Ao final da manhã, fomos passear-nos ao jardim. Estava um sol quente e um ar leve. A cadela estava feliz, correndo livremente pela longa extensão de relva com outros cães que encontrou por lá. As folhas já caem e o outono já se torna mais visível no castanho e amarelo que se vai acumulando junto das árvores. De algumas, altas, conseguem-se ver os voos vagarosos das folhas. Uma chuva lenta que tranquiliza.
A cadela ia já longe e eu, calmamente, seguia atrás dela. À minha esquerda, sobressaía uma árvore e o seu tapete verde coberto de folhas amarelas. Parei para admirar. Lembrei-me do dia em que, na minha adolescência, resolvemos combinar uma ida ao jardim para juntarmos um monte de folhas secas e saltarmos lá para cima. Os dias eram duros e aquela brincadeira soube-nos a libertação. Preciso destas brincadeiras. Preciso de libertações.
E preciso de regressar ao Torel.
domingo, novembro 10, 2013
quinta-feira, novembro 07, 2013
Cuida-te
No início, não sabia o que fazer. Fugia da possibilidade porque o corpo não queria pôr-se à prova. Até que a amizade falou mais alto e alguém quis tocar. Abraçou-me enquanto sorria, feliz por o felicitar em mais um aniversário. Fui apanhada de surpresa e o corpo não soube reagir. Ninguém viu os meus braços estendidos no ar, atrás do meu amigo, imóveis, hirtos, raciocinando muito lentamente que talvez fosse boa ideia tentar aproximá-los das costas de quem me abraçava. Dei então uso à articulação e, vagarosamente, os braços tornaram-se cada vez mais paralelos às costas dele. O medo de não saber tocar parou-me quando, julgando já ter movido o suficiente, não senti corpo nenhum, não me senti mais próxima de nenhum corpo, de continuar ausente daquele abraço que o meu grande amigo insistia em prolongar. Desisti de o abraçar e estiquei de novo os braços, perpendiculares ao corpo amigo, apontando para longe. Que terminasse depressa aquele mimo sem resposta, aquela vergonha de não saber estar.
Depois enamorei-me. Chegou quem não tinha medo de me abraçar. Sorria-me, olhava-me com amor transbordante e jogava-se no meu corpo. Ensinou-me a aceitá-lo. A senti-lo. A deixar-me tocar, inteira, corpo com corpo, num encaixe perfeito. Repetidamente até compreender que amava. Que pertencia. E, depois, ensinou-me a não ter medo de tocar. A juntar a mim o corpo do outro que estimo, a envolvê-lo em braços juntos, mãos abertas,gestos doces. Aprendi que o corpo fala. Aprendi que o outro estima o toque, que o compreende, que nele se conforta. Tal como eu própria aprendera a sentir, quando o embaraço se ultrapassa.
Desde então é tão mais fácil. Reconheço quando o meu corpo é impelido a tocar um outro para tornar a amizade e o carinho mais palpável. Demoro a transformar o desejo em ato, mas, quando me permito aproximar-me, sei bem onde colocar o corpo, os braços, o mimo. Sei já o que dizer no gesto. Sei já que não há outra forma de o dizer.
Porém, falta-me ainda definir o tempo certo, a dose adequada. Há uma comoção transbordante que tento conter, com o receio que o outro se surpreenda com a entrega. Deposito a minha fé na reciprocidade, mas receio, no fundo, a sua ausência. Talvez por isso adie o gesto até a comoção transbordar e o limite ao tempo indispensável para que o recado seja entregue.
Hoje, um abraço trouxe-me mais que um recado de amizade. Demorado, quis confortar, quis dar-me tempo e um refúgio. Mais que um postal, foi prenda de aniversário. E compreendi que me falta ainda esta derradeira aprendizagem.
Um abraço é corpo e é tempo. É preciso demorá-lo.
quarta-feira, novembro 06, 2013
domingo, novembro 03, 2013
Degraus
Vejo-te
os olhos curiosos debruçados sobre a mesa
E a língua bem presa ao canto da boca
Pela
dedicação ao problema apresentado:
cubos,
degraus, escadas.
A mão
sobrevoa o objeto de estudo
E a vista
foge-te para quem te desafia
à procura
do reflexo da confiança
Que já
depositas em ti
Numa
investida a pique, arriscas.
Peça
sobre peça,
como na
memória de ainda agora,
para que
cubos se tornem degraus, escadas.
