a oportunidade de ver no cinema no passado dia 17: Dogville. Farei uma pequena introdução ao filme e depois farei a minha própria interpretação e comentário ao filme e às suas ideias.
Dogville é o novo filme de Lars Von Trier, o realizador de "Dancer in the Dark", filme bastante conhecido pela interpretação de Bjork. Neste novo filme, é Nicole Kidman, nomeada para o Oscar de Melhor Actriz (em "Moulin Rouge"), que interpreta a personagem mais apelativa do filme, Grace. Estas informações bastaram-me para desejar ver o filme, quer pelo realizador, quer pela actriz. Mas há muito mais neste filme que simples nomes de prestígio...
Não existem cenários. O filme é realizado num pavilhão de 200 m² onde as ruas e as divisões das casas de Dogville estão desenhadas no chão. A noite e o dia são diferenciados pelo fundo branco ou preto do pavilhão. Lars Von Trier diz que decidiu não haver cenários para o espectador se concentrar nas personagens, nas pessoas em vez de se perder e de se desconcentrar com promenores das casas ou do restante cenário possível. Inspirou-se nas peças de teatro que costumavam dar na televisão, ainda antes do cinema, no inicio da época televisiva, ainda a preto e branco. Porém, não quis filmar a preto e branco porque afirma de afasta o filme do espectador. Sem usar tripé, sendo o próprio Lars Von Trier o operador de câmara, as imagens não estão fixas, não há quase efeitos especiais (para quê colocar efeitos especiais, se já qualquer criança pode por dragões nos seus filmes feitos em casa com apenas um computador, retorque Tier). Toda esta simplicidade leva-nos ainda mais para dentro do filme e daquela aldeia de Dogville. Mas afinal, o que é Dogville?
Na época da Depressão, uma aldeia, Dogville, perto das Montanhas Rochosas nos EUA, vive pacatamente a sua vida com gente simples, humilde e bondosa. Tom Edison, filho do médico da aldeia, é um escritor e filósofo. Gosta de realizar assembleias com os 15 habitantes daquela aldeia, para os cultivar e interessar pelo seu país e os valores humanos. Na vespera de mais uma assembleia, procura uma "prenda", algo para o ajudar no que tem para dizer. É então que ouve disparos e Grace surge na aldeia, fugindo dos disparos. Tom dispõe-se a ajudá-la e, na Assembleia em que discute a bondade dos seres humanos, propõe à sua aldeia que demonstrem os seus valores ajudando Grace. Os aldeões aceitam dar uma oportunidade a Grace de ficar refugiada na sua aldeia e, durante duas semanas, Grace procura ajudar cada aldeão para mostrar o seu agradecimento à boa-vontade da aldeia. Grace integra-se na aldeia, e durante uns tempos é feliz junto dos seus novos vizinhos. Mas há medida que a polícia começa a aumentar as buscas de Grace, a bondade dos aldeões vai mudando...
Tenho muito para falar sobre este filme e sobre o que ele me transmitiu. Muito mesmo. Por isso, vou acabar por aqui, desta vez, e continuar mais tarde. Até breve!
Não posso deixar de comentar o filme que tive a oportunidade de ver no cinema no passado dia 17: Dogville. Farei uma pequena introdução ao filme e depois farei a minha própria interpretação e comentário ao filme e às suas ideias.
Dogville é o novo filme de Lars Von Trier, o realizador de "Dancer in the Dark", filme bastante conhecido pela interpretação de Bjork. Neste novo filme, é Nicole Kidman, nomeada para o Oscar de Melhor Actriz (em "Moulin Rouge"), que interpreta a personagem mais apelativa do filme, Grace. Estas informações bastaram-me para desejar ver o filme, quer pelo realizador, quer pela actriz. Mas há muito mais neste filme que simples nomes de prestígio...
Não existem cenários. O filme é realizado num pavilhão de 200 m² onde as ruas e as divisões das casas de Dogville estão desenhadas no chão. A noite e o dia são diferenciados pelo fundo branco ou preto do pavilhão. Lars Von Trier diz que decidiu não haver cenários para o espectador se concentrar nas personagens, nas pessoas em vez de se perder e de se desconcentrar com promenores das casas ou do restante cenário possível. Inspirou-se nas peças de teatro que costumavam dar na televisão, ainda antes do cinema, no inicio da época televisiva, ainda a preto e branco. Porém, não quis filmar a preto e branco porque afirma de afasta o filme do espectador. Sem usar tripé, sendo o próprio Lars Von Trier o operador de câmara, as imagens não estão fixas, não há quase efeitos especiais (para quê colocar efeitos especiais, se já qualquer criança pode por dragões nos seus filmes feitos em casa com apenas um computador, retorque Tier). Toda esta simplicidade leva-nos ainda mais para dentro do filme e daquela aldeia de Dogville. Mas afinal, o que é Dogville?
