Tenho saudades deste blog.
Mas eu volto.
Prometo.
E antes que me volte a esquecer...
Um agradecimento especial para a Mina que me ajudou a modificar o banner do blog. Ficou bonito, não ficou? Resta que se descubra o porquê daquela imagem...
sexta-feira, junho 09, 2006
terça-feira, abril 25, 2006
Ele gosta de ti. Cheiras bem.
Apesar de ter vindo a escrever cada vez menos, estou com o pensamento sempre presente na escrita. Há tanta coisa que vejo, que sinto, que quero transmitir e tornar eterno, mostrar ao mundo para tentar saber se serei a única. The bliss.
Por vezes são cores. O céu ao anoitecer, as nuvens em fogo. Mas faltam-me os termos para as cores. Só conheço este. Vermelho. Ou laranja.
Ou então é um gesto mínimo. Um pé ou uma mão que se contorce num beijo. Um olhar perdido ou um sorriso escondido. Ou a minha mão a esconder o meu sorriso solitário quando vou sozinha na rua e a tirá-lo da cara, a puxar os cantos da boca para o seu sítio certo. Mas só conheço estes termos.
Ou o cheiro dela que me acalma e conforta. E ali fico, encostada, satisfeita, falando devagar e sem importância, porque me cheira a gente que estimo.
Ou aquela frase que me disseram, aquela lá em cima, que me soube tão bem. Ou um sorriso que me devolvem. Ou um riso solto quando não esperava.
Ou quando leio o livro da Katherine Mansfield e me descubro a rir sozinha, a sentir-me feliz por viver aquelas palavras mais belas que eu. E o inglês que me soa tão bem a ressoar na cabeça. How exquisite.
Ou quando oiço este album de Placebo que me estava mesmo a apetecer e me sento ao computador, pronta para escrever o que sinto e só me sai as líricas que oiço. E depois há estes solos de guitarra que não dá para escrever.
Ou quando vou ao blog da Mina e me sinto em casa. O fundo é tão acolhedor. Apetece ficar com a janela aberta imenso tempo, só a deixar o ambiente preencher-me.
Mas não sei.
Geralmente pergunto-me se é mesmo esta a minha arte. Talvez se me dedicasse ao cinema, por exemplo! Já me disseram, e eu até concordo, que gosto muito de descrever imagens, gestos. Talvez se escrevesse um guião (se soubesse como é) ou uma peça de teatro me sairia melhor. Mas faltam-me as histórias. Os meus pedaços são tão pequenos que não durariam cinco minutos em palco. Ou no ecrã.
Quem sabe, um dia.
Eu precisava de tempo para me sentar e não pensar em mais nada. Não consigo. Se reunisse tudo o que escrevi, analisasse tudo ao promenor, talvez encontraria um fio que seguir, talvez conseguisse juntar todos os pequenos pedacinhos, sem forçar, e saísse algo digno do que queria expor.
Como me disseram (como tu me disseste), a ficção não pode superar a realidade, não existe. Sim, é a minha realidade que me fascina e não as personagens que me surgem forçadas na cabeça. E era a minha realidade que gostava de transmitir, todos os pequenos pedacinhos, os bons, os maus, os secretos, os públicos, os podres. Mas não posso porque não vivo sozinha. Não sou eu que crio a minha realidade, são os outros que entram pelos meus sentidos adentro. E eu não tenho o direito de lhes tirar a intimidade e confiança que depositaram em mim. Complicações.
Como posso ser tão cuidadosa?!
Tenho uma pedra no coração.
Apesar de ter vindo a escrever cada vez menos, estou com o pensamento sempre presente na escrita. Há tanta coisa que vejo, que sinto, que quero transmitir e tornar eterno, mostrar ao mundo para tentar saber se serei a única. The bliss.
Por vezes são cores. O céu ao anoitecer, as nuvens em fogo. Mas faltam-me os termos para as cores. Só conheço este. Vermelho. Ou laranja.
Ou então é um gesto mínimo. Um pé ou uma mão que se contorce num beijo. Um olhar perdido ou um sorriso escondido. Ou a minha mão a esconder o meu sorriso solitário quando vou sozinha na rua e a tirá-lo da cara, a puxar os cantos da boca para o seu sítio certo. Mas só conheço estes termos.
