SEM #27
Aqui há problemas de gente crescida. Aqui onde um prematuro, das outras margens, corresponde em tamanho à cabeça de um internado. Aqui não é a lingua a maior barreira de comunicação. Aqui perde-se esperança.
Na cama do fundo, M. Antov, repousando em coma, representa uma das consequências mais graves do contacto com uma espécie ameaçadora neste país: a carraça. Infectada com um bichinho devastador, trouxe uma encefalite severa a este senhor que se preparava para atingir a meta da velhice. Ali descansa, sem ser possível prever-lhe grande futuro.
Ao seu lado, outro senhor, adormecido no mesmo destino, é o resultado de vários episódios de uma tragédia que muitos temem na idade madura. Acidente Vascular Cerebral. Não se sabe a equação final.
Chamam-me a atenção para o seu nome. V. Antov. Irmão. Lado a lado no infortúnio, por mero acaso, numa casa onde não querem pertencer. Uma história que não se sabe, nem se quer, contar.
quarta-feira, agosto 26, 2009
terça-feira, agosto 25, 2009
SEM #26
O doutor de nariz vermelho interrompe a conversa a três, de tradução simultânea. Vem entusiasmado e pede uma pausa no aborrecimento do serviço pouco concorrido de Pedopsiquiatria (é Agosto, há mais que fazer!) para pôr em marcha algo que traz planeado. A voz colocada e os gestos largos coordenam os sorrisos tímidos dos jovens internados, enfermeiros, médicos e psicólogos. Ao chegar a mim, não obtém resposta, mas a M. rapidamente o informa da minha insuficiência linguística. Já no inglês internacional, convida-me a tomar parte do filme que ele, o realizador, pretende fazer. Pois com certeza, vamos a isso. Coreografando energicamente todos os intervenientes, cria a cena: o sono da princesa adormecida sofre uma tentativa de violação por parte de um mauzão e sua cúmplice (eu), escondidos atrás de uma árvore e de um arbusto, mas é subitamente salvo pelo seu anjo da guarda que grita "Parem!" em eslavo, o que mata os vilões. O recém-contratado conselheiro continua a dizer que sim a todas as sugestões do realizador de nariz vermelho, como é suposto, e, em dois takes, fica perfeita. Há palmas, há muitos sorrisos, mesmo nos mais soturnos e sépticos à brincadeira, há agradecimentos aos actores e, para minha satisfação secreta, os narizes vermelhos distribuídos pelos participantes mais jovens englobam-me no grupo dos premiados.
Levo mais um sorriso para casa.
O doutor de nariz vermelho interrompe a conversa a três, de tradução simultânea. Vem entusiasmado e pede uma pausa no aborrecimento do serviço pouco concorrido de Pedopsiquiatria (é Agosto, há mais que fazer!) para pôr em marcha algo que traz planeado. A voz colocada e os gestos largos coordenam os sorrisos tímidos dos jovens internados, enfermeiros, médicos e psicólogos. Ao chegar a mim, não obtém resposta, mas a M. rapidamente o informa da minha insuficiência linguística. Já no inglês internacional, convida-me a tomar parte do filme que ele, o realizador, pretende fazer. Pois com certeza, vamos a isso. Coreografando energicamente todos os intervenientes, cria a cena: o sono da princesa adormecida sofre uma tentativa de violação por parte de um mauzão e sua cúmplice (eu), escondidos atrás de uma árvore e de um arbusto, mas é subitamente salvo pelo seu anjo da guarda que grita "Parem!" em eslavo, o que mata os vilões. O recém-contratado conselheiro continua a dizer que sim a todas as sugestões do realizador de nariz vermelho, como é suposto, e, em dois takes, fica perfeita. Há palmas, há muitos sorrisos, mesmo nos mais soturnos e sépticos à brincadeira, há agradecimentos aos actores e, para minha satisfação secreta, os narizes vermelhos distribuídos pelos participantes mais jovens englobam-me no grupo dos premiados.