Na época da Depressão, uma aldeia, Dogville, perto das Montanhas Rochosas nos EUA, vive pacatamente a sua vida com gente simples, humilde e bondosa. Tom Edison, filho do médico da aldeia, é um escritor e filósofo. Gosta de realizar assembleias com os 15 habitantes daquela aldeia, para os cultivar e interessar pelo seu país e os valores humanos. Na vespera de mais uma assembleia, procura uma "prenda", algo para o ajudar no que tem para dizer. É então que ouve disparos e Grace surge na aldeia, fugindo dos disparos. Tom dispõe-se a ajudá-la e, na Assembleia em que discute a bondade dos seres humanos, propõe à sua aldeia que demonstrem os seus valores ajudando Grace. Os aldeões aceitam dar uma oportunidade a Grace de ficar refugiada na sua aldeia e, durante duas semanas, Grace procura ajudar cada aldeão para mostrar o seu agradecimento à boa-vontade da aldeia. Grace integra-se na aldeia, e durante uns tempos é feliz junto dos seus novos vizinhos. Mas há medida que a polícia começa a aumentar as buscas de Grace, a bondade dos aldeões vai mudando...
Tenho muito para falar sobre este filme e sobre o que ele me transmitiu. Muito mesmo. Por isso, vou acabar por aqui, desta vez, e continuar mais tarde. Até breve!
sexta-feira, outubro 17, 2003
Tocou. Depressa a turma arruma às escondidas do professor todo o material e, mal há licença para sair, corre tudo para a porta. De passo apressado, roubando uns minutos ao tempo, os alunos escorrem para o pátio. Vou lá no meio, arrastada mas ansiosa também por sair da sala e daqueles corredores. Ah, já só falta mais um bocadinho para sair deste aperto e de estar lá fora, ao sol, livre. Chego, por fim, cá fora, ao pátio, onde já se distinguem grupos de amigos/colegas. Finalmente, estaciono junto à parede, num local discreto, rodeada dos meus amigos. Cheguei, estou acomodada. Agora é só esperar que o intervalo passe...
Olho em volta, num momento em que os que me rodeiam conversam sem notar a minha presença. Vejo os alunos, estudantes, amigos, em grupos, conversando com um sorriso na cara. Mas... sinto-os tão superficiais. Não percebo. Também tenho os meus amigos e sei bem o valor que lhes dou. Mas todos aqueles grupos, todos aqueles sorrisos parecem ser tão efémeros, tão desinteressantes, tão falsos. Não os conheço. Não sei do que estão a falar. Mas mesmo assim sinto a futilidade em cada rosto dos jovens que vejo à minha volta. Estou a ser injusta para com eles, para quem não conheço? Provavelmente estou, mas é o que eu sinto. Aqueles sorrisos que se dão pela frente, aquelas facadas que se dão por trás. Se calhar, até os meus sorrisos parecem superfluos quando os solto. Se calhar sou igual à ideia de tenho de todos os outros que me rodeiam e que não conheço. É daquelas alegrias que não duram muito. Amizades que acabam e que se transformam. Sorrisos que passam a ranger de dentes, a murmurios...
E, mal esta visão de falsidade me entra pelos olhos, não me apetece estar mais naquele local. Conheço os meus amigos, os meus colegas e não vejo sorrisos cínicos ou efémeros nas suas faces. Mas mesmo assim... neste momento não quero estar a sorrir com eles. Apetece-me apenas estar sozinha no meio da minha multidão. Não me quero isolar, poderiam descobrir-me e perguntar o que se passava para estar sozinha. E eu não saberia responder. Assim, se me refugiar no meio das conversas que cruzam à minha volta, talvez não reparem em mim e eu possa implodir para dentro de mim, deixar o tempo passar.
Cada vez gosto menos dos intervalos. Um quarto de hora sem fazer nada. Ali, em pé, no pátio, muitas vezes encostada à parede. Falando de tudo e de nada. Refrescar as ideias para ir novamente hora e meia para dentro de uma sala ouvir até à exaustão um professor que apenas pretende cumprir a sua função. Não acho graça aos intervalos. Fico pronta para outra aula mal chego cá fora, ao pátio, e estaciono junto à coluna. Mal me encosto, as minhas pilhas gastas da aula anterior ficam novamente prontas para mais uma dose de atenção. Mas o quarto de hora de intervalo ainda agora começou. Espero então, junto do meu grupo, que o ponteiro rode um bocadinho e logo me dirijo para a sala.
Estou naqueles dias em que não estou bem em lado nenhum. Nem em casa, nem na escola, nem na rua, nem em mim. É daqueles dias que mais valem passar sem que nós os vejamos. Neste dias não me apetece viver. Apetece-me ser uma sombra que não precisa de cumprimentar ninguém ... Apetece-me pairar por ali como se o tempo não existisse...
E não digo mais nada... porque vou deixar que o tempo passe sem que eu o queira parar..........
