domingo, outubro 13, 2013
Microconto #1
Saiu à
rua para ver chover. Em casa, o ruído afogava o espaço. Ainda os ouve,
tempestuosos, cuspindo insultos às paredes que construíram um dia. Cá fora, a
água é outra. Lava as feridas, suaviza a turbulência e escoa a dor de pertencer
à casa sonora. Na rua era melhor. Ali a chuva não desiludia. A chuva era tal e
qual aquilo com que sempre sonhara.
De novo, a recordação da guitarra.
Sentada nas escadinhas, como chouriço e oiço fado. A tendência mantém-se, a guitarra prende-me mais naturalmente que a voz. O ritmo, as trocas dos dedos, as cordas que saltam em cadência portuguesa. Não demorou ao pé entrar no ritmo e as minhas próprias mãos e dedos procurarem espelhar aqueles gestos. Toco no ar a música que ainda não sei, mas pouco importa porque regresso hoje a casa com a lembrança da urgência da música.
Hei-de tocar.
Sentada nas escadinhas, como chouriço e oiço fado. A tendência mantém-se, a guitarra prende-me mais naturalmente que a voz. O ritmo, as trocas dos dedos, as cordas que saltam em cadência portuguesa. Não demorou ao pé entrar no ritmo e as minhas próprias mãos e dedos procurarem espelhar aqueles gestos. Toco no ar a música que ainda não sei, mas pouco importa porque regresso hoje a casa com a lembrança da urgência da música.
Hei-de tocar.
sábado, outubro 12, 2013
Ando contigo a peito e já não estou habituada a escrever estas coisas.
De vez em quando, surge alguém assim, que cativa, que transforma, que significa. E chegaste tu. Não em total surpresa, que basta um contacto breve para se adivinhar a tua singularidade. Mas o tempo fermenta e o trauma une. Sabes do que falo e citas Exupéry.
Responsáveis por quem cativamos.
Enfim, poderia prosseguir o palavreado florido e mascarado. O que importa é que é urgente mostrar-me grata. O número pode estar sempre disponível mas é aqui que te contacto, aqui onde não sei se me virás ler. Aqui, no meu jardim de palavras confusas. Aqui, onde me sinto livre para afirmar, de peito cheio, que me és alguém significativo e que te quero escrever.
Escrevo a quem me toca. E tu abriste os braços quando me viste chegar.
Também não te esqueço. Também me responsabilizo.
sexta-feira, outubro 11, 2013
Recuperação
O sorriso largo e o abraço no primeiro instante cruzado.
O chá francófono que serena.
O telefonema para que o cuidado não seja esquecido.
O toque no ombro e o diminutivo no nome.
A questão.
Tudo bem?
Os olhares mais longos.
E a palavra formal que embrulha o mimo latente.
Curativos.
Já estou melhor, obrigada.
O chá francófono que serena.
O telefonema para que o cuidado não seja esquecido.
O toque no ombro e o diminutivo no nome.
A questão.
Tudo bem?
Os olhares mais longos.
E a palavra formal que embrulha o mimo latente.
Curativos.
Já estou melhor, obrigada.
terça-feira, outubro 08, 2013
What you can bear
Pedi ajuda.
Não me recordo de dias assim. Uma angústia constante mantém-me inerte ao longo da jornada, sempre rindo quando o assunto é demasiado duro para o viver em pleno sem o choro. É a minha protecção. Sorrio, rindo-me do absurdo da situação, fingindo que passo por ela com uma força surpreendente, como se fosse o esperado, como se nada fosse.
Mas é. E vejo-o nos olhos de quem o vive comigo, de quem ouve relatos e acrescenta a sua própria tragédia à comédia destes dias. E eu rio, porque não há mais nada a fazer.