Levo mais um sorriso para casa.
segunda-feira, agosto 24, 2009
SEM #25
Aproveitamos o bom dia para experimentar, finalmente, a bicicleta. Orientados por duas nativas amigas, andamos bem e depressa no verde e nas ruas, para não desperdiçar as duas poucas horas que temos.
Paramos junto a um palácio para casamentos e, pois claro, exigimos a fotografia de grupo. Armados de sorriso turístico, aguardamos o casal que atravessa a ponte para os abordarmos e pedirmos colaboração. Para grande surpresa nossa, assim que lhe estendemos a máquina, o senhor recusa-a e procura afastar-se aflitivamente de nós. Antes de desaparecer, as nativas pedem de novo, desta vez na verdadeira língua do casal, e, por fim, lá aceitam tirar gentilmente a fotografia.
Arrumamo-nos por entre bicicletas e murmurinhos curiosos e esperamos que o senhor, agora já sorridente, clique no botão. Já está!
Uma de nós vai recolher a câmara e agradecer mais uma vez. Quem o entendeu conta, junto ao grupo que fica no sítio, que, a princípio, o senhor julgava que o queriamos fotografar. Ela segura na máquina, vê a fotografia no ecrã, sorri ao senhor, agradece. Perguntamo-nos porque quereriamos nós tirar uma fotografia ao senhor ao estender-lhe a câmara. Esperamos em grupo que a câmara regresse para vermos nós o resultado final.
Por cima da cabeça de todos nós, o dedo gordo do senhor cobre o céu e as caras que estariam sorridentes. Perfeito. Não tiramos fotografia ao senhor mas ele insiste em aparecer. Já longe, não nos deve ter visto rir.
Aproveitamos o bom dia para experimentar, finalmente, a bicicleta. Orientados por duas nativas amigas, andamos bem e depressa no verde e nas ruas, para não desperdiçar as duas poucas horas que temos.
Paramos junto a um palácio para casamentos e, pois claro, exigimos a fotografia de grupo. Armados de sorriso turístico, aguardamos o casal que atravessa a ponte para os abordarmos e pedirmos colaboração. Para grande surpresa nossa, assim que lhe estendemos a máquina, o senhor recusa-a e procura afastar-se aflitivamente de nós. Antes de desaparecer, as nativas pedem de novo, desta vez na verdadeira língua do casal, e, por fim, lá aceitam tirar gentilmente a fotografia.
Arrumamo-nos por entre bicicletas e murmurinhos curiosos e esperamos que o senhor, agora já sorridente, clique no botão. Já está!
Uma de nós vai recolher a câmara e agradecer mais uma vez. Quem o entendeu conta, junto ao grupo que fica no sítio, que, a princípio, o senhor julgava que o queriamos fotografar. Ela segura na máquina, vê a fotografia no ecrã, sorri ao senhor, agradece. Perguntamo-nos porque quereriamos nós tirar uma fotografia ao senhor ao estender-lhe a câmara. Esperamos em grupo que a câmara regresse para vermos nós o resultado final.
Por cima da cabeça de todos nós, o dedo gordo do senhor cobre o céu e as caras que estariam sorridentes. Perfeito. Não tiramos fotografia ao senhor mas ele insiste em aparecer. Já longe, não nos deve ter visto rir.
domingo, agosto 23, 2009
SEM #24
A visita estava a terminar e preparavamo-nos para nos despedir da cidade, visitando um último lugar. A caminho da estação, percorremos a rua sugerida por quem aqui viveu. Tínhamos apenas o nome e nem uma expectativa do que encontrar.
Após uma nova igreja que certamente não seria a atracção principal, não compreendíamos, ao longo da caminhada pelo percurso, o porquê daquela sugestão entusiasta. Até que, numa pequena entrada, a estranheza chama-nos a atenção. Dentro da cidade arrumada e limpa, as paredes pintadas, o ambiente suburbano e a descontracção da juventude surpreendem. Seguimos por esta perpendicular e visitamos a pousada da juventude que tem como quartos as antigas celas da prisão que ali se encontrava. Ao sairmos, confiantes de que deveria mesmo haver algo para nos deslumbrar naquela rua prestes a terminar, seguimos pela transversal antes de regressar ao caminho principal. O ambiente, violado pela arte das ruas, aconselhava-me um cuidado especial por me recordar locais pouco propícios para jovens como eu.
