AM
Hoje assisti ao início da concretização de um sonho. Lá estava ela, à espera que finalmente acontecesse. Não que tenha esperado muito, sempre fora tão nítido aos meus olhos este momento que aqueles instantes que antecederam não significaram mais que uma espera pela hora do comboio, do teatro, da aula. E eu estive lá, fiz parte deste começo, deste voo inaugural que acredito que não terminará tão cedo. Ela voa, sem saber, sobre a cabeça de todos nós e cá estou eu, como sempre estive, a admirar a majestade do voo, a elegância dos movimentos, e sempre com um sorriso pronto para lhe oferecer caso um dia duvide do sonho em que agora vive.
quarta-feira, maio 02, 2007
terça-feira, maio 01, 2007
BM
Apanhei-te em brincadeiras infantis. Sozinha, como se ninguém te visse, caminhavas em desequilíbro na borda do passeio. Vi-te sorrir e por pouco perdi a lenga-lenga que se afinava em ti para sair radiosa. Não vais parar por te ter descoberto, sabes bem ser pequena e brincar com as coisas monótonas que nos dão. Sabes olhar bem para cima e apreciar uma grande nuvem que se impõe naquele azul e sabes como gritar bem alto aos nossos ouvidos que há cores e há vida para além do triste passeio. Vou seguir-te o exemplo e, enquanto não me vires, vou-me perder em brincadeiras infantis.
JM
Isto está bom é para ti. Tu que partes serena para o combate, tu que sugas os segundos que te prestam, tu que te dedicas a ti e a nós, tu que lutas por ti e por nós. Está optimo para quem construiu este momento com as pedras que possuia, que acreditou sempre e que foi capaz de nos provar que o sonho se torna certo quando tentamos acordar. Ficou perfeito para ti, que soubeste por onde seguir e não hesitaste em avançar. Chegaste bem, como terias de chegar. Nunca duvidaste que seria este o caminho, a calma moldou-te os passos, e já conhecias isto. E é isto. Tão bom para ti, que o mereces.
[WORK IN PROGRESS]
Apanhei-te em brincadeiras infantis. Sozinha, como se ninguém te visse, caminhavas em desequilíbro na borda do passeio. Vi-te sorrir e por pouco perdi a lenga-lenga que se afinava em ti para sair radiosa. Não vais parar por te ter descoberto, sabes bem ser pequena e brincar com as coisas monótonas que nos dão. Sabes olhar bem para cima e apreciar uma grande nuvem que se impõe naquele azul e sabes como gritar bem alto aos nossos ouvidos que há cores e há vida para além do triste passeio. Vou seguir-te o exemplo e, enquanto não me vires, vou-me perder em brincadeiras infantis.
JM
Isto está bom é para ti. Tu que partes serena para o combate, tu que sugas os segundos que te prestam, tu que te dedicas a ti e a nós, tu que lutas por ti e por nós. Está optimo para quem construiu este momento com as pedras que possuia, que acreditou sempre e que foi capaz de nos provar que o sonho se torna certo quando tentamos acordar. Ficou perfeito para ti, que soubeste por onde seguir e não hesitaste em avançar. Chegaste bem, como terias de chegar. Nunca duvidaste que seria este o caminho, a calma moldou-te os passos, e já conhecias isto. E é isto. Tão bom para ti, que o mereces.
[WORK IN PROGRESS]
sábado, abril 14, 2007
terça-feira, abril 10, 2007
sexta-feira, março 23, 2007
[ alguns dos escritos da Aula Aberta de Escrita Criativa da NextArt ]
Cheguei, amor. Vim buscar-te para uma viagem de volta à terra que nos pariu. Entro em casa para te encontrar adormecida com a lã ao teu colo, em silêncio. Em tempos o vento passou por aqui e levou-te. Fui-me também, à tua procura, amor, para renascer em nós, relembrar-nos e reviver-nos. Vamos brincar os dois aos bonecos felizes como quando eramos crianças antes de nos cegarmos um pelo outro. Ceguei por ti. Soube então que tinhas regressado à nossa casa. Velhos, agora, já não temos nada a perder. Vim buscar-te, amor, vamos de viagem. Mas tu dormes, sem saber que te observo, de lã no colo. Mas não vais acordar. Cheguei tarde. O nosso amor morreu.