Até que ela compreende que não tenho apenas uma capacidade notável para sorrir. Expõe-me a fragilidade e eu tropeço. Quase que caí nas lágrimas abafadas da minha dor, mas ri ainda mais e fugi pelas portas que me deixaram abertas. Não falei da dor. Não podia, não ali, não em funções laborais.
O que é certo é que me validaram a dor. É agora permitido perguntar como tenho passado, se me sinto melhor, como estou. E agora compreendo que mereço sofrer.
Mereço chorar a angústia destes dias duros, das más noticias, da soma das dificuldades, da manutenção das problemáticas. Agora que me perguntam, tenho de o chorar.
O luto.
Os lutos.
Não me recordo de dias assim. Uma angústia constante mantém-me inerte ao longo da jornada, sempre rindo quando o assunto é demasiado duro para o viver em pleno sem o choro. É a minha protecção. Sorrio, rindo-me do absurdo da situação, fingindo que passo por ela com uma força surpreendente, como se fosse o esperado, como se nada fosse.
Mas é. E vejo-o nos olhos de quem o vive comigo, de quem ouve relatos e acrescenta a sua própria tragédia à comédia destes dias. E eu rio, porque não há mais nada a fazer.
Até que ela compreende que não tenho apenas uma capacidade notável para sorrir. Expõe-me a fragilidade e eu tropeço. Quase que caí nas lágrimas abafadas da minha dor, mas ri ainda mais e fugi pelas portas que me deixaram abertas. Não falei da dor. Não podia, não ali, não em funções laborais.
O que é certo é que me validaram a dor. É agora permitido perguntar como tenho passado, se me sinto melhor, como estou. E agora compreendo que mereço sofrer.
Mereço chorar a angústia destes dias duros, das más noticias, da soma das dificuldades, da manutenção das problemáticas. Agora que me perguntam, tenho de o chorar.
O luto.
Os lutos.
domingo, setembro 29, 2013
Proteção
Falta-me o meu espaço. Talvez seja desta.
Corre tanto por mim que não consigo parar para o escrever. Sinto-me zonza. Sinto-me adormecida enquanto me empurram para que não pare. Não vou parar.
Tens escrito? É isso, disseram-me. Falta-me esse tempo, esse escape. Sou apenas os dias que percorro, o pão que compro e o curativo que aplico. Sou o horário, a gasolina, os e-mails e o jogo no tablet quando a solidão o pede.
Não quero regressar ao marasmo de outros dias. Não me posso voltar a perder.
Corre tanto por mim que não consigo parar para o escrever. Sinto-me zonza. Sinto-me adormecida enquanto me empurram para que não pare. Não vou parar.
Tens escrito? É isso, disseram-me. Falta-me esse tempo, esse escape. Sou apenas os dias que percorro, o pão que compro e o curativo que aplico. Sou o horário, a gasolina, os e-mails e o jogo no tablet quando a solidão o pede.
Não quero regressar ao marasmo de outros dias. Não me posso voltar a perder.
quarta-feira, abril 24, 2013
Que se lixe
Que se lixem os professores
Pouco médicos, muito doutores
Que se lixem as ansiedades
As brancas, as caganeiras, as epigastralgias
Que se lixe a bata,
O esteto e as gasimetrias
Que se lixe o desemprego e o futuro
Que o curso já foi muito duro
P
Pouco médicos, muito doutores
Que se lixem as ansiedades
As brancas, as caganeiras, as epigastralgias
Que se lixe a bata,
O esteto e as gasimetrias
Que se lixe o desemprego e o futuro
Que o curso já foi muito duro
P
(encontrei-o assim, inacabado, o poema com que tanto sonhara há uns meses atrás. Seria a celebração da vida que conquistara. Ficou assim, inacabado. Mas ficou e ficará por cá.)
Dia do Livro. Uma homenagem ao livro. Uma homenagens aos autores. Uma homenagem à escrita.