Olho em volta, num momento em que os que me rodeiam conversam sem notar a minha presença. Vejo os alunos, estudantes, amigos, em grupos, conversando com um sorriso na cara. Mas... sinto-os tão superficiais. Não percebo. Também tenho os meus amigos e sei bem o valor que lhes dou. Mas todos aqueles grupos, todos aqueles sorrisos parecem ser tão efémeros, tão desinteressantes, tão falsos. Não os conheço. Não sei do que estão a falar. Mas mesmo assim sinto a futilidade em cada rosto dos jovens que vejo à minha volta. Estou a ser injusta para com eles, para quem não conheço? Provavelmente estou, mas é o que eu sinto. Aqueles sorrisos que se dão pela frente, aquelas facadas que se dão por trás. Se calhar, até os meus sorrisos parecem superfluos quando os solto. Se calhar sou igual à ideia de tenho de todos os outros que me rodeiam e que não conheço. É daquelas alegrias que não duram muito. Amizades que acabam e que se transformam. Sorrisos que passam a ranger de dentes, a murmurios...
E, mal esta visão de falsidade me entra pelos olhos, não me apetece estar mais naquele local. Conheço os meus amigos, os meus colegas e não vejo sorrisos cínicos ou efémeros nas suas faces. Mas mesmo assim... neste momento não quero estar a sorrir com eles. Apetece-me apenas estar sozinha no meio da minha multidão. Não me quero isolar, poderiam descobrir-me e perguntar o que se passava para estar sozinha. E eu não saberia responder. Assim, se me refugiar no meio das conversas que cruzam à minha volta, talvez não reparem em mim e eu possa implodir para dentro de mim, deixar o tempo passar.
Cada vez gosto menos dos intervalos. Um quarto de hora sem fazer nada. Ali, em pé, no pátio, muitas vezes encostada à parede. Falando de tudo e de nada. Refrescar as ideias para ir novamente hora e meia para dentro de uma sala ouvir até à exaustão um professor que apenas pretende cumprir a sua função. Não acho graça aos intervalos. Fico pronta para outra aula mal chego cá fora, ao pátio, e estaciono junto à coluna. Mal me encosto, as minhas pilhas gastas da aula anterior ficam novamente prontas para mais uma dose de atenção. Mas o quarto de hora de intervalo ainda agora começou. Espero então, junto do meu grupo, que o ponteiro rode um bocadinho e logo me dirijo para a sala.
Estou naqueles dias em que não estou bem em lado nenhum. Nem em casa, nem na escola, nem na rua, nem em mim. É daqueles dias que mais valem passar sem que nós os vejamos. Neste dias não me apetece viver. Apetece-me ser uma sombra que não precisa de cumprimentar ninguém ... Apetece-me pairar por ali como se o tempo não existisse...
E não digo mais nada... porque vou deixar que o tempo passe sem que eu o queira parar..........
terça-feira, setembro 23, 2003
A Lareira
É noite de Inverno. É sempre Inverno por aqui. E costuma também ser sempre noite. Mas esta noite está diferente. Está tanto frio lá fora. E cá dentro. Estou no meu casarão, naquela mansão abandonada e descuidada no meio de uma floresta escura e imprevisível. Estou sozinha. É a minha casa, sou eu. Sozinha neste casarão enorme, frio, escuro. Das janelas abertas vem uma luz azulada, a mistura entre o negro da noite e o reflexo branco da lua. A casa está de um tom azul escuro. É noite e eu estou apenas com a minha camisa de dormir vestida. Sinto-me tão frágil, tão inevitável. Descalça, percorro os inumeros corredores iluminados apenas pela lua, enquanto a minha camisa de dormir esvoaça junto aos meus joelhos com a brisa que vem das janelas. Não tenho rumo, estou sozinha, não tenho motivos. Mas detenho-me no salão. Enorme, com aqueles sofás tão confortáveis que olham a lareira. Que estranho, costuma estar apagada. Não costuma haver fogo, nem calor dentro daquela mansão. Entro na sala. Quem terá provocado aquele lume? Será que é mesmo isso. Aproximo-me, muito a medo. Mas, aos poucos, esse medo vai desaparecendo. Está quente, está a aquecer as minhas canelas, frias há tanto tempo. Do azul escuro e apagado daquele salão, o laranja vivo chama-me até ele. Tão belo, aquele fogo! Sento-me em frente à lareira, não nos sofás já gastos, sento-me no chão como uma criança que acaba de descobrir o fogo. Sorrio. Quero ficar aqui, a olhar este fogo, na lareira deste casarão vazio, o resto da noite, o resto da minha vida. Aquece-me o corpo, está a crepitar só para mim. Conforta-me. Aquele som soa-me como uma canção de embalar, sussura-me ao ouvido que está tudo bem, agora não estou sozinha, aquele fogo faz-me companhia. Os lobos que habitam a floresta que espreita pelas minha janelas, juntam-se num canto único à canção do fogo. Esses uivos, que tanto me assustaram a vida toda, sempre com medo deles, que me saltassem pelas janelas sempre abertas e que me devorassem, sem eu poder fazer nada, esses uivos agora até me pareciam inocentes. Que