Cinco pontas de uma estrela
Cinco homens a correr
Cinco vidas para viver
Cinco estações para passar
Cinco anos, cinco irmãos
Cinco, quatro, três e nenhum
Cinco mais uns quantos
Cinco horas e chá amargo
Cinco, como nós, a lutar
Cinco casas onde vivi
Cinco minutos para o toque
Cinco semanas para nascer
Cinco metro para descobrir
Cinco notas para tocar
Cinco músicas para embalar
Cinco palavras para calar
Cinco dedos onde me perder
Cinco folhas caídas no bando de jardim
Cinco viagens a Londres e
Cinco ingleses a sorrir à despedida
Cinco ladrões de corpos
Cinco cães denunciadores
Cinco passos em direcção ao mundo
Cinco países de lingua igual
Cinco línguas de rostos diferentes
[A Escrita Criativa não é para gente que sabe escrever e aspira a escrever sempre bem. É para quem se quer divertir um pouco com as palavras. A Escrita Criativa é para ser espontânea, livre e sem regras. É uma catarse e não literatura. Por isso acredito que todos devessemos experimentar, pelo menos uma vez. É divertido e faz bem. Voltei hoje à NextArt durante uma hora e foi muito agradável. Escrevi muito depressa e fiquei espantada com algumas coisas de que me lembrei. Fiquei muito satisfeita com o primeiro texto que aqui pus. Foi sorte. Eu até vos contava todos os exercícios que fizemos, mas depois perdia a graça quando lá fossem experimentar. Vão, sim! Nem que seja pela vista sobre Lisboa... ]
Cheguei, amor. Vim buscar-te para uma viagem de volta à terra que nos pariu. Entro em casa para te encontrar adormecida com a lã ao teu colo, em silêncio. Em tempos o vento passou por aqui e levou-te. Fui-me também, à tua procura, amor, para renascer em nós, relembrar-nos e reviver-nos. Vamos brincar os dois aos bonecos felizes como quando eramos crianças antes de nos cegarmos um pelo outro. Ceguei por ti. Soube então que tinhas regressado à nossa casa. Velhos, agora, já não temos nada a perder. Vim buscar-te, amor, vamos de viagem. Mas tu dormes, sem saber que te observo, de lã no colo. Mas não vais acordar. Cheguei tarde. O nosso amor morreu.
Cinco pontas de uma estrela
Cinco homens a correr
Cinco vidas para viver
Cinco estações para passar
Cinco anos, cinco irmãos
Cinco, quatro, três e nenhum
Cinco mais uns quantos
Cinco horas e chá amargo
Cinco, como nós, a lutar
Cinco casas onde vivi
Cinco minutos para o toque
Cinco semanas para nascer
Cinco metro para descobrir
Cinco notas para tocar
Cinco músicas para embalar
Cinco palavras para calar
Cinco dedos onde me perder
Cinco folhas caídas no bando de jardim
Cinco viagens a Londres e
Cinco ingleses a sorrir à despedida
Cinco ladrões de corpos
Cinco cães denunciadores
Cinco passos em direcção ao mundo
Cinco países de lingua igual
Cinco línguas de rostos diferentes
[A Escrita Criativa não é para gente que sabe escrever e aspira a escrever sempre bem. É para quem se quer divertir um pouco com as palavras. A Escrita Criativa é para ser espontânea, livre e sem regras. É uma catarse e não literatura. Por isso acredito que todos devessemos experimentar, pelo menos uma vez. É divertido e faz bem. Voltei hoje à NextArt durante uma hora e foi muito agradável. Escrevi muito depressa e fiquei espantada com algumas coisas de que me lembrei. Fiquei muito satisfeita com o primeiro texto que aqui pus. Foi sorte. Eu até vos contava todos os exercícios que fizemos, mas depois perdia a graça quando lá fossem experimentar. Vão, sim! Nem que seja pela vista sobre Lisboa... ]
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sexta-feira, março 16, 2007
domingo, fevereiro 25, 2007
Cara - ,
Estou só e cansada e preciso de falar. Já ninguém me ouve há algum tempo. Tenho estado calada, bem verdade. Mas não me vês agora ansiosa por uma conversa prolongada? Tu, que me vais ler quando tiveres tempo, não me vais interromper agora em que direi o que me lembrar.
