domingo, agosto 16, 2009

SEM #17
É expectável que se esqueça de algo assim. Afinal de contas, faz este passeio dentro da terra várias vezes por dia, já conhece cada linha da rocha, cada pedregulho que surge do tecto, cada tonalidade das paredes húmidas e cada gotícula que pinga sobre outras já pingadas. É, portanto, compreensível as acelerações do passo, as explicações monotónicas e a inexistência de pausas entre ambas.
Mas antes de um recomeço de nova caminhada nestes corredores improvisados, alguém (quem mais?) sugeriu um momento para escutar. Só isso. Foi prometido, então, para a paragem seguinte. Parámos, a senhora explicou, deu permissão para uns momentos de escuta e o grupo anuiu.
E assim se fez o silêncio. Tão pesado e denso, detal forma profundo que o corpo implodiu para a sua verdadeira pequenez dentro deste monstro, sólido e poderoso, que nos engole pacificamente. Ouvimos as gotículas cair à nossa volta, em tempos caóticos, indiferentes à prepotência humana que as tenta admirar. Alguém ri, outro tosse, o silêncio, de apenas dois segundos, é rapidamente quebrado pelo incomodo geral e pela pressa da senhora. Foi o bastante, julga. Mas alguém (quem mais?) confessa que soube a pouco.

sábado, agosto 15, 2009

SEM #16
Com Portugal dentro de mim e o mar a faltar na minha pele, acordei ansiosa. Apesar da praia não ser o meu destino favorito, a ideia de provar algo esloveno com algum sabor luso, quando as saudades já reclamam atenção, alegrou-me e deu-me a vontade que geralmente me falta nestas idas à costa. De vestido, algo raro e reservado para momentos especiais como este prometia ser, com o protector que nunca esqueço, o chapéu, a toalha e o demais indispensável, lá partimos na caminhada em direcção ao Adriático. Relembrávamos o facto de estarmos de férias, termo geralmente sinónimo de praia, e a vontade de lá chegar crescia. Já me deliciava com a ideia da areia nos pés, o corpo deitado, o sol na pele amedrontada, as ondas lentas nos pés e o peso liberto na água, quando chegamos.
"É isto a praia." Onde? De queixos caídos, todos, portugueses e não só, procuram compreender aquela relva coberta de toalhas e gentes despidas, aquela pequena entrada de pedras pontiagudas para a água, aquelas bóias tão perto a delimitar o espaço para nadar, aquelas grades que separam a relva da rua atrás de nós e aquele porto de gruas gigantes poucos metros à direita a seguir à praia. Mas que praia?
Não há nada como o Atlântico. Saudades da areia.

sexta-feira, agosto 14, 2009

SEM #15
Chegámos, por fim, à costa. Aos hilariantes quarenta e sete quilómetros de costa, que impressionam pela sua pequenez uma portuguesa como eu. Porém, apesar de bem longe das costas algarvias, o ambiente da beira-mar adriática leva-me de volta às docas rodeadas de bares e sotaques diferentes que tão bem conheço do meu país.
Entre a restauração, o jazz toma lugar num anfiteatro aberto para a rua. Alguns de nós (algumas) atrevemo-nos a sentar para ouvir um pouco da música. O pé bate e o queixo descai ao impressionar-se com o virtuosismo dos guitarristas. A alegria propaga-se e a banda, aparentemente vizinha bem próxima deste país, fala-lhe como a um irmão, a um primo.
Chamam-me a atenção ao grupo que ouve a música de fora do anfiteatro. Meio grupo dança em pé de mãos dadas ao restante grupo, sentado em cadeiras um pouco diferentes das nossas, das que se movem por eles, das que se tornam parte de alguém quando assim é obrigada. E dançam também, dançam de volta ao entusiasmo e liberdade que as mãos amigas lhes indicam. O bailarico prende-nos a atenção e os sorrisos, sente-se o peso dos dias a aliviar.

quinta-feira, agosto 13, 2009

SEM #14
Aparentemente, rio-me sozinha. É certo que a diminuta expressividade da guia impede o reconhecimento inequívoco do humor de alguns comentários, mas pergunto-me se serei a única a compreendê-lo ou se será apenas distracção do resto do grupo. Prosseguimos a visita ao castelo de Ptuj.
A guia pergunta-se pelo dragão macho que parelha com o fêmea que lá existe. Os malteses arregalam a vista às suas cruzes, presentes nas vestes de antigos senhorios. Espantamo-nos com o único exemplar daquela flauta milenar, tão bem preservada. Pesam-se os fatos ruidosos de Carnaval e termina-se junto às armas que combateram por aqui.
Mas o que me fica está também nas palavras dela. Procurou mostrar-nos o erotismo escondido num quadro de viagens asiáticas ou de uma donzela que foi apanhada pelo seu predador. Sorri em simpatia com a nossa surpresa pela malícia de imagens tão inócuas actualmente, mas lamenta-se, para quem a ouve, que assim o seja, que a imaginação tenha sido abandonada e substituída pelo óbvio, o explicito, o fácil. Perdeu-se o erotismo de uma luva, um objecto oferecido, um ombro ao frio. Lamenta-se e, em simpatia, acompanho-a.