noite tão bela! Abraço-me. Mas já algo me está a abraçar. Uma manta, que me está a aquecer ainda mais. Mas não é uma manta qualquer, pois as mantas só aquecem. Esta manta protege-me, abraça-me e contempla comigo o espectáculo que o lume nos proporciona. Estamos tão quentes. Não estou sozinha, tenho o meu fogo, na minha lareira agora laranja, tenho a minha manta que me protege do frio e não me deixa morrer aqui sozinha. Que noite tão bela! Pelo som, até parece que neva lá fora. Mas não quero sequer olhar, os meus olhos estão paralizados pela beleza da luz do fogo. Sou livre de desviar o olhar, de me levantar e sair dali, de me refugiar no meu quarto, de ver a neve a cair, de contemplar a noite escura lá fora. Mas não o faço, porque estragaria este nosso momento. Sozinha, neste casarão, sentada no chão em frente à lareira, envolta por uma manta castanha, agasalhada pelo calor do fogo, ouvindo a canção que a madeira me canta ao ouvido e que os lobos lá fora acompanham com os seus uivos. Frágil, insignificante, sozinha. Apesar disso, sinto-me protegida, sinto-me como a dona da noite, alguém preparou esta beleza toda para mim e eu nem sei quem é. Será que foi a manta que me prende os braços e que escorre pelo meu pescoço? É sempre bom sonhar. Estou feliz agora, estou a sorrir para o fogo que contemplo. Ele sorri-me de volta, estou em paz com o que me rodeia. Sei que está frio mas não o sinto, estou tão aconchegada aqui. Baloiço lentamente ao som da música da noite. É tudo tão belo, tão perfeito!
Procuro à força afastar a razão deste momento. A noite vai acabar, a lenha vai ser toda consumida e não haverá mais fogo, o frio voltará e a manta será inútil. E eu, aqui sozinha com medo do escuro, vou ser acordada pelo entrar retumbante do resto de mim, que mora usando todo o esplendor e toda o poder que aquela casa poderia possuir, que me destruirá esta felicidade momentanea. Depois de bater com a porta ao abri-la, com passos pesados e temerosos, aproximar-se-á de mim, com olhar fechado, e com o balde que se encontra ao lado da lareira (não tinha reparado nele, seráque já ali estava quando entrei?) apagará com um só movimento o fogo que me aquecia e que me confortava. Olhará para mim, com raiva, arrancar-me-á a manta, mostra-me os seus buracos, a sua insignificância e pobreza e manda-me de volta para o meu quarto escuro e frio, onde, em cima da minha cama dura chorarei para aquecer a minha almofada. Repreender-me-á por ter sonhado, por ser feliz com aquele momento. Eu tenho tudo! Vivo numa casa enorme, sou a única dona dela, posso fazer o que quiser com ela. E não me contento com isso?! Como será possível! Já o estou a ouvir... Qual a beleza de me sentar no chão quando tenho os melhores sofás a um metro de distância?! Qual é a beleza da música da noite (como a consegues ouvir?!) quando tens todos os vinis de todas as músicas belas inventadas pelo Homem?! Como te podes sentir acompanhada se não tens mais ninguém em casa?! Só este personagem é que, de vez em quando, me visita, para se certificar que se mantém tudo igual. É tão fria. Eu só tenho a minha camisa de dormir, leve e frágil. Só posso baixar a cabeça e seguir as ordens. Não tenho força, sou fraca, é um facto. Nunca mais o fogo voltará, nunca mais a manta me abraçará outra vez e os lobos jamais me cantarão novamente com carinho a música da noite. Volto ao ponto de partida.
Não estou a pensar nisto neste momento. Continuo em frente à lareira, sentada no chão, abraçada pela manta castanha, aquecida pelo fogo que (me) consome a lenha, embalada pelo crepitar da madeira e pelos uivos inocentes dos lobos cinzentos da noite. Estou feliz e vou sonhar que a noite não vai acabar nunca, e que vou sentir-me tão confortável como agora para o resto da minha vida. Não interessa que tenha tudo o que precise fora deste salão, atrás de mim. Esta mansão nunca me deu felicidade. Não como esta que estou a sentir ao sorrir para o fogo. É grande, tem tudo o que possa imaginar. Só não tem amor, não tem calor, não tem carinho. Vou sonhar que esta madeira nunca acabará de arder e que me aquecerá e dará o que eu preciso para o resto da vida.E a manta deixará de ser manta para se fundir comigo, será então a minha pele. Não me vou mover, apenas me baloiço ao som da música da noite que não acabará. Essa música que me sussura ao ouvido “Está tudo bem... Vamos fazer-te feliz... Só tu importas agora... Sorri...” E a brisa será convidada a entrar, e brincará com os meus cabelos, beijará a minha face, os meus olhos, os meus lábios, o meu colo. Estou, finalmente, a sentir-me viva. E, se acreditar muito, talvez isto nunca acabe e o resto de mim nunca baterá com a porta ao entrar no salão... E, quem sabe, silenciosamente, também se unirá a mim e finalmente nos compreenderemos e nos uniremos numa só...
