sábado, outubro 10, 2015

BCN #10

Foram os sons que me acordaram no bairro da Gràcia. Ainda cedo, ouvia já o movimento das pessoas, das lojas que vão abrindo, das famílias que saem à rua, das crianças que brincam. Na Plaça Virreina, em frente à igreja de Sant Joan, um círculo de escuteiros brinca ao lencinho e a juventude preenche a esplanada do café. Seguindo para oeste, descubro o mercado da Libertat, que se encontra já animado, com um cheiro a mar que me lembra o meu país. Percorro as bancas de peixe fresco, marisco variado, carnes vermelhas. Queria uma cozinha melhor para, quiçá, me aventurar a experimentá-los cá. Sigo de novo para este, onde a Plaça del Sol é vigiada por ancianos, que ocupam os bancos disponíveis em redor da torre do relógio e onde apreciam o bom tempo e a companhia. Numa varanda no topo da praça, uma mulher arruma as suas plantas ensolaradas e aproveita, certamente, para petiscar deste sol quente de outubro. Para o aproveitar também, decido descer até ao mar.
É dia 10 de outubro e em Barcelona banha-se no Mediterrâneo. As praias estão cobertas de costas ao léu, toalhas estendidas, gente imensa. Entre os que se bronzeiam com o sol de outono circulam outros que anunciam pareos e mojitos. Nos degraus do passeio, senta-se quem não tem ou coragem ou indumentária para se aventurar na areia. Ao nosso lado, uma banda toca folk e agita-nos o corpo. O céu limpo, o calor, o tempo livre. Descanso.

sexta-feira, outubro 09, 2015

BCN #9

Ao fim de uma semana, a conversa coloquial melhora, já se ri em conjunto e, no final do dia, recebe-se um convite para ir tomar algo depois do trabalho. Aceito.
Sigo com mais dois colegas para a Barceloneta, lugar que me deram à escolha, visto ser ainda estrangeira nesta cidade algo desconhecida. Caminhamos junto à praia, coberta de gente acalorada, e conversamos, sorridentes. Diz-me o S. que é muito perguntador. Quer saber de mim, quem sou, do que gosto. O M. brinca com as minhas respostas e a conversa flui, como se não houvesse uma língua ainda desconfortável para mim. Procuramos por crepes e chocolate, que cai sempre bem um reforço seretoninérgico no final da semana. Sentamo-nos, comemos, conversamos. Aos poucos, criam-se novas amizades que cruzam fronteiras e harmonizam a linguagem. Hoje sinto-me um pouco mais em casa.

quinta-feira, outubro 08, 2015

BCN #8

Entrou com a mãe, que ela saberia de tudo, não haveria problema em estar presente. Cabisbaixo, conta a sua história. Tem estado abstinente nos últimos meses, desde que ingressou a associação, mas teve uma recaída. Mostra-se culpabilizado e triste com o aparente retrocesso, que diz ter sido apenas uma vez. Lá na associação não acreditam, pedem para que refaça a carta das culpas. Não compreende como é que a sua honestidade não é valorizada e compreendida. Mas o que mais lhe custa, diz-nos, é estar sozinho. Não tem amigos. Todos se afastaram ou apontam agora o dedo categorizando-o com os comportamentos de um passado que diz que já não lhe pertence. Quer ser alguém novo, limpo, capaz. Quer ter alguém a seu lado. Quer ajuda. Chora e comenta, "sou muito sensível, pode escrever aí nos seus apontamentos".

quarta-feira, outubro 07, 2015

BCN #7

Acordo de madrugada com ruído em casa. Apercebo-me que as minhas colegas de casa estão a conversar, provavelmente no corredor, que fica já ali junto ao meu quarto. Não distingo claramente o discurso, mas é evidente que não são horas para conversas. Confirmo-o, são três da manhã. Apercebo-me que tom não é tão amigável como de início me pareceu. A certa altura, uma delas recolhe-se no seu quarto e a outra, ao entrar no dela, atira com a porta, agredindo o respeito pelas restantes pessoas da casa. Sai de novo do quarto e bate furiosamente na porta do quarto da outra colega, dizendo que está fully awake e que quer conversar. Isto não acabará? Cessou pouco depois e lá consegui adormecer de novo.
O conflito acompanhou-me o dia inteiro. Carreguei-o num nó epigástrico que me faz questionar. Cheguei ainda há pouco a esta cidade e procuro um espaço de paz e conforto para onde possa voltar ao final do dia. Hoje, esse regresso inquieta-me. Não sei como será nos próximos dias, semanas, meses. Como são afinal estas pessoas? Onde fico eu no meio do conflito?
Hoje é dia de aflição.