quarta-feira, agosto 12, 2009

SEM #13
Não preciso de tradução. Não percebo uma palavra do que se diz, mas sei exactamente o que se passa, o que se sente. As crianças são iguais em todo o lado.
Abraçada pela mãe, a menina, cinco anos talvez, observa o braço enquanto lhe tiram sangue. Não se queixa e brinca com o penso que lhe põem no braço, com bonequinhos. Chegou a vez do irmão, que esperava lá fora com a avó. Os gritos que há muito se ouviam entram pela porta e intensificam-se. O miúdo, dois anos mais velho, grita e implora à mãe que não o obrigue a tirar sangue. Chora o mais que pode. A mãe agarra-lhe o braço e aponta para a irmã, diz-lhe algumas palavras sérias e o rapaz, não deixando cair a sua máscara choradeira, olha com atenção para o penso da irmã e finge que isso não o acalmou. Continua a berrar. A avó olha para mim e, com um sorriso, encolhe discretamente os ombros, enquanto dá miminhos à neta no seu colo.
A mãe senta o filho no seu colo e abraça-o. Ele não deixou de berrar com toda a força que tem. A enfermeira pega-lhe no braço enquanto se encontra distraído, mas não demorou até ele o retirar com força das suas mãos. A mãe pega-lhe no braço e devolve-o à enfermeira. O miudo berra. A agulha prepara-se para entrar e, assim que entra, o miúdo tenta, em vão, gritar ainda mais, mas os seus pulmões já estavam a dar o seu melhor.
A mãe pede-lhe então para cantar consigo. E ele canta. Baixinho, sem tirar os olhos molhados do seu braço, canta numa voz de criança doce, sozinho, a canção que a mãe lhe pediu. O ambiente acalma e já conseguimos ouvir os nossos pensamentos. Torna-se, finalmente, agradável aquele lugar, em paz, a ouvir uma criança cantar alguma música tradicional, quem sabe, do seu país. Não era uma canção pequenina e ele não esqueceu a letra. Mereceu palmas quando terminou. A mãe pede-lhe mais uma, para que não se distraia e volte atrás. Ele canta. E não se ouvem mais gritos por perto. A infância faz-nos sorrir.

terça-feira, agosto 11, 2009

SEM #12
Os cuidados intensivos pediátricos surpreendem. Temos os milagres dos prematuros que insistem em viver, apesar de não terem entrado com o pé direito neste mundo. Impressionam-nos com a sua força e coragem. E depois há os outros casos, os que não deviam acontecer.
O menino nasceu bem. Criança de termo, saudável, o brilho orgulhoso nos olhos dos pais. Correra tudo bem. Ao terceiro dia, enquanto bebia o seu leite, enganou-se no caminho e aspirou o liquido para os pulmões. Enquanto o tratamento tardava em chegar, o oxigénio custava a entrar e o sangue não o conseguia transportar em quantidade suficiente até ao cerebro, orgão tão frágil às diferenças de concentrações dos seus combustíveis. A recuperação demorou tempo demais. A escassez em oxigénio sacrificou demasiadas funções cerebrais.
O bebé tem três meses. Entubado, não se mexe, ao contrário dos pequenos prematuros que exigem a sua vida. Está paralisado. Respira, abre os olhos, vive, mas não se mexe. Não há muito mais a fazer, o cérebro não se recupera assim, é demasiado frágil. A enfermeira cuida dele, veste-o, um braço morto de cada vez, e arruma-o no meio dos lençois. Por fim, coloca um peluche por baixo do braço do menino. Como se ele o tivesse ido buscar e lhe desse alento. O braço pende sobre o boneco e a imagem é natural.
O peito pesa. Não é suposto isto acontecer. O bebé tem de abraçar o peluche.

segunda-feira, agosto 10, 2009

SEM #11
Miúdos mimados há em todo o lado. Há mães mais doentes que os filhos. Há muita criança apaparicada que berra demais. E há os que surpreendem.
Uma otite doi. Duas otites doem a dobrar. A observação do ouvido é insuportável para qualquer pessoa. Fogem e gritam, contorcem os músculos faciais e desejam que termine. Adultos fraquinhos...
Apareceu-nos um miúdo de dois anos no consultório. De olhos azuis ternos, observava em silêncio a conversa da mãe com o médico. Duas otites. Seria necessário observar. A mãe sentou-o ao seu colo, segurou-lhe a cabeça inclinada sobre o seu peito e iniciou-se o procedimento. Esperava uma grande gritaria, espernear e tentativas de fugas, choro e desespero. Nada. Sereno, o menino dos olhos azuis apenas nos olhava, expectante, curioso. Um ouvido, outro ouvido. Silêncio na sala. Vai brincar despreocupado logo que terminam e a sua ternura mantém-se até à despedida.
Olha-se em volta e os médicos, enternecidos, não escondem o seu carinho pela criança. Uma paz.

