sexta-feira, outubro 18, 2013

Disse ela,
Estão bem entregues
E o dia pareceu menos mau

Negação

Entrego-me à fé ingénua
De que os seus olhos vêem
Através dos meus cobertos

Entrego a sorte
A quem não sente
A pele que me arde

Calo
Consinto
Sinto
Suporto

E aceito em silêncio
O peso com que testam
A resistência do meu corpo vão

Sem ar
Falta-me a voz
Para lembrar o não

É preciso aprender
A dizer
Não

É preciso chamar a razão

quinta-feira, outubro 17, 2013

Psicomotricidade

Não me tirem este cansaço
E a vontade de correr
Corro, que vou tarde
Mas com vontade
De ser jovem e
Regressar a mim

Preciso
Da Márcia e da pele que há ali
No gesto da mão vago
No pé que me apoia
No corpo que ressalta
E que, no compasso, se exalta

Relaxo metodicamente
Um pescoço que esquecera
Tão sério
Espreguiço e as palmas
Das mãos abarcam,
De novo,
O mundo inteiro

O esterno olha o céu
Quando os braços cruzam,
Esquerda junto ao corpo,
Movimento fluido
E uma aparente naturalidade
No acerto com os tempos contados

Sete, oito e...
Um dois três
Um dois três
Plié e um
Quatro cinco
Meia volta um

Aqui, na fusão do gesto
E da música que quero sentir
Esbato a dor dos dias dificeis
No chão onde me deito
No suor a que me sujeito
No ar pesado deste cansaço
Bom


terça-feira, outubro 15, 2013

Disse-me que tinha cara de quem escrevia bem e escolheu o meu segundo nome. Tem tudo para dar certo.
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação

domingo, outubro 13, 2013

Microconto #2

Subiste comigo. Sós. A gata ciumenta fita o corpo que tenta não ceder. Receio perder a postura. A tontura torna-se difícil de contrariar. Não distingo a distância que nos separa, que não nos separa. Ardo e não te toco. Os braços entorpecem e as pernas fraquejam. Fecho os olhos e lanço-me, na câmara lenta que se impõe, à espera que me segures.

Microconto #1

Saiu à rua para ver chover. Em casa, o ruído afogava o espaço. Ainda os ouve, tempestuosos, cuspindo insultos às paredes que construíram um dia. Cá fora, a água é outra. Lava as feridas, suaviza a turbulência e escoa a dor de pertencer à casa sonora. Na rua era melhor. Ali a chuva não desiludia. A chuva era tal e qual aquilo com que sempre sonhara.
De novo, a recordação da guitarra.
Sentada nas escadinhas, como chouriço e oiço fado. A tendência mantém-se, a guitarra prende-me mais naturalmente que a voz. O ritmo, as trocas dos dedos, as cordas que saltam em cadência portuguesa. Não demorou ao pé entrar no ritmo e as minhas próprias mãos e dedos procurarem espelhar aqueles gestos. Toco no ar a música que ainda não sei, mas pouco importa porque regresso hoje a casa com a lembrança da urgência da música.
Hei-de tocar.

sábado, outubro 12, 2013

Como a escrita liberta...
Ando contigo a peito e já não estou habituada a escrever estas coisas. 
De vez em quando, surge alguém assim, que cativa, que transforma, que significa. E chegaste tu. Não em total surpresa, que basta um contacto breve para se adivinhar a tua singularidade. Mas o tempo fermenta e o trauma une. Sabes do que falo e citas Exupéry.

Responsáveis por quem cativamos.

Enfim, poderia prosseguir o palavreado florido e mascarado. O que importa é que é urgente mostrar-me grata. O número pode estar sempre disponível mas é aqui que te contacto, aqui onde não sei se me virás ler. Aqui, no meu jardim de palavras confusas. Aqui, onde me sinto livre para afirmar, de peito cheio, que me és alguém significativo e que te quero escrever.
Escrevo a quem me toca. E tu abriste os braços quando me viste chegar.
Também não te esqueço. Também me responsabilizo.