Vamos jantar fora, provar umas tapas. Escolhemos um restaurante perto de casa onde nos recebem em inglês, certamente por entenderem do nosso aspeto turístico que não estamos no nosso país. Pois bem, vou descansar um pouco o meu castelhano e vamos então ler o menu e fazer o pedido numa língua mais internacional. Assim o fazemos até que, para esclarecer uma questão, trocamos umas palavras em português antes de prosseguir o pedido. O senhor que aguardava pelas decisões finais, desiste então do inglês e responde-nos em castelhano. Talvez seja o mais sensato, imagino que o pensem, falar com os hermanos portugueses em castelhano, que nos percebem tão bem, do que esforçar o nosso inglês, que nos sai com tanta dificuldade.
quinta-feira, outubro 22, 2015
quarta-feira, outubro 21, 2015
BCN #19
Estou aqui para conhecer o total funcionamento deste serviço. Assim sendo, vou também conhecer a sala de redução de danos. Aqui podem-se fazer consumos em maior segurança, com material esterilizado, com supervisão de profissionais que podem identificar situações de emergência e atuar de imediato. Aqui reduz-se o dano do consumo perigoso.
Fui, então, assistir a um consumo. Poderia ser uma injeção como qualquer outra (insulina, quiçá), mas não é. Apesar do ambiente estéril e hospitalar onde nos encontramos, não esquecemos do que se trata. E, não sei porquê, por vezes o corpo reage.
Sabia que não era uma visão tolerada por muita gente. O consumo já tinha acontecido, esperava-se pelo efeito e eu pensava que o pior já tinha passado. Pois foi então que o efeito, afinal, começou a fazer-se sentir em mim. Uns suores que me subiram até à cabeça, uma fraqueza a chegar, umas dormências e entendi que teria de sair dali rapidamente. Vagarosamente consoante a sintomatologia me permitia, saí da sala. Ainda ouvi alguém vir até mim de braços estendidos e deixei de ver e ouvir. Por um instante, ainda me perguntei como tinha chegado àquele sono bom, de descanso, antes de voltar a mim e perceber que não estava de facto a descansar no conforto de uma casa como gostaria, mas sim que acabara de ter uma reação vasovagal no serviço. Já lá estava comigo um enfermeiro com o esfingomanómetro e umas bolachitas e a médica, a que me estendera os braços e me encaminhara para a cadeira onde estava, que me dizia que era perfeitamente normal, que também lhe acontecera da primeira vez. Diz o enfermeiro, sorrindo, que agora tenho de voltar a assistir muitas vezes para não ficar com o trauma. Deixe estar, por agora ficamos assim.
terça-feira, outubro 20, 2015
BCN #18
A P. põe música para animar a malta e deixa o corpo dançar um pouco ao som de yo quiero bailar, toda la noche, baila baila bailando hey! Observo e sorrio, pelo que me explica que são músicas típicas das fiestas de verão espanholas. Lembro-me das portuguesas, mas adio para outra altura a partilha das músicas de tropical urbano do nosso país.
O E. chega e pergunta se tenho encontrado muitas diferenças entre Portugal e Espanha. Confesso que não, talvez mais no horário das refeições. Explico que no meu país é mais comum jantarmos às oito. Qué?!, pergunta a P. num pulo da cadeira. Diz o E. que cá é mais por volta das dez. A P. confessa que, no seu caso, lá mais para as onze e picos, que seria impensável jantar às oito. Até porque dá aulas de teatro durante a tarde, depois de sair deste trabalho que já lhe conhecemos. Assim se aproveitam bem as horas que um dia tem.
segunda-feira, outubro 19, 2015
BCN #17
Vejo muita gente pela cidade com cartazes informando que estão desempregados, a viver na rua, que têm fome. Por vezes, alguém entra no metro e pede ajuda. Mas nunca vira alguém pedir assim.
Um jovem entrou na carruagem e coloca-se em posição de ataque no inicio do corredor. De base alargada, voz potente, inicia o seu discurso após o arranque do engenho. Sou um jovem de 24 anos, sem emprego, e por ali seguiu no discurso sem que eu lhe tenha conseguido entender tudo. Pedia ajuda, que precisava. E, para isso, dispunha-se a vender maços de lenços. Assim que termina de citar o texto que tinha preparado, pega nos maços e dirige-os para o seu público. Porém, fá-lo de forma brusca, com arrogância no rosto, com a rapidez de quem não tem fé na bondade alheia e que ofende o outro por não permitir sequer uma resposta (positiva ou negativa) por parte de quem aborda. Não?, não?, não? Vira-se para trás e prossegue, aponta rispidamente o maço para cada pessoa que o rodeia e num instante decide avançar para a carruagem seguinte. Pelo caminho dá uma bofetada num poste que por ali se encontrava. A zanga não deverá permitir a aproximação e empatia de muita gente.
sexta-feira, outubro 16, 2015
BCN #16
O aeroporto de Barcelona é um centro comercial multilingue. Os viajantes de todas as origens e destinos confluem na fila de mais um restaurante da mítica cadeia de fast-food. Aqui, o meu jovem castelhano é preterido em favor do inglês omnipotente pela catalã que recebe o meu pedido.
