quinta-feira, agosto 06, 2009
Perguntam-nos pelo nosso país e, com um grande sorriso, apresentamo-lo. Começa-se sempre pelas praias, pelo bom tempo, salienta-se a capital e os arredores, recomenda-se o norte com as suas paisagens e tradições. Tornamo-nos mais caseiros e relembramos a nossa cidade, revelamos os seus segredos e fortunas, as festas e costumes e debatem-se as particularidades da língua. Temos orgulho.
E eles ouvem com atenção. Inclinados sobre a mesa e de sorriso sonhador, imaginam todas as cores e movimentos, os gestos, as roupas, os monumentos e o desejo cresce. O destino da próxima viagem converge para este canto místico que conseguimos criar com palavras. E, até nós, com o entusiasmo da descrição, apaixonamo-nos de novo pelo país que nos alimenta. Perdoamos este nosso amor. Esquecemos as lamúrias.
Temos orgulho.
quarta-feira, agosto 05, 2009
Pequenos milagres. Minúsculos. Têm pressa de nascer e cabem na mão. Alguns aguentaram-se no ventre da mãe 25, 26 semanas. Ainda não têm alvéolos, não conseguem respirar sozinhos e estão em risco de numerosas complicações. Mas são milagrosos.
Primeira radiografia: Pneumotórax direito. Segunda radiografia: Dreno do pneumotórax direito, novo pneumotórax esquerdo. Terceira radiografia: dois drenos. O menino já respira sozinho.
Há gémeos egoístas. Não se contentam com o que têm e roubam o alimento da mana. Sugam o sangue que não lhes pertence e nascem fortes e saudáveis e a pequena irmã vem passar uma temporada aos cuidados intensivos. A mãe espera por ela no edificio oposto, angústiada, sozinha após o abandono matrimonial. A menina cresce e luta com muita garra, contorce-se no seu sono e a sua pequena cara é já tão expressiva. Não gostou que lhe levantasse o pequeno cobertor, estava a dormir tão bem e não queria ser perturbada. Observo-a. É difícil entender a força de algo tão frágil. Vais ser tão grande e não te lembrarás destes tubos.
Somos um milagre.
terça-feira, agosto 04, 2009
Os olhos correm a mesa e as unhas brincam nas irregularidades da mesma. Apesar da fuga, fala comigo com gosto. Lembra-lhe, possivelmente, as traduções que gosta de fazer. Quando não está a calcular calorias.
Tem os olhos castanhos e o cabelo preto, com duas tranças e algum cabelo solto. As unhas vermelho sangue dão mais cor à mão fina que tem. É magra. Demasiado. Tem 15 anos e diz-se feia. Estranho pois é a mais bonita de toda a sala. Não gosta de aqui estar porque tem de se sentar para ver televisão, por isso prefere fazer puzzles, assim sempre se move e perde calorias. Fala-me de fotografia e do coro, do sonho de viver no Japão e ser designer gráfica. Adora o irmão mais velho e chorou quando, no último telefonema, lhe disse "I love you". Não quer beber água, deve ter calorias. Treme quando o faz, a perna não pára quieta e as sobracelhas caem. Tem de ser.
À despedida confesso-lhe que foi um prazer conhecê-la. Estende-me a mão com um sorriso e agradece. Tens de sair daqui, tens de te por boa, M.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Estou longe do meu país e não dá para o esquecer. O objectivo é igual, tratar. A língua é um enigma. Os turistas diferem.
Uma família israelita com ralações. Os casacos negros compridos, barbas por fazer e um avô de patilhas longas descrevem os homens da família. Com um inglês perfeito (sotaque britânico?), as mulheres, de roupas sóbrias e defensivas, exigem dedicação e profissionalismo. O choro do bebé é internacional e a acalmia no ombro da mãe enternecedor. A cultura é dispar, o amor é humano.
domingo, agosto 02, 2009
Não precisamos de maquilhagem, disse-nos. Aparentemente, a nossa pele bronzeada é bonita e não precisa de retoques. Sinto-me vaidosa e esqueço por instantes que o meu bronze é escasso.
A senhora senta-se imediatamente junto à janela e desabafa connosco, turistas, sobre o comboio. Queria um lugar privado e calhou um couper, queria janela e o seu lugar era junto ao corredor. Há dezenas de anos que faz esta viagem e nunca lhe tinha acontecido. Mete conversa.
Pergunta-nos o país de origem. Com a resposta, exclama "Barcelona!" e a revolta interior controla-se para explicar melhor a diferença. Exclama "Lisboa!" e o nosso coração sossega. A senhora de olhos azuis transparentes e cabelo branco cuidadosamente armado é de Viena. Era a peça que nos faltava, a piece de resistance na exploração de uma cidade: o indivíduo que lhe dá vida.
sábado, agosto 01, 2009
Não nos prendemos, exploramos. Os braços ezpandem e enrolam-se com outros curiosos.