Ou o cheiro dela que me acalma e conforta. E ali fico, encostada, satisfeita, falando devagar e sem importância, porque me cheira a gente que estimo.
Ou aquela frase que me disseram, aquela lá em cima, que me soube tão bem. Ou um sorriso que me devolvem. Ou um riso solto quando não esperava.
Ou quando leio o livro da Katherine Mansfield e me descubro a rir sozinha, a sentir-me feliz por viver aquelas palavras mais belas que eu. E o inglês que me soa tão bem a ressoar na cabeça. How exquisite.
Ou quando oiço este album de Placebo que me estava mesmo a apetecer e me sento ao computador, pronta para escrever o que sinto e só me sai as líricas que oiço. E depois há estes solos de guitarra que não dá para escrever.
Ou quando vou ao blog da Mina e me sinto em casa. O fundo é tão acolhedor. Apetece ficar com a janela aberta imenso tempo, só a deixar o ambiente preencher-me.
Mas não sei.
Geralmente pergunto-me se é mesmo esta a minha arte. Talvez se me dedicasse ao cinema, por exemplo! Já me disseram, e eu até concordo, que gosto muito de descrever imagens, gestos. Talvez se escrevesse um guião (se soubesse como é) ou uma peça de teatro me sairia melhor. Mas faltam-me as histórias. Os meus pedaços são tão pequenos que não durariam cinco minutos em palco. Ou no ecrã.
Quem sabe, um dia.
Eu precisava de tempo para me sentar e não pensar em mais nada. Não consigo. Se reunisse tudo o que escrevi, analisasse tudo ao promenor, talvez encontraria um fio que seguir, talvez conseguisse juntar todos os pequenos pedacinhos, sem forçar, e saísse algo digno do que queria expor.
Como me disseram (como tu me disseste), a ficção não pode superar a realidade, não existe. Sim, é a minha realidade que me fascina e não as personagens que me surgem forçadas na cabeça. E era a minha realidade que gostava de transmitir, todos os pequenos pedacinhos, os bons, os maus, os secretos, os públicos, os podres. Mas não posso porque não vivo sozinha. Não sou eu que crio a minha realidade, são os outros que entram pelos meus sentidos adentro. E eu não tenho o direito de lhes tirar a intimidade e confiança que depositaram em mim. Complicações.
Como posso ser tão cuidadosa?!
Tenho uma pedra no coração.
domingo, abril 23, 2006
[um parágrafo que prometia mais... ]
Maria Candeias cheirava a amêndoa. Passeava altiva pelas ruas de Lisboa, envolta no seu casaco vermelho de lã em dias de Primavera, baloiçando a sua saia pelo joelho. Sempre de passo apressado, mas sem nunca perder a sandália solta no seu pé, aquela mulher alta conseguia passar despercebida aos olhos dos mais comuns pois os seus olhos não se prendiam a ninguém, não reclamavam atenção e seguiam sempre uma rua adiante, como se prevessem o passo seguinte.
[e não consegui continuar...]
Maria Candeias cheirava a amêndoa. Passeava altiva pelas ruas de Lisboa, envolta no seu casaco vermelho de lã em dias de Primavera, baloiçando a sua saia pelo joelho. Sempre de passo apressado, mas sem nunca perder a sandália solta no seu pé, aquela mulher alta conseguia passar despercebida aos olhos dos mais comuns pois os seus olhos não se prendiam a ninguém, não reclamavam atenção e seguiam sempre uma rua adiante, como se prevessem o passo seguinte.
[e não consegui continuar...]
terça-feira, abril 18, 2006
para Inês
Já lhes oiço a respiração compassada. Não admira, depois do dia de hoje o sono toma conta do corpo bem depressa. Não houve tempo sequer de soltar as cortinas, a escuridão é igual, mas um brilho frágil faz-nos companhia na sala. A lua espreita-nos. Vejo-a daqui, lá fora e no alto, gorda e amarelada, incendiada pelas luzes da nossa Terra. Não é lua-cheia, mas está a caminho. Está lua-botão. Sim, é isso, um botão redondo a sair da casa a que pertence no manto negro de veludo, salteado de estrelas pequeninas mas formosas. Um botão.