terça-feira, outubro 06, 2015

BCN #6

Não acreditou em mim, doutora. É assim, basta eu dizer que tenho esquizofrenia e as pessoas afastam-se. E senti-me mal ali, não confiam em mim. Vou para lá para deixar de fumar, mas assim que digo que tenho esta minha doença, eles não acreditam que eu seja capaz. E eu que já deixei de beber e que perdi todos estes quilos... Não sei qual é a experiência que têm com outros como eu, mas não é justo. Se eu estou ali é porque quero mesmo parar. Porque falaram assim para mim, como se fosse uma criança prestes a portar-me mal? Mas eu vou voltar lá, sim, doutora, a vontade é não ir, mas eu vou. Confio em si, que me diz que não tem a ver comigo e que é importante manter o seguimento, eu sei, e irei lá mostrar que sou capaz. Quero mesmo isto, doutora. Agora estou bem, estou muito melhor, e quero fazer isto por mim. Obrigada, doutora, até à próxima.

segunda-feira, outubro 05, 2015

BCN #5

Não vai ser assim tão fácil... Não quer dizer que não haja simpatia, fui bem recebida, com um sorriso por todos, com lembranças de que estão disponíveis para o que for preciso, para perguntar o que for necessário. Levam-me a almoçar, introduzem-me no grupo e na conversa, mas afinal... 
Um mês intensivo não é suficiente para saber castelhano. Muito menos quando o castelhano é falado a vários sotaques regionais ou misturado com uma pitada de catalão (será? ou apenas uma razão que procuro encontrar para, por vezes, não entender nada mais que o tema geral da conversa?). Aliás, não precisa de ter pitada de catalão, basta a velocidade hiperativa da conversa e da coloquialidade do discurso, as expressões idiomáticas e os trocadilhos culturais que desconheço. Vale-me a linguagem técnica, que torna todo o discurso em contexto de trabalho eficaz e o bastante para me saber competente neste lugar. Aguardo, então, o tempo que me dizem ser essencial para que tudo seja mais fluido. Até lá, vou aprender bem mais do que conhecimento médico. Como diria Abel Salazar, "quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe".

domingo, outubro 04, 2015

BCN #4

Hoje há eleições no meu país e eu aguardo apreensivamente pelos resultados. Em casa, noutra língua, discute-se o que está em jogo. Explico a minha visão dos últimos quatro anos, da situação atual, das previsões das sondagens, da minha ideia sobre o que acontecerá num caso e noutro. Ela ouve, acena, compreende, associa aos desenvolvimentos politico-partidários e económicos do país onde nos encontramos e partilhamos preocupações. A certa altura falamos em ordenados, no dinheiro que se ganha... Earn! Earn! Como? Fiquei um pouco confusa com a interrupção do discurso, mas rapidamente me esclarece. You earn money, you don't win it.  Comenta que a surpreende esta visão ibérica do dinheiro, da forma como usamos a expressão "ganhar dinheiro", como se fosse uma sorte o termos. É mentira, trabalhámos para o merecer. You earn it. O que será que esta lacuna linguística fará da nossa forma de vermos o nosso dinheiro e a forma como é manipulado?