É difícil estar só. É muito difícil querer ser alguém completamente diferente. E não falo de como todos somos diferentes e iguais, em que parece existir um pote de características comuns de onde retiramos as nossas e cuja combinação nunca será igual a de mais ninguém. Não. Peguei em algo original. E, condenada por isso, sinto-me só. Não escolhi nada, sou assim. Quis mudar, mas apenas o impulso basta para me enojar. Não há como fugir a mim. E não há como viver assim.
É tão frustrante para mim escrever sempre com as mesmas palavras. Li certo dia que usamos apenas cerca de 300 palavras no nosso vocabulário. Os meus textos não são mais que uma composição dada dessas mesmas 300 palavras, possivelmente ainda menos. É por isso que às vezes me sinto tão pobre. Qualquer um pega em palavras como "ti", "comigo", "pensar" ou "sentir" e escreve um bonito texto porque, ao ser o mais geral possível, maior é a possibilidade de quem ler interpretar de uma maneira agradável para si. Sou simples e sou oca, diz-me a palavra.
Lembro-me dos primeiros tempos da nossa amizade. O fascínio, a velocidade com que trocava de sentimentos por ti, o entusiasmo, a novidade, a surpresa. Queria poder contar-te tudo de novo, como te fiz ao princípio em que me despi depressa enquanto sorria, tão tola, por conseguir. Admirei-te por me teres feito amar-me. Mas passou. Sinto isso hoje. Já criei as minhas barreiras para ti, já me olhaste desconfiada e incompreensível. Já me embaraçaste. Já não me procuras. Já não precisas de mim. Já não sabes que este texto é para ti. Não te posso perder. Devolve-me os olhos fundos e o sorriso tentador. Preciso de me voltar a sentir fascinante.
Perdoa-me a falta de senso de todo este texto. É muito tarde para mim e vim de um sitio que não me pertence. Estava lá gente minha, mas o meio não me serve. Cheiro a esse lugar nas mãos e nos cabelos, espero que não me perturbe o sono que já pesa em mim. Até breve, espero, um grande abraço que nunca trocámos para ti,
Laura
(Repara na quantidade de vezes que usei as palavras "mim" e "ti" nesta carta. Mas descanso porque isto não é poesia nem prosa, são frases mal apagadas da cabeça estoirada. Não quero ser poeta aqui.)
Estou só e cansada e preciso de falar. Já ninguém me ouve há algum tempo. Tenho estado calada, bem verdade. Mas não me vês agora ansiosa por uma conversa prolongada? Tu, que me vais ler quando tiveres tempo, não me vais interromper agora em que direi o que me lembrar.
É difícil estar só. É muito difícil querer ser alguém completamente diferente. E não falo de como todos somos diferentes e iguais, em que parece existir um pote de características comuns de onde retiramos as nossas e cuja combinação nunca será igual a de mais ninguém. Não. Peguei em algo original. E, condenada por isso, sinto-me só. Não escolhi nada, sou assim. Quis mudar, mas apenas o impulso basta para me enojar. Não há como fugir a mim. E não há como viver assim.
É tão frustrante para mim escrever sempre com as mesmas palavras. Li certo dia que usamos apenas cerca de 300 palavras no nosso vocabulário. Os meus textos não são mais que uma composição dada dessas mesmas 300 palavras, possivelmente ainda menos. É por isso que às vezes me sinto tão pobre. Qualquer um pega em palavras como "ti", "comigo", "pensar" ou "sentir" e escreve um bonito texto porque, ao ser o mais geral possível, maior é a possibilidade de quem ler interpretar de uma maneira agradável para si. Sou simples e sou oca, diz-me a palavra.
Lembro-me dos primeiros tempos da nossa amizade. O fascínio, a velocidade com que trocava de sentimentos por ti, o entusiasmo, a novidade, a surpresa. Queria poder contar-te tudo de novo, como te fiz ao princípio em que me despi depressa enquanto sorria, tão tola, por conseguir. Admirei-te por me teres feito amar-me. Mas passou. Sinto isso hoje. Já criei as minhas barreiras para ti, já me olhaste desconfiada e incompreensível. Já me embaraçaste. Já não me procuras. Já não precisas de mim. Já não sabes que este texto é para ti. Não te posso perder. Devolve-me os olhos fundos e o sorriso tentador. Preciso de me voltar a sentir fascinante.