Para que não seja apenas mais um entre muitos aeroportos megalómanos, procuro por tapas. Porém, entre as lojas internacionais reproduzidas milimetricamente, as tapas parecem uma ideia bizarra. Encontro então, a um canto bem recostado, um restaurante que cumpre os meus requisitos. Pinchos. Depois de percorrer a bancada, lá decido qual provarei hoje. Sento-me junto a uma mesa onde se fala castelhano. Porém, creio que é a primeira vez que estas vozes se cruzam. Eu vou para Madrid, e tu? Hoje vou salir de copas. Dónde eres? Como se o país disperso se restabelecesse naquela mesa onde se celebra a fiesta à espanhola.
quinta-feira, outubro 15, 2015
BCN #15
Combinámos encontrarmo-nos por lá. Contava chegar mais cedo e arranjar lugar, visto que me tinha avisado que deveria estar muita gente. Ainda duvidei, pois a maioria das pessoas que eu tinha convidado para me acompanharem não davam grande importância à figura. Houve até quem não soubesse que se tratava do ex-ministro grego e, assim sendo, não entendesse sequer o significado da sua conferência. No entanto, em Barcelona havia gente suficiente com ganas de o ouvir. De tal maneira que, assim que cheguei ao Born, fiquei impressionada com a fila que já se fazia. Seria mesmo para ouvi-lo? Após confirmá-lo com o segurança, fui em busca do fim da fila. Cruzei a primeira esquina do edifício, já depois de uma longa fachada preenchida com gente, e não lhe vi o fim. Cheguei à segunda esquina e nada de ver o fim da fila nas traseiras do edifício. Seria possível? Impressionada com a multidão, e depois de umas fotografias para documentar este fenómeno, percorro toda a distância da traseira do edifício, para encontrar mais uma esquina com gente e uma quarta parede repleta de interessados. Precisamente antes de cruzar a quarta esquina, encontro o fim da fila. Vou para o meu lugar e apercebo-me que, muito pouco tempo depois, já a quarta esquina tinha sido cruzada. É-me agora impossível saber onde vai terminar.
Aos poucos avançamos, sem grande fé de que toda esta gente caiba no edifício. Encontro-me nas traseiras do edifício quando surge um funcionário que nos confirma que, dali para trás, já ninguém entrará. Corro então para tirar as teimas... afinal onde terminava a fila? Volto à fachada do edifício. O circulo já fechara e, paralelamente ao comboio de pessoas prestes a entrar, a fila seguia até à primeira esquina, não chegando a cruzá-la novamente.
Incrível. Todas estas pessoas, de todas as idades e feitios, dispostas a esperar mais de um diâmetro de um Centro Cultural de Barcelona para ouvir Varoufakis. Uma voz contestatária, polémica, agitadora. Há muita gente que se agita. Há muita gente que contesta. Há muita gente que espera por uma voz que lidere. Será?
quarta-feira, outubro 14, 2015
BCN #14
Fui, infiltrada, a uma aula de Psiquiatria. Asseguraram-me que não haveria problema, apesar de ser reservado para os internos de primeiro ano da Catalunha, e que seria dada em castelhano. Muy bien, vamos então. Qual não é, pois, o espanto, quando logo no início a médica que nos dará a aula pede para nos apresentarmo-nos e dizermos o que esperamos da aula. Vale, o meu castelhano há-de ser suficiente para me safar desta. Chegou a minha vez e lá me apresentei e disse, com os verbos simples que conheço, que quero saber um pouco mais sobre o assunto. A médica passa ao seguinte, mas não me livrei de muitos corpos a virarem-se para trás para observar a proveniência, imagino eu, de sotaque tão diferente.
Perguntou se poderia dar a aula em catalão, mas felizmente outra pessoa pediu para ser em castelhano. Tão fácil assim seguir a aula, é só preciso uma pequena atenção para compreender o que é dito. Até que alguém interrompe e faz uma pergunta. Não a ouvi bem, mas sei que a partir de então deixei de entender tão claramente o que a professora dizia. Um esforço maior de atenção, umas silabas que não consigo encaixar em palavras com nexo, ligações entre expressões técnicas que não sei o que significam. Será que mudou para catalão ou é de mim?