Não vamos a Viena sozinhos. Cruzamo-nos com outros como nós, tropeçamos no seu destino e sorrimo-nos. A senhora termina a fotografia e diz-nos "Boa Tarde" e o mundo encolhe um pouco mais. O jovem pede-nos uma fotografia e logo se dirige em brasileiro, agradecendo a qualidade do desempenho comparativamente às más prestações de outros a quem pedira o mesmo. Para reservar alguns trocos para outras descobertas, depositam-nos num quarto intercontinental. O povo irmão das Américas saúda-nos e acompanha-nos nas ruas de Viena. A pianista, famosa nas suas terras nipónicas, esforça o inglês para nos falar de sushi. Estamos as quatro sentadas num banco do metro e três continentes diferentes esperam pelo mesmo comboio.
sexta-feira, julho 31, 2009
Viena é vigiada por corvos. Os pombos tornam-se anónimos quando surgem as aves negras. Passeiam-se em passos humanizados, nos jardins que dão cor à cidade. São solitários, alguns negros, outros com algumas penas castanhas brilhantes e uma imponencia respeitosa.
Um corvo poisa no topo de um muro de um monumento às vítimas de guerra. Olha a estátua simbólica e conversam. A fotografia tira-se e é compreensível a inevitabilidade daquele quadro.
Viena tem três cores. Viena é branca nos edifícios grandiosos que compõem a cidade. O parlamento é suportado por mulheres de braço sobre o ombro, irmãs ou cúmplices do poder da responsabilidade. No Rataus e em Hofburg surge igualmente o negro, a cor do tempo denso e do ar apertado, que marcarra o claro que antes surgia. Por fim, o verde confirma a cidade que percorremos, nos topos das catedrais e edifícios da História da arte e humanidade.
Viena é a anfitriã. Convida-nos a entrar, a conhecer, exibe a sua magnitude e agradece com um sorriso. Abraça e não se impõe. Encanta.
terça-feira, junho 16, 2009
Acabaram por se cruzar há poucas semanas, quando o almoço farto com os amigos da malha os apresentou. A dor viera rápida e intensa. Feito homem, quisera aguentar-se, mas a vida era-lhe cara e não recusou a visita ao grande edifício de bata branca.
Não demorou muito até poder exibir outra marca de guerra (desta vez, de um inimigo diferente) na sua larga barriga, das que crescem com o ócio dos dias livres. Sorri às enfermeiras, a quem insiste em impressionar com as vitórias das cartas, a esperteza saloia e algum humor brejeiro facilmente disfarçado com as brincadeiras familiares.
Tudo correra, obviamente, bem, ou não seria ele o valente do bairro. Sairia refeito daquele hospital, após os dias de recobro pós-cirúrgico e alguns exames de rotina para confirmar a sua saúde de ferro.
Voltou este mês, com os exames. Surpreendeu-se, afinal não passara com distinção na prova, mas sim com umas cábulas escondidas nas entranhas, que teriam de ser confiscadas pelo cirurgião. O joguinho na sombra da Alameda adiou-se mais uma vez.
Os olhos penosos dos amigos não facilitam o equilíbrio da postura e a conversa dos doutores é silenciosa. Tem que ser, é o que lhe dizem. De novo no consultório, no hospital de que não se orgulha de reconhecer, dois médicos, altos, jovens e invencíveis, discutem entre si a melhor abordagem para desbravar de novo as vísceras matreiras daquele doente, sentado, de dedos enleados e pernas tensas, de olhar inquisidor preso nos lábios sussurrantes dos grandes, que aguarda instruções e uma solução simples.
Custou-lhe a ausência e interrompe. Sabe, Senhor Doutor, é que não fui feito para isto. O senhor doutor reconhece o velho e pergunta porquê. Sabe, Senhor Doutor, é que eu fui feito para aproveitar a vida, para me divertir, sabe como é. Sempre tive muita saúde. Sem demora, o doutor abstrai-se de novo, desta vez no ecrã onde preenche espaços de burocracia branca para avançar com a cirurgia, talvez ainda este mês consiga arranjar vaga. Sabe, Senhor Doutor, é que eu sinto-me bem! Não me dói nada, não sinto nada! Como bem, Senhor Doutor, não tenho mesmo queixas nenhumas! E o doutor imprime a folha bem preenchida para trazer da próxima vez, não pode esquecer, onde tem as informações que necessita (não as que procura). Tem mesmo que ser? Pois tem, tem aí umas coisinhas que temos de tirar. Os olhos do velho decaem com ele. Interrompe-se a conversa para novos teclados acelerados. O velho recupera, sem pressas, os exames e prepara-se para sair.
Eu sinto-me bem… Não fui feito para isto, fui feito para aproveitar a vida. A voz arrefece e confessa-se, sou fraco. Sozinho no seu diálogo, apercebe-se por fim da veracidade do que diz. Ao levantar-se vagarosamente, de olhos cheios e voz enfraquecida, não entusiasma o grande cirurgião, alto, jovem e invencível, para um sorriso honesto. Não encontrará ali mais ninguém. Terá de procurar a coragem noutros companheiros. Sou fraco. Sente os dedos apressados do senhor doutor e afasta-se.
A voz não poderá tremer de novo ao chegar à Alameda.
quinta-feira, maio 07, 2009
Perdi-o. Não o sei achar. Fico magoada e não acredito mais em solidez.