De vez em quando, o aperto regressa. Vejo uma jovem escritora falar na televisão e ele volta. Estou atrasada, penso, estou a perder tempo. Porque eu sou palavras e é assim que me exprimo. É por aqui que tiro tudo isto cá de dentro.
Disse-me o meu avô, curioso como já não te tens virado para a escrita agora que te sentes realizada profissionalmente. O aperto desperta e relembra-me que ainda lá está e que esta distância já se nota. Não sinto menos necessidade de escrever. Não é a minha realização profissional que me tira a vontade e o gosto da escrita. Aliás, isso nunca desaparece. Apenas adormece, à força. Até porque, cá no fundo, sei que a realização profunda se encontra aqui. Nas palavras. As escritas.
Enquanto preparava a folha eletrónica onde escrever, apercebi-me que já não tenho um caderno à mão para estas ocasiões. Já não o pondero, será? Já espero que o ecrã me resolva a necessidade. Fio-me que a necessidade espera até ao ecrã estar disponível ou que, até lá, se evapore. Se esqueça. Como tantas vezes antes.
Estou, talvez, numa fase intermédia. Não me voltaram a surgir estórias à cabeça. Por vezes, versos de um poema inacabado e indefinido. Não sei, portanto, o que escrever. Não tenho estrutura. Tenho ideias, algumas suposições, algumas reflexões. Curioso como sempre foram as que mais me custaram. Tomar partido. Opinar. Talvez seja isso, a necessidade de opinar que resiste à escrita pelo medo de abalar. Estará pois na altura de ser mais do que uma descrição dos atos.
Enfim, regressemos aos livros. Contabilizei os que me passaram pela frente. Mais de uma centena de obras, sem contar com os primórdios da leitura. Uma aventura, um triângulo jota e muitas agatha christie’s. Recordo quando ainda não compreendia a piada de um livro sem ilustrações. Uma por capítulo bastava-me. Depois, a ilustração desapareceu discretamente do papel e voou para a imaginação das palavras vivas. Li O Mundo de Sofia em três dias, sem medo da leitura sôfrega. Foi aí, senti, que a espiral começou. Muito pouco tempo depois, tropecei na Insustentável Leveza do Ser. Fiquei dormente durante semanas, mas desperta para um mundo novo, interior e exterior. A rebelião das palavras que fui sugando contrastavam com a castração interna sobre uma adolescência assoberbante. Bebi de tudo, procurando não transbordar. Fui maior por tudo isso. Sou maior por tudo isso.
Julgo que perdi a capacidade esponjosa da altura. Talvez seja o tempo que me escapa, o mundano que me ocupa, a responsabilidade que me desresponsabiliza. O que é facto, é que já não fico serões sozinha no quarto, escrevendo um pequeno texto durante horas. Já não estou tão só. Já não escrevo durante horas. Mas quero-o tanto. Preciso tanto. Preciso de escrever. Preciso de saber o que escrever. Até lá, regresso ao tema de sempre. A escrita.
sábado, março 23, 2013
O corpo tem dado sinais de si, das internalizações constantes, das angústias crescentes. Nada de mais, é certo, mas tudo pesa, tudo ocupa. E, ao procurar saída, escoo para aqui. No fundo, a casa das minhas raízes.
O que tem sido afinal? Um regresso. O pé que pousa finalmente, depois do passo largo dado. Pousa e regresso a mim, inteira. Passado e presente, um só em direção ao futuro. Construindo-o. Eu, hoje, como eu, ontem, há uns anos, quando o peito pulsava forte e as palavras jorravam com intensidade. Eu, intensa, a invadir o eu de hoje.
E se precisar de ajuda, serei capaz de a pedir?
Pensei hoje, já tive 20 anos. Já tive 21 anos. Já tive 22 e 23. Até já tive 24. Ficou apenas a dormência desses números. Não os recordo. Perdi a minha idade. É preciso celebrá-la de novo, para marcar a memória de comoção e relevância. Preciso celebrar-me. A sério.
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