É noite de Inverno. É sempre Inverno por aqui. E costuma também ser sempre noite. Mas esta noite está diferente. Está tanto frio lá fora. E cá dentro. Estou no meu casarão, naquela mansão abandonada e descuidada no meio de uma floresta escura e imprevisível. Estou sozinha. É a minha casa, sou eu. Sozinha neste casarão enorme, frio, escuro. Das janelas abertas vem uma luz azulada, a mistura entre o negro da noite e o reflexo branco da lua. A casa está de um tom azul escuro. É noite e eu estou apenas com a minha camisa de dormir vestida. Sinto-me tão frágil, tão inevitável. Descalça, percorro os inumeros corredores iluminados apenas pela lua, enquanto a minha camisa de dormir esvoaça junto aos meus joelhos com a brisa que vem das janelas. Não tenho rumo, estou sozinha, não tenho motivos. Mas detenho-me no salão. Enorme, com aqueles sofás tão confortáveis que olham a lareira. Que estranho, costuma estar apagada. Não costuma haver fogo, nem calor dentro daquela mansão. Entro na sala. Quem terá provocado aquele lume? Será que é mesmo isso. Aproximo-me, muito a medo. Mas, aos poucos, esse medo vai desaparecendo. Está quente, está a aquecer as minhas canelas, frias há tanto tempo. Do azul escuro e apagado daquele salão, o laranja vivo chama-me até ele. Tão belo, aquele fogo! Sento-me em frente à lareira, não nos sofás já gastos, sento-me no chão como uma criança que acaba de descobrir o fogo. Sorrio. Quero ficar aqui, a olhar este fogo, na lareira deste casarão vazio, o resto da noite, o resto da minha vida. Aquece-me o corpo, está a crepitar só para mim. Conforta-me. Aquele som soa-me como uma canção de embalar, sussura-me ao ouvido que está tudo bem, agora não estou sozinha, aquele fogo faz-me companhia. Os lobos que habitam a floresta que espreita pelas minha janelas, juntam-se num canto único à canção do fogo. Esses uivos, que tanto me assustaram a vida toda, sempre com medo deles, que me saltassem pelas janelas sempre abertas e que me devorassem, sem eu poder fazer nada, esses uivos agora até me pareciam inocentes. Que noite tão bela! Abraço-me. Mas já algo me está a abraçar. Uma manta, que me está a aquecer ainda mais. Mas não é uma manta qualquer, pois as mantas só aquecem. Esta manta protege-me, abraça-me e contempla comigo o espectáculo que o lume nos proporciona. Estamos tão quentes. Não estou sozinha, tenho o meu fogo, na minha lareira agora laranja, tenho a minha manta que me protege do frio e não me deixa morrer aqui sozinha. Que noite tão bela! Pelo som, até parece que neva lá fora. Mas não quero sequer olhar, os meus olhos estão paralizados pela beleza da luz do fogo. Sou livre de desviar o olhar, de me levantar e sair dali, de me refugiar no meu quarto, de ver a neve a cair, de contemplar a noite escura lá fora. Mas não o faço, porque estragaria este nosso momento. Sozinha, neste casarão, sentada no chão em frente à lareira, envolta por uma manta castanha, agasalhada pelo calor do fogo, ouvindo a canção que a madeira me canta ao ouvido e que os lobos lá fora acompanham com os seus uivos. Frágil, insignificante, sozinha. Apesar disso, sinto-me protegida, sinto-me como a dona da noite, alguém preparou esta beleza toda para mim e eu nem sei quem é. Será que foi a manta que me prende os braços e que escorre pelo meu pescoço? É sempre bom sonhar. Estou feliz agora, estou a sorrir para o fogo que contemplo. Ele sorri-me de volta, estou em paz com o que me rodeia. Sei que está frio mas não o sinto, estou tão aconchegada aqui. Baloiço lentamente ao som da música da noite. É tudo tão belo, tão perfeito!