Até que entramos em Metelkova. Já não são grafittis, é algo mais. São imagens surreais, são paredes forradas de quadros, bustos, molduras, enfeites, cores, objectos. São padrões rosa e verde, são palavras de ordem, são telhados de linhas bizarras, são estátuas reinventadas. São carros explodidos com panos velhos, são placas inclinadas, são parques infantis no meio do turbilhão de formas e cores nunca antes vistas à luz do sol. Não compreendo onde estou.
A máquina fotográfica não pára, sinto-me tonta e incapaz de absorver tudo isto, confio na memória digital para me ajudar a observar mais tarde, com calma, cada detalhe deste espaço. Porque são só detalhes. Porque o conjunto precisa de um olhar cuidado. Porque nos invade e nos confunde. Porque é belo e bizarro. Porque não se espera e porque se destaca do resto. Porque existe.
Ainda atordoada, saímos do bairro e prosseguimos até à estação. Ainda bem que nos aconselharam este percurso, deixo Ljubljana de queixo caído.
A visita estava a terminar e preparavamo-nos para nos despedir da cidade, visitando um último lugar. A caminho da estação, percorremos a rua sugerida por quem aqui viveu. Tínhamos apenas o nome e nem uma expectativa do que encontrar.
Após uma nova igreja que certamente não seria a atracção principal, não compreendíamos, ao longo da caminhada pelo percurso, o porquê daquela sugestão entusiasta. Até que, numa pequena entrada, a estranheza chama-nos a atenção. Dentro da cidade arrumada e limpa, as paredes pintadas, o ambiente suburbano e a descontracção da juventude surpreendem. Seguimos por esta perpendicular e visitamos a pousada da juventude que tem como quartos as antigas celas da prisão que ali se encontrava. Ao sairmos, confiantes de que deveria mesmo haver algo para nos deslumbrar naquela rua prestes a terminar, seguimos pela transversal antes de regressar ao caminho principal. O ambiente, violado pela arte das ruas, aconselhava-me um cuidado especial por me recordar locais pouco propícios para jovens como eu.
Até que entramos em Metelkova. Já não são grafittis, é algo mais. São imagens surreais, são paredes forradas de quadros, bustos, molduras, enfeites, cores, objectos. São padrões rosa e verde, são palavras de ordem, são telhados de linhas bizarras, são estátuas reinventadas. São carros explodidos com panos velhos, são placas inclinadas, são parques infantis no meio do turbilhão de formas e cores nunca antes vistas à luz do sol. Não compreendo onde estou.
A máquina fotográfica não pára, sinto-me tonta e incapaz de absorver tudo isto, confio na memória digital para me ajudar a observar mais tarde, com calma, cada detalhe deste espaço. Porque são só detalhes. Porque o conjunto precisa de um olhar cuidado. Porque nos invade e nos confunde. Porque é belo e bizarro. Porque não se espera e porque se destaca do resto. Porque existe.
Ainda atordoada, saímos do bairro e prosseguimos até à estação. Ainda bem que nos aconselharam este percurso, deixo Ljubljana de queixo caído.
sábado, agosto 22, 2009
SEM #23
Não toquei em Ljubljana. Entrei de mansinho, pela ponte dos dragões, que reclamam alguma atenção, e encontrei-me dentro da vida da cidade. O mercado resplandecia de cores e frescura, os comerciantes honestos forneciam as recordações e presentes imprescindíveis aos visitantes e os habitantes compunham a vivacidade deste quadro, ao som de uma banda Mariachi. Ljubljana está acordada, sorridente, cheirosa, e vem-nos receber.