O sono ainda não me encontrou, por isso, sento-me para que me veja. A luz do botão aponta-me para dentro e ilumina-me a casa. Todos dormem, espalhados pela sala. O Pedro, no sofá, dorme de boca aberta e de mão pendente, a pouco mais de um palmo da cara do Zé. Talvez por isso ele esteja a dormir de testa franzida. Mais ao fundo, o casalinho dorme bem junto, testas juntas. A meu lado, a Ana parece uma boneca, bem enrolada no seu saco-cama, só com a cabecinha de fora e um sorriso discreto a decorar-lhe o rosto. Aqui perto ainda vejo os restantes dois vultos, mas estão tão aninhados que não os distingo. Adoro vê-los dormir.
Com cuidado para não acordar ninguém, serpenteio-me para fora do meu saco-cama e, em pezinhos de lã, saio para a varanda. Está fresco, a brisa marota sopra-me para dentro da camisa e arrepia-me as costas. Ao menos refresco-me, ali dentro estava demasiado abafado pelo calor do sono.
Estou sozinha. Ninguém me pede palavras ou sorrisos, ninguém me pede nada. Vejo o mar, não muito longe, ainda acordado. Oiço-lhe a respiração, o lamber da areia gelada, a queda de cada onda. Não se agita muito, sei-o porque a lua arrasta-se num traço indefinido sobre a água. E também, a lua e o mar, ambos frios.
Talvez se cerrar os olhos e respirar fundo deixe de ser este corpo por um instante. Não porque não goste dele, mas apenas porque me atrapalha às vezes. De olhos postos em gentes, admiro-os e estudo-os embevecida pela peculiaridade de cada cara, de cada gesto discreto, de cada relação. E, às vezes, descobrem-me.
Acordo sobressaltada, esquecida que também sou como eles, carne, gestos e dor, viva e visível. Ninguém deve gostar de ser examinado assim, por isso gostava de, ao fechar os olhos e respirar fundo, deixar de ser este corpo e poder observar gentes sem incomodar ou interferir. Mas agora todos dormem, já sou invisível.
Penso neles e essa memória traz em anexo em sorriso delicioso. Passámos um bom bocado. Faltarão sempre termos para definir os nossos dias juntos. Ao contrário de quando os observo, nestes dias senti-me parte de um todo, fomos todos um só entusiasmo, uma risada só, vivemos todos o mesmo e da mesma forma. É surpreendente descobrir o uníssono das nossas vontades, das nossas loucuras. Fomos loucos e soube tão bem. Livres. Vivos.
Agora dormem. Devoro-lhes agora o olhar. O Ricardo, ali no meio, tem um braço imóvel no ar e uma mão a deslizar vagarosamente ao longo do braço adormecido. Sono profundo. O Pedro vira-se para o outro lado, enrosca-se no sofá. O silêncio permanente ritmado pela respiração sonolenta da sala. E a luz da lua-botão beija o cabelo solto de todos eles.
Não quero sair daqui. Esta paz deveria durar para sempre.
Mas o tempo não pára. As memórias ficam, o tempo segue e desenha em nós memórias. No fundo, somos ingratos. O tempo foge, diz-se. Não, o tempo ri-se de nós. É o pai que nos acompanha pelo passeio e nós, crianças irrequietas, ou corremos muito depressa e, lá no fundo, temos de esperar por ele, ou detemo-nos a observar alguma coisa, a brincar com as pedras da calçada e, quando damos por nós, ele já lá vai longe, chamando-nos para que não nos percamos. Porque o tempo mantém o seu tempo. Nem nos acompanha na corrida, nem se detém connosco. Mas não se esquece de nós, chama-nos tanta vez para que não nos percamos de vista. Sem ele estaríamos sós.
“Por aqui?” oiço. A Sofia vem até à varanda. Deve ter ido à procura de petiscos e reparou na minha figura na volta. Com o olhar que só eu lhe conheço em momentos silenciosos, lê-me o aranhiço de pensamentos. Em silêncio, vêmo-nos assim, sozinhas numa noite azul, sonhando com tudo o que foi e o que será.
Tenho de lhe falar, que me pede.
“Onde estaremos amanhã?”. O nosso tempo pai já nos chama, parámos de novo, absortas neste instante, sob o luar de hoje, no fresco da noite, na penumbra do mar, no cheiro salgado, no sossego.