Perdoa-me a falta de senso de todo este texto. É muito tarde para mim e vim de um sitio que não me pertence. Estava lá gente minha, mas o meio não me serve. Cheiro a esse lugar nas mãos e nos cabelos, espero que não me perturbe o sono que já pesa em mim. Até breve, espero, um grande abraço que nunca trocámos para ti,
Laura
(Repara na quantidade de vezes que usei as palavras "mim" e "ti" nesta carta. Mas descanso porque isto não é poesia nem prosa, são frases mal apagadas da cabeça estoirada. Não quero ser poeta aqui.)
sábado, janeiro 13, 2007
A Condição Sobre-Humana
Pedro sofre de uma condição terrível. Não sabe viver de outra forma e é uma pessoa triste por não ser como nós. Pedro não sente abraços por causa da sua condição. Não beija, não sabe como, não arrisca toques discretos nem se descai em tiques nervosos. Não tem qualquer sinal de espontaneidade. Não se sabe perder numa música ou num poema, Pedro não compreende a arte, não lhe encontra utilidade. Não vê cores para além das reais, não descobre áureas sobre a cabeça de ninguém. Não acredita em superstições, não usa amuletos, nem reza. Não sabe andar nas nuvens, ir à lua ou perder a cabeça. Não compreende os termos nem quem se vence por eles. Pedro é incapaz de enlouquecer, apesar de todas as limitações angustiantes que o atormentam, porque a sua própria condição o impede. Não sabe dançar e não sabe fingir. Pedro não se ri histericamente nem é capaz de disparatar para divertir os amigos. Pedro não tem amigos. Não compreende quem se enamora. Pedro não se enamora, falta-lhe a loucura (porque Pedro não enlouquece) e o esquecimento. Ele não esquece, sabe de cor cada palavra que disse e o que lhe responderam, cada pequena traição, cada descuido, cada hálito perceptível. Não consegue abstrair-se dos pequenos detalhes errados, especialmente dos seus. Uma palavra embrulhada na língua, um desequilíbrio ridículo, uma cor desencontrada na roupa, um cabelo teimoso, um espirro sonoro, um esforço inútil e embaraçoso por não ser nada disto, uma tentativa facilmente desmascarada de ser tão livre como os outros. Pedro não é livre, é prisioneiro dos seus planos e horários, que cumpre escrupulosamente, porque tem de ser, e não tem a capacidade de improvisar. Não consegue perder tempo. Todos os gestos são estudados e elaboradamente descritos e previstos muito antes de os executar. Pedro perdeu o instinto. Tem protocolos determinados para vestir, despir, abrir a porta, cumprimentar o vizinho, dormir. Mas Pedro adormece de coração pesado, escondido da noite por baixo dos lençóis. Até o sono chegar, Pedro afoga-se em vergonha, por todos os pormenores que falhou durante o dia, mas que apenas ele recordará de novo, e culpa, por ter cedido à sua debilitação e impotência para mudar. Viverá para sempre nesse estado estático e constante. Pedro sabe exactamente tudo o que é afectado em si por esta monstruosa condição e, por isso mesmo, padece mais, por saber o quanto é poderosa e impossível de eliminar. Uma vez atingido na sua totalidade, um indivíduo jamais se poderá libertar dela. Faz parte do processo ter noção de tudo isto, faz parte o martírio constante durante os momentos de solidão, que, aliás, se tornam mais comuns. Ninguém aceita gente como o Pedro, mudas porque não há nada para dizer, buracos bem fundos que recolhem tudo o que os rodeia mas jamais dão algo de volta. Não são iguais. Pedro está só e cada vez se isolará mais. Pedro possui uma terrível condição que o impede de viver entre nós, de viver como um de nós. Pedro está desesperado por ser quem é. Pedro não pode mudar. Pedro sofre de Consciência.