Ao percorrer este quadro, o som mexicano desvanece enquanto um jazz popular surge gradualmente enquanto um novo trio surge ao fundo da rua. As três pontes, ensombradas por quadros suspensos no céu, abrem caminho para Perseven, o poeta enaltecido pela companhia da sua musa, que medita.
Subimos ao castelo, animado por inúmeros casamentos com acordeonista acompanhante que tomam lugar no topo da cidade. Passeámos no longo jardim denso que termina em mais música, desta vez um pequeno festival de cantautores croatas a favor da pacificação e termino dos acordos entre estes países vizinhos. Fugimos do temporal que se ameaça e sonhamos com os ombros doces dos amantes enquanto chovem folhas ao longo do caminho. Descobrimos uma galeria de arte mutada em padaria, que agradece um pequeno contributo à sua ajuda a cuidar do nosso apetite. Surpreendemo-nos com as aranhas gigantes e encantamo-nos com as luzes da noite de aguaceiros. Enamoramo-nos.
Mas não toquei em nada. Deixei tudo intacto, tudo tão encantador e confortável como encontrei. Não quis estragar nada porque tenho de cá voltar. Tenho olhares amigos a quem quero trazer aqui. Quero partilhar tudo isto de novo. Não lhe toquei para que espere o meu regresso.
Não toquei em Ljubljana. Entrei de mansinho, pela ponte dos dragões, que reclamam alguma atenção, e encontrei-me dentro da vida da cidade. O mercado resplandecia de cores e frescura, os comerciantes honestos forneciam as recordações e presentes imprescindíveis aos visitantes e os habitantes compunham a vivacidade deste quadro, ao som de uma banda Mariachi. Ljubljana está acordada, sorridente, cheirosa, e vem-nos receber.
Ao percorrer este quadro, o som mexicano desvanece enquanto um jazz popular surge gradualmente enquanto um novo trio surge ao fundo da rua. As três pontes, ensombradas por quadros suspensos no céu, abrem caminho para Perseven, o poeta enaltecido pela companhia da sua musa, que medita.
Subimos ao castelo, animado por inúmeros casamentos com acordeonista acompanhante que tomam lugar no topo da cidade. Passeámos no longo jardim denso que termina em mais música, desta vez um pequeno festival de cantautores croatas a favor da pacificação e termino dos acordos entre estes países vizinhos. Fugimos do temporal que se ameaça e sonhamos com os ombros doces dos amantes enquanto chovem folhas ao longo do caminho. Descobrimos uma galeria de arte mutada em padaria, que agradece um pequeno contributo à sua ajuda a cuidar do nosso apetite. Surpreendemo-nos com as aranhas gigantes e encantamo-nos com as luzes da noite de aguaceiros. Enamoramo-nos.
Mas não toquei em nada. Deixei tudo intacto, tudo tão encantador e confortável como encontrei. Não quis estragar nada porque tenho de cá voltar. Tenho olhares amigos a quem quero trazer aqui. Quero partilhar tudo isto de novo. Não lhe toquei para que espere o meu regresso.
sexta-feira, agosto 21, 2009
SEM #22
Honrados com o convite da prestigiada empresa farmacêutica para visitar a sua fábrica e aproveitar o dia à sua conta, seguimos cedinho para a barriga da galinha. Junto ao grupo heterolinguístico, vêem os hospedes do país, igualmente entusiasmados com o passeio de borla.
Admiro ao longe a naturalidade com que croatas, eslovenos e bósnios se entendem. A história comum permite-lhes este diálogo, agora pacífico e cúmplice. Mas, aos poucos, apercebemo-nos que, neste momento, esta comunicação não nos era favorável.
A mesa do almoço é longa e está animada, mas na ponta esquerda não se compreende o motivo. Os eslavos misturam-se e, por momentos, as latinas e as turcas presentes, as quatro únicas estranhas à sua linguagem, são esquecidas. As tentativas de integração são infrutíferas, pois os restantes não resistem à sua língua nativa. Desta vez, temos de nos bastar.