Seguimos para intervalo. Aproveito para perguntar se, agora no final, a aula estava a ser em catalão. Estava? Nem me apercebi, não sei, diz o meu colega. Se calhar estás mais cansada, diz.
Regressamos à aula e regressamos a uma linguagem que me custa seguir. Diz ele, em surdina, tens razão, é catalão. Entretanto, como se uma luz se acendesse num quarto na penumbra, começo a entender de novo. Castelhano! Seguimos até nova pergunta em catalão e regressa o idioma mais difícil... Mas, de novo, a luz! E regressa a minha compreensão pelo discurso. Seguimos assim até ao final da aula, ficando eu a saber que me basta fiar na minha capacidade de perceber o que é dito para distinguir uma língua da outra. Porque, eles, eles nem dão conta da troca.
terça-feira, outubro 13, 2015
BCN #13
Vão encontrar a P atrás do balcão. Rapidamente vos escancará o seu sorriso e dará os bons dias. A sua juventude é especialmente notória no seu espírito. Apesar de estarmos num serviço de histórias e vivências pesadas, a leveza com que passa os dias surpreende. Mas é bem recebida. Em alguns tempos mortos, vou para a receção receber um pouco dessa alegria. La portuguesa!, exclama, na sua voz sempre bem projetada e que ocupa todo o espaço sonoro permitido naquela divisão. Pergunta como me tenho sentido em terras catalãs. Conto-lhe que bien, sorrio de volta. Comento que amanhã deverei conseguir uns bilhetes gratuitos para a Sagrada Familia. Parece-lhe muito bem e comenta que é de Barcelona, mas que nunca lá entrou. Digo-lhe, então, que deveria tentar arranjar os bilhetes também. Ri-se alto, confirma. Entretanto, alguém chega e pede atenção do outro lado do vidro e eu prossigo a conversa com o JM. Porém, é impossível. A P preenche novamente o espaço sonoro com a sua voz catalã. É absolutamente imperceptível aquilo que o JM acabou de me dizer, duvido até que tenha saído algum som da sua boca. Sorrimos, olhamos para a P e aguardamos que resolva a situação. Que voz poderosa.
segunda-feira, outubro 12, 2015
BCN #12
Saio com um sorriso e mais tranquila. É aqui. É para aqui que tenho de vir. O aperto dos últimos dias tinha de ser combatido e agora está melhor. Esta é uma casa familiar, pronta para receber gente amiga, uma casa que convida à conversa, à partilha, ao respeito. Uma casa quente. A forma como me abrem a porta e me convidam a sentar no sofá, como se fosse já família, demonstra a diferença entre as duas casas. Onde estou, as restantes habitantes não se entendem, o lixo acumula, a gordura recobre a cozinha (as gavetas, o frigorífico, as paredes), não aqueço nem o coração nem a comida. Mais acima na rua, duas pessoas conversam comigo com um sorriso transparente e convidam-me a ficar. Não há duda, no próximo mês estarei melhor.
domingo, outubro 11, 2015
BCN #11
Vim para um jardim ler. Lembrei-me de visitar o Parc da Ciudadella, que ainda não conhecia.Vim a pé, para aproveitar este sol que não tardará a ser coberto. Como a caminhada foi longa, sento-me logo junto à entrada do parque, para descansar e ler. Adianto algumas páginas, até que o som do jardim fala mais alto. Oiço o ritmo da percussão e vou em busca da origem. Por entre alguns montes verdes, descubro um grupo de jovens que tocam djambé em cadência acelerada. Não me detenho porque entendo que estas são apenas as boas vindas. Entre algumas árvores há quem se tente equilibrar numa fita em tensão enquanto outros lançam massas em malabarismos certeiros. Uma criança brinca de cabeça para baixo no pano largo que desce do ramo alto de uma árvore. Oiço outro ritmo mais à frente e encontro um circulo de gente de mãos dadas, sapateando e dando ritmo ao que improvisa antes de passar a vez ao do lado. A cascata monumental observa o grupo e é fotografada pelos turistas que a descobrem. Avanço um pouco mais e encontro um lago com barquinhos repletos de famílias. Alguém me pede para me desviar, que estou a mais no enquadramento da fotografia, e sorri-me agradecendo a compreensão. Sigo caminho e encanto-me com a familiaridade deste jardim. Está tão habitado.
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