Sofia sorri-me e abraça-me como se abraça o tempo. Corremos até ele para não ficarmos mais para trás, abraçamos-lhe as pernas – porque ainda somos pequenas demais para chegar mais alto -, com muita força, para o fazer abrandar, mas, ao mesmo tempo, riamo-nos com a malandrice porque sabemos que ele é bem mais forte que nós. Ri-se connosco, arrasta-nos, alguns passos. Faz-nos cócegas para soltarmos a sua perna, é impossível resistir a este golpe.
Alegremente vencidos, libertamo-nos e estendemos-lhe a mão para que nos guie assim até á próxima corrida ou à próxima paragem no nosso percurso. Mas, por agora, de mão dada, sigo de mão dada com Sofia de volta para a sala onde o sono finalmente me encontra, me deita e, com um beijo de boa noite, me aconchega e me sussurra “boa noite, meu bem, descansa agora, amanhã estaremos um pouco mais longe...”.
Já lhes oiço a respiração compassada. Não admira, depois do dia de hoje o sono toma conta do corpo bem depressa. Não houve tempo sequer de soltar as cortinas, a escuridão é igual, mas um brilho frágil faz-nos companhia na sala. A lua espreita-nos. Vejo-a daqui, lá fora e no alto, gorda e amarelada, incendiada pelas luzes da nossa Terra. Não é lua-cheia, mas está a caminho. Está lua-botão. Sim, é isso, um botão redondo a sair da casa a que pertence no manto negro de veludo, salteado de estrelas pequeninas mas formosas. Um botão.
O sono ainda não me encontrou, por isso, sento-me para que me veja. A luz do botão aponta-me para dentro e ilumina-me a casa. Todos dormem, espalhados pela sala. O Pedro, no sofá, dorme de boca aberta e de mão pendente, a pouco mais de um palmo da cara do Zé. Talvez por isso ele esteja a dormir de testa franzida. Mais ao fundo, o casalinho dorme bem junto, testas juntas. A meu lado, a Ana parece uma boneca, bem enrolada no seu saco-cama, só com a cabecinha de fora e um sorriso discreto a decorar-lhe o rosto. Aqui perto ainda vejo os restantes dois vultos, mas estão tão aninhados que não os distingo. Adoro vê-los dormir.
Com cuidado para não acordar ninguém, serpenteio-me para fora do meu saco-cama e, em pezinhos de lã, saio para a varanda. Está fresco, a brisa marota sopra-me para dentro da camisa e arrepia-me as costas. Ao menos refresco-me, ali dentro estava demasiado abafado pelo calor do sono.
Estou sozinha. Ninguém me pede palavras ou sorrisos, ninguém me pede nada. Vejo o mar, não muito longe, ainda acordado. Oiço-lhe a respiração, o lamber da areia gelada, a queda de cada onda. Não se agita muito, sei-o porque a lua arrasta-se num traço indefinido sobre a água. E também, a lua e o mar, ambos frios.
Talvez se cerrar os olhos e respirar fundo deixe de ser este corpo por um instante. Não porque não goste dele, mas apenas porque me atrapalha às vezes. De olhos postos em gentes, admiro-os e estudo-os embevecida pela peculiaridade de cada cara, de cada gesto discreto, de cada relação. E, às vezes, descobrem-me.
Acordo sobressaltada, esquecida que também sou como eles, carne, gestos e dor, viva e visível. Ninguém deve gostar de ser examinado assim, por isso gostava de, ao fechar os olhos e respirar fundo, deixar de ser este corpo e poder observar gentes sem incomodar ou interferir. Mas agora todos dormem, já sou invisível.
Penso neles e essa memória traz em anexo em sorriso delicioso. Passámos um bom bocado. Faltarão sempre termos para definir os nossos dias juntos. Ao contrário de quando os observo, nestes dias senti-me parte de um todo, fomos todos um só entusiasmo, uma risada só, vivemos todos o mesmo e da mesma forma. É surpreendente descobrir o uníssono das nossas vontades, das nossas loucuras. Fomos loucos e soube tão bem. Livres. Vivos.