O passeio e a barreira comunicativa persiste no passeio fluvial da tarde. Numa pausa, as estranhas reúnem-se à parte, conformadas com a sua situação. Lado a lado, apreciamos o rio, admiramos a garça e partilhamos um pouco de casa. A galinha do vizinho, sempre melhor que a minha, parece tão grande como um ganso pelos lados da Turquia e o andandte schelet romeno é tão magro como o português. As diferenças entre os povos distintos do antigo império otomano fazem-nos sorrir e aprendemos o porquê da língua não ter ossos.
Os eslavos continuam o seu jogo de voleibol e nós prosseguimos no cozido internacional de línguas. Prefiro-o.
Honrados com o convite da prestigiada empresa farmacêutica para visitar a sua fábrica e aproveitar o dia à sua conta, seguimos cedinho para a barriga da galinha. Junto ao grupo heterolinguístico, vêem os hospedes do país, igualmente entusiasmados com o passeio de borla.
Admiro ao longe a naturalidade com que croatas, eslovenos e bósnios se entendem. A história comum permite-lhes este diálogo, agora pacífico e cúmplice. Mas, aos poucos, apercebemo-nos que, neste momento, esta comunicação não nos era favorável.
A mesa do almoço é longa e está animada, mas na ponta esquerda não se compreende o motivo. Os eslavos misturam-se e, por momentos, as latinas e as turcas presentes, as quatro únicas estranhas à sua linguagem, são esquecidas. As tentativas de integração são infrutíferas, pois os restantes não resistem à sua língua nativa. Desta vez, temos de nos bastar.
O passeio e a barreira comunicativa persiste no passeio fluvial da tarde. Numa pausa, as estranhas reúnem-se à parte, conformadas com a sua situação. Lado a lado, apreciamos o rio, admiramos a garça e partilhamos um pouco de casa. A galinha do vizinho, sempre melhor que a minha, parece tão grande como um ganso pelos lados da Turquia e o andandte schelet romeno é tão magro como o português. As diferenças entre os povos distintos do antigo império otomano fazem-nos sorrir e aprendemos o porquê da língua não ter ossos.
Os eslavos continuam o seu jogo de voleibol e nós prosseguimos no cozido internacional de línguas. Prefiro-o.
quinta-feira, agosto 20, 2009
SEM #21
Traz-se um vestido elegante para ocasiões destas. O convite do director da faculdade que nos recebe para o visitarmos e conhecermos a sua casa académica é encarado com respeito e honra. Aprumamo-nos nos fatos e nos vestidos, disfarça-se a loucura da viagem e veste-se o entusiasmo formal. Juntamo-nos aos estudantes locais e aguardamos instruções.
Surge-nos um jovem para nos receber, com um sorriso mais descontraído do que o esperado. Dá-nos as boas vindas e inicia uma revisão sobre a história da faculdade. Isto não vos interessa, remata, para matar o formalismo da sua posição como guia. Goza com algo que não entendemos bem, tal é a sua vontade de brincar com o que lhe foi incubido de nos contar, e segue rapidamente para a próxima paragem, já dentro do edifício. Entreolhamo-nos.
A visita guiada não melhora. Leva-nos para a sala errada, diz umas asneiras descontraídas no meio do discurso, sempre com o sorriso calão e desembaraça rapidamente os locais que lhe foram impostos de mostrar. Promete não nos demorar muito mais, mas não se despede sem perguntar se e onde fariamos festa hoje.
Demos por nós, pouco pouquíssimo tempo depois, cá fora. Entreolhamo-nos de novo. Terminou. Afinal não há recepção oficial pelo director, que, alguém nos informa agora, sofre de cancro e ninguém o vê há um ano.
Foi isto? Alguém tenta consolar-me, pelo menos houve oportunidade para te vermos com esse vestido bonito.
