Desta vez o cigarro era diferente. Não lhe senti o cheiro, começo a duvidar até que estivesse aceso. Talvez nem fosse cigarro, talvez fosse uma extensão da sua imponência. Imponência. Era ela, sem dúvida.
O fascínio da sala invadia assim que se sentia a sua vida. Apesar das janelas largas, o ambiente rubro pesava aos olhos dos que lá permaneciam. Curvados sobre os teclados já pouco esbranquiçados, comprometiam-se a funcionar satisfatoriamente para aquela Mulher do fundo. Não era preciso olhá-la de frente. Sentia-se. O peito cheio e frondoso, o queixo elevado e o olhar semi-cerrado, o sorriso trocista, mas maternal e a postura. A postura fazia adivinhar toda a admiração que cada um guardava, cada pequena pessoa que se encondia atrás das secretárias apertadas, cada um apertava esse fascínio no seu intimo dorido por ser necessária a precisão das suas acções. Porque era tudo para Ela, a Mulher da pose imponente, e ela precisava dessa eficácia. E eram felizes por cumprirem e satisfazerem as suas necessidades.
E o cigarro nos dedos elegantes. E os dedos na mão firme. E a mão do braço seguro no ar, quieto, observando cada respiração lenta da sala das janelas largas. E o braço do corpo aberto e seguro de si. E o corpo de postura confiante. Protectora. A imponência protegia. A imponência mima. O cigarro não se sente. E tudo bate certo enquanto a presença daquela Mulher se mantiver assim, a fumar.
- possívelmente, a ser melhorado -
segunda-feira, maio 04, 2009
terça-feira, abril 28, 2009
quarta-feira, abril 22, 2009
Há dias assim, em que um acto de coragem e vontade altera a história natural da vivência.
Conheci-vos com aqueles sorrisos brilhantes e enormes e mostraram-me a cor dos passos que dava a medo. Deram-me a mão, acarinharam-na, ofereceram-me os braços à volta do corpo e os lábios doces na bochecha envergonhada. Foram a força que me ensinou a dar, a receber e a partilhar a alegria imensa dos dias comuns, dos gestos puros, do riso e do amor livre. Aprendi tanto só por vos ver, por admirar a áurea que vos preenchia o olhar. Quiseram-me convosco e eu corri. Corri como havia muito tempo que não fazia, como não sobrasse alternativa para o meu corpo doente. Quis-vos tão perto e tive-vos aqui. Recostei-me, cobri-me com o vosso conforto, suguei todas as palavras e gestos.
Nasceu o peso nos ombros e o aperto das mãos atadas. Restou esperar.
E hoje é um dia novo. Hoje vi-vos de volta, com o brilho reluzente, os mimos de sempre, a cumplicidade invejável. Oiço-vos o riso e tremo. O peso do peito aquece e torna-se comoção. Continuo sem conseguir reagir. É bom, é muito bom. Voltaram. Não para mim, que não é o que importa, mas para o que tinham. Para o que eram. Para o que admirei com tanto fascínio, o que tanta força me dera antes.
Observo-vos de longe, uns passos mais atrás do que antigamente. Sorrio cada vez que descubro a áurea intacta à vossa volta. A emoção regressa. Há algo renovado e preparado para seguir em frente, confiante. Desta vez não correrá por caminhos erróneos. Desta vez, deixo-vos assim, entregues ao que sempre foi vosso.
Sorrio-vos daqui. Feliz.
[após 3ª edição]
Conheci-vos com aqueles sorrisos brilhantes e enormes e mostraram-me a cor dos passos que dava a medo. Deram-me a mão, acarinharam-na, ofereceram-me os braços à volta do corpo e os lábios doces na bochecha envergonhada. Foram a força que me ensinou a dar, a receber e a partilhar a alegria imensa dos dias comuns, dos gestos puros, do riso e do amor livre. Aprendi tanto só por vos ver, por admirar a áurea que vos preenchia o olhar. Quiseram-me convosco e eu corri. Corri como havia muito tempo que não fazia, como não sobrasse alternativa para o meu corpo doente. Quis-vos tão perto e tive-vos aqui. Recostei-me, cobri-me com o vosso conforto, suguei todas as palavras e gestos.
Nasceu o peso nos ombros e o aperto das mãos atadas. Restou esperar.
E hoje é um dia novo. Hoje vi-vos de volta, com o brilho reluzente, os mimos de sempre, a cumplicidade invejável. Oiço-vos o riso e tremo. O peso do peito aquece e torna-se comoção. Continuo sem conseguir reagir. É bom, é muito bom. Voltaram. Não para mim, que não é o que importa, mas para o que tinham. Para o que eram. Para o que admirei com tanto fascínio, o que tanta força me dera antes.
Observo-vos de longe, uns passos mais atrás do que antigamente. Sorrio cada vez que descubro a áurea intacta à vossa volta. A emoção regressa. Há algo renovado e preparado para seguir em frente, confiante. Desta vez não correrá por caminhos erróneos. Desta vez, deixo-vos assim, entregues ao que sempre foi vosso.