Procuro à força afastar a razão deste momento. A noite vai acabar, a lenha vai ser toda consumida e não haverá mais fogo, o frio voltará e a manta será inútil. E eu, aqui sozinha com medo do escuro, vou ser acordada pelo entrar retumbante do resto de mim, que mora usando todo o esplendor e toda o poder que aquela casa poderia possuir, que me destruirá esta felicidade momentanea. Depois de bater com a porta ao abri-la, com passos pesados e temerosos, aproximar-se-á de mim, com olhar fechado, e com o balde que se encontra ao lado da lareira (não tinha reparado nele, seráque já ali estava quando entrei?) apagará com um só movimento o fogo que me aquecia e que me confortava. Olhará para mim, com raiva, arrancar-me-á a manta, mostra-me os seus buracos, a sua insignificância e pobreza e manda-me de volta para o meu quarto escuro e frio, onde, em cima da minha cama dura chorarei para aquecer a minha almofada. Repreender-me-á por ter sonhado, por ser feliz com aquele momento. Eu tenho tudo! Vivo numa casa enorme, sou a única dona dela, posso fazer o que quiser com ela. E não me contento com isso?! Como será possível! Já o estou a ouvir... Qual a beleza de me sentar no chão quando tenho os melhores sofás a um metro de distância?! Qual é a beleza da música da noite (como a consegues ouvir?!) quando tens todos os vinis de todas as músicas belas inventadas pelo Homem?! Como te podes sentir acompanhada se não tens mais ninguém em casa?! Só este personagem é que, de vez em quando, me visita, para se certificar que se mantém tudo igual. É tão fria. Eu só tenho a minha camisa de dormir, leve e frágil. Só posso baixar a cabeça e seguir as ordens. Não tenho força, sou fraca, é um facto. Nunca mais o fogo voltará, nunca mais a manta me abraçará outra vez e os lobos jamais me cantarão novamente com carinho a música da noite. Volto ao ponto de partida.
Não estou a pensar nisto neste momento. Continuo em frente à lareira, sentada no chão, abraçada pela manta castanha, aquecida pelo fogo que (me) consome a lenha, embalada pelo crepitar da madeira e pelos uivos inocentes dos lobos cinzentos da noite. Estou feliz e vou sonhar que a noite não vai acabar nunca, e que vou sentir-me tão confortável como agora para o resto da minha vida. Não interessa que tenha tudo o que precise fora deste salão, atrás de mim. Esta mansão nunca me deu felicidade. Não como esta que estou a sentir ao sorrir para o fogo. É grande, tem tudo o que possa imaginar. Só não tem amor, não tem calor, não tem carinho. Vou sonhar que esta madeira nunca acabará de arder e que me aquecerá e dará o que eu preciso para o resto da vida.E a manta deixará de ser manta para se fundir comigo, será então a minha pele. Não me vou mover, apenas me baloiço ao som da música da noite que não acabará. Essa música que me sussura ao ouvido “Está tudo bem... Vamos fazer-te feliz... Só tu importas agora... Sorri...” E a brisa será convidada a entrar, e brincará com os meus cabelos, beijará a minha face, os meus olhos, os meus lábios, o meu colo. Estou, finalmente, a sentir-me viva. E, se acreditar muito, talvez isto nunca acabe e o resto de mim nunca baterá com a porta ao entrar no salão... E, quem sabe, silenciosamente, também se unirá a mim e finalmente nos compreenderemos e nos uniremos numa só...
domingo, setembro 21, 2003
- Na realidade, estamos todos sozinhos. Alguns apercebem-se disso mais cedo, outros mais tarde, mas todos, em alguma altura da vida, se sentem sozinhos e se dão conta que isso não poderá mudar muito. Todos juntos na multidão, mas sozinhos. E porquê? Porque ninguém pensa como nós. Ninguém sabe precisamente o que sentimos, ninguém consegue entender as nossas frases, os nossos textos, as nossas expressões da maneira como queriamos, da maneira como estamos a pensar para as dizer, escrever ou fazer. Vivemos à base de relações com outras pessoas, relações de amizade, companheirismo, amor. Mas essas pessoas vão-se afastando, o tempo não pára, as pessoas mudam, viajam, envelhecem, esquecem, fazem escolhas e no fim morrem. Durante todos estes processos, muitas das relações que tinhamos vão perdendo o contacto e fazem-nos sofrer, fazem-nos sentir de novo sozinhos.
- Que pensamentos tão pessimistas! Claro que vamos acabar com certas relações e amizades que temos neste momento mas da mesma maneira com que vamos criar mais relações, novas ligações ao mundo e nunca estaremos sozinhos! Há sempre alguém, mesmo que não o queremos ver, que está por trás de nós e que estará lá se pedirmos ajuda. Há sempre alguém que nos ama, que se importa connosco, que quer estar presente. Mesmo que, por momentos, não o conseguimos ver...
- Isso é verdade, mas não deixamos de estar sozinhos. A nossa mente está sozinha. Todos sabemos que cada um pensa de sua maneira, não há duas pessoas com personalidades identicas, talvez parecidas, mas nunca iguais. Os nossos pensamentos estão sozinhos. As pessoas que estão de fora interpretam-os à sua maneira e nunca perceberão exactamente o que queremos dizer. Estamos sozinhos com os nossos pensamentos. E, quem não percebe ou aceita isso, desiste de pensar e diz tudo aquilo que os outros estão à espera de ouvir. Mas, por outro lado, os que tomam consciência disso mas acreditam nos seus pensamentos e no seu valor, hão-de estar sempre sozinhos na luta pela afirmação das suas opiniões e ideais.