sábado, outubro 03, 2015

BCN #3

Adormecemos ontem com a decisão tomada. Pela manhã, fizemos as malas, mudámos, limpámos, arrumámos. Como o dia não pode ser só feito de angústias domésticas, seguimos para um passeio pela cidade.
A pé, repetimos, em sentido inverso, a caminhada imensa dos dias prévios. Passeig da Grácia, Plaça de Catalunya, Les Rambles. Virámos à esquerda, para a Plaça Reial e decidimos embrenhar-nos no Bairro Gótico, que ainda não conheceramos. Pela Carrer de Ferran, chegámos à Plaça de Sant Jaume, onde, em frente à Câmara Municipal um grupo se manifestava em prol dos refugiados. Assim o julgamos, visto que a língua catalã não nos é tão transparente como gostaríamos. Enquanto fotografava um edifício cuja cor alegre e textura distinta das paredes sobressaía do resto da praça, reparei que, ao canto da imagem, na ruela que torneava este edifício, uma ponte refinada introduz o Gótico do bairro a que pertence. Seguimos, então pela Carrer del Bisbe, em direção à música erudita que ouvimos. Encontramos então, a Catedral, enfeitada com uma orquestra de sopro que nos convida a aproximar-nos. E aproximamo-nos até entendermos que a música serve um propósito maior. À frente da orquestra, vários circulos se formaram. As malas amontoam-se no centro do círculo, as pessoas dão as mãos e os pés dão o ritmo à união. Saltitando, fletindo, cruzando o pé delicadamente sobre o outro, calcanhar no chão, calcanhar no ar, braços em cima e em baixo, assim dançam ao ritmo dos sopros. São pessoas de todas as idades, mas sobressaem as personas mayores, os que carregam história e tradição e, provavelmente, um sangue catalão convicto. É, pois, o que imagino que carregam estes movimentos coordenados, surpreendentes, uníssonos. Uma cultura.

sexta-feira, outubro 02, 2015

BCN #2

E começa a caça à habitação. Da lista interminável de opções, filtrámos por valores e por zonas, repescámos o que o olho recomenda e começámos hoje as visitas. Com apreensão e algum entusiasmo, dirigimo-nos à primeira agendada.
Estamos no ponto nevrálgico da cidade, não muito longe do mercado que visitámos na véspera, numa perpendicular à avenida mais turística da cidade. Nas costas dos japoneses que fotografam o Palácio Güell está a porta que nos aguarda. Não inspira confiança, mas não é certamente o exterior que definirá o sítio. Entramos e quiçá não será também o hall de entrada do edifício, escuro, frio e abandonado, que o definirá. A porta abre-se e talvez agora começaremos a entender que tudo isto define esta casa. Casa? Por momentos, no corredor comprido, alto e descaracterizado que percorro após ultrapassar a porta, pergunto-me se será já isto a casa ou apenas um pátio com um teto e paredes  longas que nos leva à casa real. Não, é mesmo isto. É o prato com espaguete verde e meio bife no chão a um canto da divisão, são as paredes que delimitam pequenos espaços retangulares onde cabe um colchão e nenhuma janela, é o abandono, o silêncio e a marginalidade que aparentam governar o ambiente. São os cães no quintal, que nos cumprimentam e pulam atrás da porta envidraçada, que nos dão algum alento ao espírito, rapidamente abafado pela ameaça do chinelo que o jovem lhes oferece. Já que ali estava, aceitei percorrer toda a decadência como se de uma visita de estudo se tratasse. Há mais um quarto, com janela, mas esta rua tem muito ruído à noite, diz-nos. Os olhos envidraçados, a lentidão na conversa e postura longínqua completam o registo toxicómano de todo o espaço. Agradecemos a simpatia e saímos. 
Diz ela, pálida, inexpressiva, demorada, assim que nos encontramos de novo junto aos turistas japoneses, "nem sei o que dizer"...

quinta-feira, outubro 01, 2015

BCN #1

Deve ser isto, só pode. Entrámos por gostarmos de mergulhar nestas bancas de fruta fresca e queijo forte, sem saber ao certo que era ali. Rapidamente percebemos que estavamos na Boqueria, pela inundação de pessoas de câmara em punho, selfies a serem tiradas, presunto a ser provado e dinheiro a sobrevoar as bancas. Cheira a especiarias de um lado, impressionam os legumes e frutas do outro. Mais à frente, torna-se difícil sair da frente da montra sem levar um (ou mais) dos queijos expostos. Perdemo-nos deliberadamente nas ruelas do mercado. Andamos às voltas tentando absorver todos os sabores com recurso à empatia pelo deleite dos outros. Observamos atentamente para descobrir o único e excecional. E vemos então a montra que mais ficará na memória, pela crueza dos produtos. A cabeça da cabra, de língua de fora e os olhos espantados, ao lado de miolos embalados numa caixinha de plástico. Reconhecemos ainda testículos, um focinho de porco, estômagos, corações e outros que tais que as nossas aulas de anatomia nos permitiram reconhecer. Bem sei que em terras lusas não faltam destinos para estes repastos, mas vê-los assim, crus, limpos e inteiros, surpreende.