Sorrio-vos daqui. Feliz.
[após 3ª edição]
segunda-feira, abril 06, 2009
Carpe Diem. As palavras não foram logo estas, mas os gestos partiram sempre delas. Tudo o que se construiu, de uma forma tão sólida, tão segura e determinada, tão indiscutível e imparável, formou-se através do que escondíamos em nós durante tantos anos. Éramos maiores. Rebentavam os corpos em nós, o ardor dos dias rugia no silêncio do quarto e ligavamo-nos na escuridão. A luz era vaga, mas sabiamo-nos lá. Por algo místico, sabíamos quem éramos. Sabia que me sugarias tudo o que tinha para dar, que não resistiria por seres o que mais procurava. Fui para ti tudo o que consegui ser. Dei-me. E tive tudo de volta.
Não tirei o vestido branco nem compus os pés descalços. O cheiro da terra molhada e a árvore para onde subimos continuam presentes. As crianças ainda são pequenas. Estamos aqui, na mesma. As mãos juntas, a alma no olhar, a força no peito. O amor pelas coisas pequenas e doces, o incómodo pelo regular e sintético, a paixão pela arte e poesia, a dor pelo que corrompe e amordaça. E a luta. Por nós. Mesmo que sejamos outros nomes que não o que nos deram. Encontrámos os nossos algures nas margens das nossas palavras.
Encontrámo-nos, minha Irmã. Encontrámo-nos uma na outra. E assim seremos daqui para sempre. Que venham as Horas, estamos prontas há muito tempo.
Não tirei o vestido branco nem compus os pés descalços. O cheiro da terra molhada e a árvore para onde subimos continuam presentes. As crianças ainda são pequenas. Estamos aqui, na mesma. As mãos juntas, a alma no olhar, a força no peito. O amor pelas coisas pequenas e doces, o incómodo pelo regular e sintético, a paixão pela arte e poesia, a dor pelo que corrompe e amordaça. E a luta. Por nós. Mesmo que sejamos outros nomes que não o que nos deram. Encontrámos os nossos algures nas margens das nossas palavras.
Encontrámo-nos, minha Irmã. Encontrámo-nos uma na outra. E assim seremos daqui para sempre. Que venham as Horas, estamos prontas há muito tempo.
[post número duzentos parabéns à minha Irmã]
segunda-feira, março 23, 2009
Vais ler. Um dia ou dois depois de o escrever vais ler. E, um minuto ou dois depois vais dizer-me "és capaz de melhor". E, um instante ou dois depois, vou baixar o queixo, confirmar o que me disseste e envergonhar-me por já não ser capaz de melhor.
Disse hoje ao J. que parecia que já não era a mesma pessoa que aqui escrevia. Não sou. Perdi-me no meio das escolhas múltiplas, das paredes pesadas e da ignorância gratuita. Não me encontro lá. Não tenho casa aqui. Olho este meu filho e peço-lhe perdão. Ele é pequeno, também não será capaz de me puxar.
Há que vencer a passividade. Há que levantar cedo e tomar o banho que se impõe apesar da preguiça. Há que escrever a Hx mesmo quando a vontade é nula, quando o interesse já morreu. Há que ler. Ler muito. Lembrar as palavras, os autores, o sublime, a arte e o sonho. Há que voltar a emocionar o peito. Há que doer ouvir a Hyper Chondriac Music, há que ficar até às 2h a escrever o que os dedos quiserem jorrar. Quando chegar o seu tempo. Há que viver. Há que acreditar.
Ando há quase dois anos nisto. A desculpar-me aqui pela minha fraqueza de espírito. Preciso de voltar a mim. De me admirar. Sinto que é isso que mais falta me faz, sentir que tenho valor, que não sou vulgar. Parece que, afinal, a estima própria não era assim tão pouca...
Disse hoje ao J. que parecia que já não era a mesma pessoa que aqui escrevia. Não sou. Perdi-me no meio das escolhas múltiplas, das paredes pesadas e da ignorância gratuita. Não me encontro lá. Não tenho casa aqui. Olho este meu filho e peço-lhe perdão. Ele é pequeno, também não será capaz de me puxar.
Há que vencer a passividade. Há que levantar cedo e tomar o banho que se impõe apesar da preguiça. Há que escrever a Hx mesmo quando a vontade é nula, quando o interesse já morreu. Há que ler. Ler muito. Lembrar as palavras, os autores, o sublime, a arte e o sonho. Há que voltar a emocionar o peito. Há que doer ouvir a Hyper Chondriac Music, há que ficar até às 2h a escrever o que os dedos quiserem jorrar. Quando chegar o seu tempo. Há que viver. Há que acreditar.