domingo, agosto 09, 2009

SEM #10
Somos jovens e este é o nosso tempo para ser radical. Envelheço depressa, com queixas, dores e muita preguiça, mas, por vezes, acordo.
O rio não pára para nos ver passar. A água limpida contorna as rochas no seu caminho, as pequenas que formam o seu leito e as enormes que se impõem à sua frente. Há harmonia.
Já de equipamento vestido, aventuramo-nos nas suas águas. Frias. Muito frias. O equipamento disfarça mas os ossos das mãos destapadas não evitam uma pequena interjeição de dor. Coragem ao peito e corpo no barco, iniciamos a viagem.
Seis senhoras são conduzidas pelo instrutor. Com calma e paciência, explica-nos o procedimento e aplaude-nos o espirito de equipa. Vamos à frente, salvamo-nos de situações complicadas e orgulhamo-nos do grupo.
Pára-se duas vezes para saltarmos dos pedragulhos. Apesar do estímulo, um mergulho nas águas geladas basta-nos. Há outros aventureiros que saltam a seis metros. volto a sentir-me velha, mas não me importa porque estimo a vida.
De volta à corrente, passamos por um percurso mais complicado, mas as mulheres controlam bem a situação. Após o perigo, o instrutor informa que a grande rocha atrás de nós já matou seis pessoas. Enfim, a ignorância salva.
Chegamos ao fim sem uma única queda ao rio. Vimos a água brilhante, os seixos no fundo, os aventureiros aquaticos, as pequenas praias pelo caminho, as árvores, o riacho de onde bebemos, e as montanhas, a monstruosidade alpina que nos abraça e esconde dentro de si. No fim de contas, o que fica não é o radical.

sábado, agosto 08, 2009

SEM #9

Os olhos não chegam a compreender a grandiosidade. Vemos as linhas que definem os montes, mas não compreendemos a distância. As nuvens por vezes esbatem esses limites e a imaginação aproveita-se desta falha. Estamos rodeados de montanhas.

Cá em baixo temos o lago. Nele, cruzam-se os barcos turísticos, que roubam descaradamente os viajantes com dinheiro leve, com os patos e as cabeças de quem nada com eles na água azul, límpida. Há nenufares junto às bordas do lago. A única ilha do país espera pelos barcos no meio deste vale. Temos apenas meia hora para a visitar, que o barqueiro ladrão não espera mais. Pedem-nos mais umas moedas para subirmos à igreja (a religião paga-se?) e pedir um desejo ao sino. Talvez numa outra altura... Tiram-se as fotografias, foge-se das abelhas e voltamos.

Após alguns minutos de viagem, descobrimo-nos num lugar secreto (gratuito!), onde acompanhamos um rio a seu lado. Impressiona o verde denso, a transparência da água e o branco da sua turbulência. Fotografias. Respirações profundas. Crianças nas pedras junto ao rio e um cão que busca o pau por entre as rochas. Repetem-se fotografias. Tudo para podermos levar um pouco deste mundo que tanto nos escapa para casa. Temos saudades de ser parte disto. A cidade satura, Vintgar rejuvenesce.

sexta-feira, agosto 07, 2009

SEM #8
Mãe e filha vêm ao hospital por indicação médica devido a convulsões bizarras. Com ano e meio de vida, aqueles olhos azuis brincam pela sala, abrindo portas, puxando saias, provocando a médica estudante, enquanto a mãe mostra o vídeo com as ditas convulsões. A preocupação é notória na sua expressão, que dá colo e biberão assim que lhe pedem. Ao tentar examinar a criança, o pânico e a gritaria que inicia impedem grandes abordagens. São enviadas para o neurologista enquanto nos questionamos relativamente à verdadeira natureza dos ataques, a manutenção da consciência põe em causa o termo convulsão, mas somos incapazes de interpretar. A ignorância assusta e tememos o diagnóstico final.

O neurologista vem ter connosco e pergunta, em jeito de desafio, a nossa opinião. Se de facto se tratassem de convulsões, a epilepsia seria uma resposta fácil. Não sei, sr. Doutor. Pois bem. O que viste foi masturbação infantil, a menina obviamente não precisa de ficar internada.

Pois é. Quem é que esperaria uma justificação destas?