Traz-se um vestido elegante para ocasiões destas. O convite do director da faculdade que nos recebe para o visitarmos e conhecermos a sua casa académica é encarado com respeito e honra. Aprumamo-nos nos fatos e nos vestidos, disfarça-se a loucura da viagem e veste-se o entusiasmo formal. Juntamo-nos aos estudantes locais e aguardamos instruções.
Surge-nos um jovem para nos receber, com um sorriso mais descontraído do que o esperado. Dá-nos as boas vindas e inicia uma revisão sobre a história da faculdade. Isto não vos interessa, remata, para matar o formalismo da sua posição como guia. Goza com algo que não entendemos bem, tal é a sua vontade de brincar com o que lhe foi incubido de nos contar, e segue rapidamente para a próxima paragem, já dentro do edifício. Entreolhamo-nos.
A visita guiada não melhora. Leva-nos para a sala errada, diz umas asneiras descontraídas no meio do discurso, sempre com o sorriso calão e desembaraça rapidamente os locais que lhe foram impostos de mostrar. Promete não nos demorar muito mais, mas não se despede sem perguntar se e onde fariamos festa hoje.
Demos por nós, pouco pouquíssimo tempo depois, cá fora. Entreolhamo-nos de novo. Terminou. Afinal não há recepção oficial pelo director, que, alguém nos informa agora, sofre de cancro e ninguém o vê há um ano.
Foi isto? Alguém tenta consolar-me, pelo menos houve oportunidade para te vermos com esse vestido bonito.
quarta-feira, agosto 19, 2009
SEM #20
Vemos os peixinhos do aquário municipal, os répteis que por lá se expõem, subimos a um dos dois montes da cidade, por entre as vinhas e os insectos, absorve-se a vista, tiram-se as fotografias necessárias, regressa-se à cidade para um jantar num restaurante pouco típico e, entre tudo isto, a conversa nunca pára.
Não se deve falar do que não se sabe, concordámos. É por isso que lhe faço todas as perguntas, as convenientes e as inconvenientes, porque a ignorância é enorme e o preconceito maior. O Islão mete-nos medo e revolta. Mas partilho uma vivência tão significativa com ela, a muçulmana crente e praticante (aquele termo que tanta vez usamos no nosso catolicismo), sem véu e sem a seriedade que tanta vez se retrata no jornalismo actual, que sou incapaz de não querer aprender e conhecer mais da sua fé. Desta vez, falamos das burcas, da mulher, do casamento, da fidelidade, do sexo. E, no fim de contas, as opiniões convergem e confundem-se, a moral é semelhante e não existem conflitos.
Há algo lá fora que não compreendo. Não sei de que diálogo falam se este, para mim, funciona tão bem.
Vemos os peixinhos do aquário municipal, os répteis que por lá se expõem, subimos a um dos dois montes da cidade, por entre as vinhas e os insectos, absorve-se a vista, tiram-se as fotografias necessárias, regressa-se à cidade para um jantar num restaurante pouco típico e, entre tudo isto, a conversa nunca pára.
Não se deve falar do que não se sabe, concordámos. É por isso que lhe faço todas as perguntas, as convenientes e as inconvenientes, porque a ignorância é enorme e o preconceito maior. O Islão mete-nos medo e revolta. Mas partilho uma vivência tão significativa com ela, a muçulmana crente e praticante (aquele termo que tanta vez usamos no nosso catolicismo), sem véu e sem a seriedade que tanta vez se retrata no jornalismo actual, que sou incapaz de não querer aprender e conhecer mais da sua fé. Desta vez, falamos das burcas, da mulher, do casamento, da fidelidade, do sexo. E, no fim de contas, as opiniões convergem e confundem-se, a moral é semelhante e não existem conflitos.
Há algo lá fora que não compreendo. Não sei de que diálogo falam se este, para mim, funciona tão bem.
terça-feira, agosto 18, 2009
SEM #19
Não é tudo tão linear assim. O tempo amadurece, os Homens e as Relações, mas fermenta a diferentes velocidades. As palavras constroem e ligam e nem sempre a linguagem é comum. A distância ameaça, mas não vence quando a alma nos dirige.