Ando há quase dois anos nisto. A desculpar-me aqui pela minha fraqueza de espírito. Preciso de voltar a mim. De me admirar. Sinto que é isso que mais falta me faz, sentir que tenho valor, que não sou vulgar. Parece que, afinal, a estima própria não era assim tão pouca...
sábado, março 21, 2009
sábado, janeiro 17, 2009
O. - T. F. P.
Diz que no passado a palavra o prejudicou. Não a soube usar, não se soube fazer ouvir. Olha o chão, mas mantém a determinação da voz, já não é o menino tímido que o sobrolho carregado induz. É competente e queria ser maior. Porque agora, só agora, sabe que o merece. É especial e não o partilha. Sugere, a quem sabe ver, mas não o demonstra.
O menino alto, de anos maduros na pele e juventude na voz, entrega-se ao projecto novo. Olha em frente e, agora sim, fala-nos numa voz assertiva, respeitosa. Sorri, esconde os olhos pequenos no riso honesto, revela a beleza do humor simples e caseiro. Faz festas na mão da colega do lado, ri-se. Torna-se o exemplo para o resto do grupo. E a voz, vinte anos depois, revela-se.
E pinta, o alto. Mal, diz, mas pinta e não desiste. Distingue o bom do comestível e não lhe dá importância. É alguém, não é apenas o competente. Ele pinta, colegas, eles é mais que tudo isto. E está cá para ser ainda maior.
É aquele, sim, o que passa agora por nós. É ele. Não apontes que é feio.
[Hei-de melhorar o texto. Assim ninguém se entende. Mas são ideias, deixem-nas vir.]
Diz que no passado a palavra o prejudicou. Não a soube usar, não se soube fazer ouvir. Olha o chão, mas mantém a determinação da voz, já não é o menino tímido que o sobrolho carregado induz. É competente e queria ser maior. Porque agora, só agora, sabe que o merece. É especial e não o partilha. Sugere, a quem sabe ver, mas não o demonstra.
O menino alto, de anos maduros na pele e juventude na voz, entrega-se ao projecto novo. Olha em frente e, agora sim, fala-nos numa voz assertiva, respeitosa. Sorri, esconde os olhos pequenos no riso honesto, revela a beleza do humor simples e caseiro. Faz festas na mão da colega do lado, ri-se. Torna-se o exemplo para o resto do grupo. E a voz, vinte anos depois, revela-se.
E pinta, o alto. Mal, diz, mas pinta e não desiste. Distingue o bom do comestível e não lhe dá importância. É alguém, não é apenas o competente. Ele pinta, colegas, eles é mais que tudo isto. E está cá para ser ainda maior.
É aquele, sim, o que passa agora por nós. É ele. Não apontes que é feio.
[Hei-de melhorar o texto. Assim ninguém se entende. Mas são ideias, deixem-nas vir.]
Oiço o teu coração com o ouvido deitado no teu peito. "E o que diz?" perguntas. Diz que tem fome.
É como chegar a casa. Sorrio porque vos vejo, desse lado, um pouco inclinados para a frente (cuidado com as costas) a beber aos pequenos goles o que trouxe para vocês. Não é muito, não sei o que é ainda, mas trago porque gostam que vos traga surpresas. E, quando já não espero apreço, agradecem-me o facto de não ter deixado de as trazer, mesmo que mais enrugadas e murchas, mas trago. E relembro todas as outras e relanço as que hão-de vir. As boas. As arrebatadoras. As verdadeiramente arrebatadoras.
E sorrio porque me lembro de mim. Sou eu. Sou esse brilho nos vossos olhos cansados do monitor violento que vos aumenta a graduação. Sou esse sorriso quando me dizem "eu li". Sou esse comentário e essa crítica. E quero-nos de volta. Quero a partilha de volta.
E acabo sempre a escrever sobre a saudade deste blog.
É como chegar a casa. Sorrio porque vos vejo, desse lado, um pouco inclinados para a frente (cuidado com as costas) a beber aos pequenos goles o que trouxe para vocês. Não é muito, não sei o que é ainda, mas trago porque gostam que vos traga surpresas. E, quando já não espero apreço, agradecem-me o facto de não ter deixado de as trazer, mesmo que mais enrugadas e murchas, mas trago. E relembro todas as outras e relanço as que hão-de vir. As boas. As arrebatadoras. As verdadeiramente arrebatadoras.
E sorrio porque me lembro de mim. Sou eu. Sou esse brilho nos vossos olhos cansados do monitor violento que vos aumenta a graduação. Sou esse sorriso quando me dizem "eu li". Sou esse comentário e essa crítica. E quero-nos de volta. Quero a partilha de volta.
E acabo sempre a escrever sobre a saudade deste blog.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
quinta-feira, dezembro 25, 2008
Quero escrever-nos. Quero escrever os nossos pés enrolados nas meias quentes, o teu sorriso a nascer na minha pele, o teu brilho quando as persianas se espreguiçam. Não me esqueço do teu braço tão bem encaminhado para o meu pescoço quando o sono se surpreende com a minha presença. Agradeces-me, entre o sonho e novo velho dia, este começo de luz. Sorrio e sou feliz apenas porque ...
És feliz.
És feliz.
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