- Somos únicos entre os diferentes exemplares da nossa espécie. Mas estamos todos interligados. Podem não compreender da maneira que tu queres a tua opinião mas hão-de lá estar por ti. Mesmo se não te entenderem na perfeição, não deixam de te amar e de te querer abraçar. Aos poucos vão percebendo melhor o que tu és interiormente e a tua solidão não será tão grande. E há certas expressões, certos actos que são universais.
- Como é que se abraça uma alma? Não é com os braços. Esses, o mais fundo que vão é à superfície da tua pele. Consegues fundir duas pessoas por um só momento? Consegues fazer com que essas pessoas consigam tocar na alma uma da outra? A tua alma, o teu pensamento, está tudo prisioneiro na tua massa cinzenta do teu cerebro e as sensações físicas que te conseguem transmitir, dificilmente chegam à tua alma. Sentes por fora, queres sentir por dentro. E só para fazer ainda mais intriga, não poderás ter a certeza das intensões daquela pessoa ao abraçar-te.
- A tua conversa leva-me a crer que nuca ninguém te abraçou. Tu é que disseste, todos temos consciência que os nossos pensamentos são unicos e ninguém poderá compreendê-los perfeitamente e talvez, nem nós próprios. E quem te abraça sabe disso, e também sabe que o que a poderá ligar mais a ti é por um abraço, pelo toque, porque uma coisa têm em comum: um corpo. E se essa pessoa também aceitar os seus pensamentos e o seu valor, usará o seu corpo em função desses pensamentos, usá-lo-á para te abraçar a alma, pois é isso que pretende, apesar de só atingir a superfície da tua pele. Se não quiseres usar o teu corpo para mais nada, ao menos usa-o para transmitir os teus sentimentos pois é a unica coisa material que possuis e que podes manipular à tua vontade. Ele está lá para te servir.
- Por favor, não vamos começar de novo a discutir a função do corpo! Ele está lá para me servir?! Ele está cá para me pedir, me implorar, me arrastar e me limitar.
- O teu corpo condiciona-te muito, é verdade, mas se acreditas que a mente está sobre o corpo, poderás viver em paz com ele, dando-lhe o que ele necessita para se manter vivo em troca de alguns favores que ele te poderá dar para te libertar um pouco dos teus pensamentos. Mas tu nunca vais perceber o que eu quis dizer com isto porque os nossos pensamentos estão separados e sozinhos nos neurónios do nosso cerebro. Mas levas um abraço, pode ser que eles se aproximem e que, por momentos, se fundam e se compreendam...
(São estas as conversas que tenho comigo própria. Estou muito confusa, não? É a minha alma pessismista contra a minha alma optimista. Ainda não alcansei o entremedio. Talvez não exista, o mundo é todo constituido por opostos. E terei de viver com eles os dois, o pessimista e o optimista, e com todos os pensamentos opostos que tenho. Assim pode ser que agrade a todos... E termino por agora)
- Que pensamentos tão pessimistas! Claro que vamos acabar com certas relações e amizades que temos neste momento mas da mesma maneira com que vamos criar mais relações, novas ligações ao mundo e nunca estaremos sozinhos! Há sempre alguém, mesmo que não o queremos ver, que está por trás de nós e que estará lá se pedirmos ajuda. Há sempre alguém que nos ama, que se importa connosco, que quer estar presente. Mesmo que, por momentos, não o conseguimos ver...
- Isso é verdade, mas não deixamos de estar sozinhos. A nossa mente está sozinha. Todos sabemos que cada um pensa de sua maneira, não há duas pessoas com personalidades identicas, talvez parecidas, mas nunca iguais. Os nossos pensamentos estão sozinhos. As pessoas que estão de fora interpretam-os à sua maneira e nunca perceberão exactamente o que queremos dizer. Estamos sozinhos com os nossos pensamentos. E, quem não percebe ou aceita isso, desiste de pensar e diz tudo aquilo que os outros estão à espera de ouvir. Mas, por outro lado, os que tomam consciência disso mas acreditam nos seus pensamentos e no seu valor, hão-de estar sempre sozinhos na luta pela afirmação das suas opiniões e ideais.
- Somos únicos entre os diferentes exemplares da nossa espécie. Mas estamos todos interligados. Podem não compreender da maneira que tu queres a tua opinião mas hão-de lá estar por ti. Mesmo se não te entenderem na perfeição, não deixam de te amar e de te querer abraçar. Aos poucos vão percebendo melhor o que tu és interiormente e a tua solidão não será tão grande. E há certas expressões, certos actos que são universais.
- Como é que se abraça uma alma? Não é com os braços. Esses, o mais fundo que vão é à superfície da tua pele. Consegues fundir duas pessoas por um só momento? Consegues fazer com que essas pessoas consigam tocar na alma uma da outra? A tua alma, o teu pensamento, está tudo prisioneiro na tua massa cinzenta do teu cerebro e as sensações físicas que te conseguem transmitir, dificilmente chegam à tua alma. Sentes por fora, queres sentir por dentro. E só para fazer ainda mais intriga, não poderás ter a certeza das intensões daquela pessoa ao abraçar-te.