Pedro sofre de uma condição terrível. Não sabe viver de outra forma e é uma pessoa triste por não ser como nós. Pedro não sente abraços por causa da sua condição. Não beija, não sabe como, não arrisca toques discretos nem se descai em tiques nervosos. Não tem qualquer sinal de espontaneidade. Não se sabe perder numa música ou num poema, Pedro não compreende a arte, não lhe encontra utilidade. Não vê cores para além das reais, não descobre áureas sobre a cabeça de ninguém. Não acredita em superstições, não usa amuletos, nem reza. Não sabe andar nas nuvens, ir à lua ou perder a cabeça. Não compreende os termos nem quem se vence por eles. Pedro é incapaz de enlouquecer, apesar de todas as limitações angustiantes que o atormentam, porque a sua própria condição o impede. Não sabe dançar e não sabe fingir. Pedro não se ri histericamente nem é capaz de disparatar para divertir os amigos. Pedro não tem amigos. Não compreende quem se enamora. Pedro não se enamora, falta-lhe a loucura (porque Pedro não enlouquece) e o esquecimento. Ele não esquece, sabe de cor cada palavra que disse e o que lhe responderam, cada pequena traição, cada descuido, cada hálito perceptível. Não consegue abstrair-se dos pequenos detalhes errados, especialmente dos seus. Uma palavra embrulhada na língua, um desequilíbrio ridículo, uma cor desencontrada na roupa, um cabelo teimoso, um espirro sonoro, um esforço inútil e embaraçoso por não ser nada disto, uma tentativa facilmente desmascarada de ser tão livre como os outros. Pedro não é livre, é prisioneiro dos seus planos e horários, que cumpre escrupulosamente, porque tem de ser, e não tem a capacidade de improvisar. Não consegue perder tempo. Todos os gestos são estudados e elaboradamente descritos e previstos muito antes de os executar. Pedro perdeu o instinto. Tem protocolos determinados para vestir, despir, abrir a porta, cumprimentar o vizinho, dormir. Mas Pedro adormece de coração pesado, escondido da noite por baixo dos lençóis. Até o sono chegar, Pedro afoga-se em vergonha, por todos os pormenores que falhou durante o dia, mas que apenas ele recordará de novo, e culpa, por ter cedido à sua debilitação e impotência para mudar. Viverá para sempre nesse estado estático e constante. Pedro sabe exactamente tudo o que é afectado em si por esta monstruosa condição e, por isso mesmo, padece mais, por saber o quanto é poderosa e impossível de eliminar. Uma vez atingido na sua totalidade, um indivíduo jamais se poderá libertar dela. Faz parte do processo ter noção de tudo isto, faz parte o martírio constante durante os momentos de solidão, que, aliás, se tornam mais comuns. Ninguém aceita gente como o Pedro, mudas porque não há nada para dizer, buracos bem fundos que recolhem tudo o que os rodeia mas jamais dão algo de volta. Não são iguais. Pedro está só e cada vez se isolará mais. Pedro possui uma terrível condição que o impede de viver entre nós, de viver como um de nós. Pedro está desesperado por ser quem é. Pedro não pode mudar. Pedro sofre de Consciência.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Não somos um só. Não nos fundimos, não esquecemos o resto do mundo, não morremos um pelo outro. É tudo mentira. Não somos um filme de cores torradas e gestos lentos. Não nos vejo de perto num calor único e eterno. Vejo-te apenas a ti, demasiado perto para te reconhecer. Vejo a ponta do teu nariz e os pêlos da tua face a nascerem discretos. Estás demasiado perto, não consigo ver o mundo. E agora, meu bem, acabou-se. Vim ver como seria se tudo fosse como no ecrã e descobri que não é. É mentira. Não há certezas nem eternidades, não há promessas loucas nem pureza nos actos. Eu tentei embriagar-me no que me faziam crer ser real, mas não chegou. Adeus, meu bem. Afasta-te depressa para que não veja mais o nascimento vagaroso dos pêlos da tua face. Afasta-te para que veja de novo os teus olhos num contexto de cara e os possa fixar e dizer-lhes palavras sinceras de amizade. Afaste-me um pouco mais para que veja onde estou e quem me esperava aqui perto. Se estiveres longe o suficiente, sou capaz de te mostrar aquilo que sempre foi meu e que, por pouco, ia perdendo. O meu coração arde, mas não é por ti. Não é por este aperto sufocante. É por eles. Alguns deles. São eles que me dão vida, que me constroem e destroem, são o que os filmes confundiram por essa exclusividade. Podias um dia ter-te tornado um deles, se ao menos não te tivesses chegado tanto. A culpa não é tua. Também quis conhecer algo mais – porque falam tanto?! –, mas não sabia que era aqui que devia procurar. Hoje compreendo. Adeus, meu bem, vou voltar para eles. Fico só, sim, mas se fizer o que tiver de ser feito por eles, fico bem. E eu nunca te chegaria. Adeus.
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