Porque confio, apesar do tempo relativo a que nos conhecemos. Porque me pesa o peito e sufoca na boca. Porque me dá espaço e conforto para o aliviar. Porque sorri, sempre. Porque aqui o tempo escasseia e não nos perdemos em enredos, falsidades e hesitações. Porque tudo tem de ser agora pois não há mais oportunidades.
Porque o quero.
E, apesar de tudo, permanece o espanto. O sorriso mantém-se e a cumplicidade aumenta. Atrasa o jantar para ouvir tudo o que tenho a dizer. Escuta. Apreende e compreende, devolve-me as palavras que preciso. E surpreendo-me, sim, pela simplicidade com que se forma uma amizade séria, completa, cúmplice, honesta, num lugar tão distante, numa língua que não é a minha e num tempo que não controlo.
Fascino-me com as possibilidades. Aproveito-as.
Não é tudo tão linear assim. O tempo amadurece, os Homens e as Relações, mas fermenta a diferentes velocidades. As palavras constroem e ligam e nem sempre a linguagem é comum. A distância ameaça, mas não vence quando a alma nos dirige.
Porque confio, apesar do tempo relativo a que nos conhecemos. Porque me pesa o peito e sufoca na boca. Porque me dá espaço e conforto para o aliviar. Porque sorri, sempre. Porque aqui o tempo escasseia e não nos perdemos em enredos, falsidades e hesitações. Porque tudo tem de ser agora pois não há mais oportunidades.
Porque o quero.
E, apesar de tudo, permanece o espanto. O sorriso mantém-se e a cumplicidade aumenta. Atrasa o jantar para ouvir tudo o que tenho a dizer. Escuta. Apreende e compreende, devolve-me as palavras que preciso. E surpreendo-me, sim, pela simplicidade com que se forma uma amizade séria, completa, cúmplice, honesta, num lugar tão distante, numa língua que não é a minha e num tempo que não controlo.
Fascino-me com as possibilidades. Aproveito-as.
segunda-feira, agosto 17, 2009
SEM #18
Para prosseguir a animação da festa surpresa, aviva-se a guitarra e aclara-se a voz. Visto que a guitarra estava presa ao pouco que aprendera de cor, foi então sugerida pela voz um dueto novo. A guitarra, atlântica, tenta compreender então a música árabe que a voz de Constantinopla lhe apresenta. Os acordes são internacionais, mas a musicalidade e melodia exigem mais cuidado e atenção. Após uns pequenos ensaios, até ao encaixe da ideia base, a guitarra e a voz lá tentam juntar as peças e compor o dueto. A mão asiático-europeia dá algumas dicas aos olhos lusos para a guitarra não se desencontrar da voz e seguem. Juntas. Forma-se a canção e aos poucos a atenção dos instrumentos desprende-se, sem nunca se perder da melodia, e apreciam, por fim, o resultado final. A guitarra questiona o quanto da sua cultura se diluiu na acústica do sonoro árabe. Soube bem intrometer-se assim.
Para prosseguir a animação da festa surpresa, aviva-se a guitarra e aclara-se a voz. Visto que a guitarra estava presa ao pouco que aprendera de cor, foi então sugerida pela voz um dueto novo. A guitarra, atlântica, tenta compreender então a música árabe que a voz de Constantinopla lhe apresenta. Os acordes são internacionais, mas a musicalidade e melodia exigem mais cuidado e atenção. Após uns pequenos ensaios, até ao encaixe da ideia base, a guitarra e a voz lá tentam juntar as peças e compor o dueto. A mão asiático-europeia dá algumas dicas aos olhos lusos para a guitarra não se desencontrar da voz e seguem. Juntas. Forma-se a canção e aos poucos a atenção dos instrumentos desprende-se, sem nunca se perder da melodia, e apreciam, por fim, o resultado final. A guitarra questiona o quanto da sua cultura se diluiu na acústica do sonoro árabe. Soube bem intrometer-se assim.
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