- A tua conversa leva-me a crer que nuca ninguém te abraçou. Tu é que disseste, todos temos consciência que os nossos pensamentos são unicos e ninguém poderá compreendê-los perfeitamente e talvez, nem nós próprios. E quem te abraça sabe disso, e também sabe que o que a poderá ligar mais a ti é por um abraço, pelo toque, porque uma coisa têm em comum: um corpo. E se essa pessoa também aceitar os seus pensamentos e o seu valor, usará o seu corpo em função desses pensamentos, usá-lo-á para te abraçar a alma, pois é isso que pretende, apesar de só atingir a superfície da tua pele. Se não quiseres usar o teu corpo para mais nada, ao menos usa-o para transmitir os teus sentimentos pois é a unica coisa material que possuis e que podes manipular à tua vontade. Ele está lá para te servir.
- Por favor, não vamos começar de novo a discutir a função do corpo! Ele está lá para me servir?! Ele está cá para me pedir, me implorar, me arrastar e me limitar.
- O teu corpo condiciona-te muito, é verdade, mas se acreditas que a mente está sobre o corpo, poderás viver em paz com ele, dando-lhe o que ele necessita para se manter vivo em troca de alguns favores que ele te poderá dar para te libertar um pouco dos teus pensamentos. Mas tu nunca vais perceber o que eu quis dizer com isto porque os nossos pensamentos estão separados e sozinhos nos neurónios do nosso cerebro. Mas levas um abraço, pode ser que eles se aproximem e que, por momentos, se fundam e se compreendam...
(São estas as conversas que tenho comigo própria. Estou muito confusa, não? É a minha alma pessismista contra a minha alma optimista. Ainda não alcansei o entremedio. Talvez não exista, o mundo é todo constituido por opostos. E terei de viver com eles os dois, o pessimista e o optimista, e com todos os pensamentos opostos que tenho. Assim pode ser que agrade a todos... E termino por agora)
quarta-feira, setembro 17, 2003
Li no livro "As terças com Morrie" uma ideia curiosa que passo a descrever.
Morrie adoece gravemente e sabe que vai morrer em breve. Lembra-se então de um funeral a que foi de um amigo e das palavras tão bonitas que ouviu sobre o falecido. E teve pena desse seu amigo já não poder ouvir tudo aquilo que foi dito em sua homenagem. Por isso, antes de morrer, combinou com os seus amigos um funeral. Juntaram-se e os seus amigos falaram sobre ele, mostraram a sua amizade, leram-lhe poemas dedicados a Morrie. Choraram todos juntos.
Recebo muitos e-mails, daqueles forwards, com mensagens como esta, ligeiramente diferentes. Podemos morrer a qualquer altura, será que não queremos morrer sabendo que os que amamos saibam desse nosso amor? E nós não gostariamos de nos poder despedir de alguém, dizendo-lhe o quanto é importante para nós? Acho que, de vez em quando, deviamos fazer destas sessões. Não lhe chamariamos de funeral, claro, isso assusta muito. Mas é tão agradável poder dizer às pessoas o quanto são importantes nas nossas vidas. E ouvir de volta esses comentários, e apercebermo-nos que, se nos fossemos embora, havia muita gente que daria pela nossa falta. Mas provavelmente, se eu telefonasse a alguns amigos a combinar este "funeral", esta "festa", poderiam achar muito lamechas ou então, poderiam recear a minha sanidade mental... Pode ser que um dia me compreendam...
Morrie adoece gravemente e sabe que vai morrer em breve. Lembra-se então de um funeral a que foi de um amigo e das palavras tão bonitas que ouviu sobre o falecido. E teve pena desse seu amigo já não poder ouvir tudo aquilo que foi dito em sua homenagem. Por isso, antes de morrer, combinou com os seus amigos um funeral. Juntaram-se e os seus amigos falaram sobre ele, mostraram a sua amizade, leram-lhe poemas dedicados a Morrie. Choraram todos juntos.
Recebo muitos e-mails, daqueles forwards, com mensagens como esta, ligeiramente diferentes. Podemos morrer a qualquer altura, será que não queremos morrer sabendo que os que amamos saibam desse nosso amor? E nós não gostariamos de nos poder despedir de alguém, dizendo-lhe o quanto é importante para nós? Acho que, de vez em quando, deviamos fazer destas sessões. Não lhe chamariamos de funeral, claro, isso assusta muito. Mas é tão agradável poder dizer às pessoas o quanto são importantes nas nossas vidas. E ouvir de volta esses comentários, e apercebermo-nos que, se nos fossemos embora, havia muita gente que daria pela nossa falta. Mas provavelmente, se eu telefonasse a alguns amigos a combinar este "funeral", esta "festa", poderiam achar muito lamechas ou então, poderiam recear a minha sanidade mental... Pode ser que um dia me compreendam...
Subscrever:
Mensagens (Atom)