Abrandas
no momento final
Para não
comprometeres a tua obra
Terminas,
recolhes-te ao teu lugar
E, por
fim, levantas o olhar. Venha o veredicto.
Bastou um
sorriso orgulhoso.
Sem
palavras, desnecessárias,
Explodes
em celebração entusiastica
Braços no
ar, sorriso aberto, amor bom.
2012
sábado, novembro 02, 2013
Há muito que não me ria assim. Saiu toda a amargura, ou perto disso. O tormento destes dias tornou-se a chacota da noite, o que nos uniu num riso muito contagioso e incontrolável. Transformámos a dor em entusiasmo pelo futuro e ousámos sonhar.
Daqui a 20 anos...
E, no fim, um abraço e as boas-vindas. Pertenço certamente aqui. Sinto-me muito bem vinda. Sinto que, finalmente, cheguei a casa.
Hoje já é um dia bom. Estou mais leve.
Daqui a 20 anos...
E, no fim, um abraço e as boas-vindas. Pertenço certamente aqui. Sinto-me muito bem vinda. Sinto que, finalmente, cheguei a casa.
Hoje já é um dia bom. Estou mais leve.
quinta-feira, outubro 31, 2013
Anorexia
Ficou-me o termo pela dureza do mesmo. Aguentar com um pouco menos do que antes. Acreditar sempre que aguento. E depois, de um momento para o outro, o corpo cede tão de repente que não serei mais capaz de recuperar.
Preciso de um bife.
Há um longo caminho a percorrer ainda. Por agora é conseguir vê-lo. Hei-de então respirar fundo e dar o primeiro passo.
domingo, outubro 27, 2013
E assim me cansei dos poemas corridos.
Vim aqui para me aconchegar mais uma vez nas palavras escritas. Mas hoje não há nada a dizer. Há talvez um peito quente, a Lhasa a cantarolar e um telefonema amigo. De resto, apenas a crença crescente em dias melhores. Sim, hoje já consegui trabalhar. Hoje já penso um pouco melhor.
Ainda não sei porque o escrevo. Mas é preciso. Por agora, é preciso.
Vim aqui para me aconchegar mais uma vez nas palavras escritas. Mas hoje não há nada a dizer. Há talvez um peito quente, a Lhasa a cantarolar e um telefonema amigo. De resto, apenas a crença crescente em dias melhores. Sim, hoje já consegui trabalhar. Hoje já penso um pouco melhor.
Ainda não sei porque o escrevo. Mas é preciso. Por agora, é preciso.
sexta-feira, outubro 25, 2013
domingo, outubro 20, 2013
Dedilhado
Por cima do armário
Esperava-me a guitarra
Em que aprendi a tocar
A que viajou comigo
A que exibi na escola
A que, ainda hoje,
Melhor se ajusta aos meus dedos
A quarta corda permanecia quebrada
Desde a última vez que desisti dela
Soltei-a, rompi o defeito, instalei-a de novo
Enquanto o cheiro a cordas usadas
Incitava memórias antigas
E me perdoava os anos longe
Pela afinação que se mantinha
- misteriosamente -
Aceitável
Os dedos correram para o recreio
Para aquele dedilhado primeiro
Onde tropeço invariavelmente
Quando inauguro um espaço sonoro
É ainda automática aquela dança,
aquela cadência, aquele consolo
Prossegui então
Para o embalo infalível
Da música que sempre se segue
À abertura do recital restrito
Desta vez, a memória falhava
E recorri à ajuda de casa
Mergulhei nos papéis desses tempos
Em que aprendia canções
Por números em linhas paralelas
E começava a distinguir
Cordas, trastes, acordes - maiores e menores
Riffs, solos, slides, bends e
hammer ons
Entre outros estrangeirismos impressionantes
Do rock elétrico em que me especializava
Reconstrui, então, o automatismo da manobra
Já sem papel, de olhos semi-cerrados
toquei, no meu compasso, na minha emoção,
a música inevitável para qualquer guitarra
que surja no meu colo
A que me sossega
Terminada a terapêutica interpretativa
Regressei aos papéis e apontamentos
Dos dias das músicas mais prolixas
Que a imaturidade do meu discurso
Mergulhei naquele repouso adolescente
E voltei à canção onde este amor começou
Terminei escutando-a, de novo,
Para confirmar que o amor se mantém puro
Surpreendente e unintended
sexta-feira, outubro 18, 2013
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