Agora dormem. Devoro-lhes agora o olhar. O Ricardo, ali no meio, tem um braço imóvel no ar e uma mão a deslizar vagarosamente ao longo do braço adormecido. Sono profundo. O Pedro vira-se para o outro lado, enrosca-se no sofá. O silêncio permanente ritmado pela respiração sonolenta da sala. E a luz da lua-botão beija o cabelo solto de todos eles.
Não quero sair daqui. Esta paz deveria durar para sempre.
Mas o tempo não pára. As memórias ficam, o tempo segue e desenha em nós memórias. No fundo, somos ingratos. O tempo foge, diz-se. Não, o tempo ri-se de nós. É o pai que nos acompanha pelo passeio e nós, crianças irrequietas, ou corremos muito depressa e, lá no fundo, temos de esperar por ele, ou detemo-nos a observar alguma coisa, a brincar com as pedras da calçada e, quando damos por nós, ele já lá vai longe, chamando-nos para que não nos percamos. Porque o tempo mantém o seu tempo. Nem nos acompanha na corrida, nem se detém connosco. Mas não se esquece de nós, chama-nos tanta vez para que não nos percamos de vista. Sem ele estaríamos sós.
“Por aqui?” oiço. A Sofia vem até à varanda. Deve ter ido à procura de petiscos e reparou na minha figura na volta. Com o olhar que só eu lhe conheço em momentos silenciosos, lê-me o aranhiço de pensamentos. Em silêncio, vêmo-nos assim, sozinhas numa noite azul, sonhando com tudo o que foi e o que será.
Tenho de lhe falar, que me pede.
“Onde estaremos amanhã?”. O nosso tempo pai já nos chama, parámos de novo, absortas neste instante, sob o luar de hoje, no fresco da noite, na penumbra do mar, no cheiro salgado, no sossego.
Sofia sorri-me e abraça-me como se abraça o tempo. Corremos até ele para não ficarmos mais para trás, abraçamos-lhe as pernas – porque ainda somos pequenas demais para chegar mais alto -, com muita força, para o fazer abrandar, mas, ao mesmo tempo, riamo-nos com a malandrice porque sabemos que ele é bem mais forte que nós. Ri-se connosco, arrasta-nos, alguns passos. Faz-nos cócegas para soltarmos a sua perna, é impossível resistir a este golpe.
Alegremente vencidos, libertamo-nos e estendemos-lhe a mão para que nos guie assim até á próxima corrida ou à próxima paragem no nosso percurso. Mas, por agora, de mão dada, sigo de mão dada com Sofia de volta para a sala onde o sono finalmente me encontra, me deita e, com um beijo de boa noite, me aconchega e me sussurra “boa noite, meu bem, descansa agora, amanhã estaremos um pouco mais longe...”.
sexta-feira, abril 07, 2006
posso agora talhar ruas imensas, casas imóveis, abandonadas
algumas nuas a morrerem assim, tristes, inquietas, azuis, sozinhas
mas isto não acaba
algures num alvor atado quando uma igreja nos ouvir
jorraremos o amor ousado
rasgaremos a imagem sem titulo
foge rato amargo, nunca consegues instalar-te sem coração ausente
corre ave terrestre, a rasgos isto não avança
ama, negro trovão, o nosso idiota orvalho
riscos a queimar um elegante lume
monstros ocultos no interno corpo ardente
inevitavelmente, nós estamos sós...
[nova experiência... quem perceber como surgiu este poema, avise]
algumas nuas a morrerem assim, tristes, inquietas, azuis, sozinhas
mas isto não acaba
algures num alvor atado quando uma igreja nos ouvir
jorraremos o amor ousado
rasgaremos a imagem sem titulo
foge rato amargo, nunca consegues instalar-te sem coração ausente
corre ave terrestre, a rasgos isto não avança
ama, negro trovão, o nosso idiota orvalho
riscos a queimar um elegante lume
monstros ocultos no interno corpo ardente
inevitavelmente, nós estamos sós...
[nova experiência... quem perceber como surgiu este poema, avise]
sábado, março 04, 2006
(...)
Tenho amigos. Rimos juntos, choramos à vez, partilhamos horas e, de vez em quando, dizemos que gostamos muito uns dos outros. O que é verdade e sabe bem. (...)
Qual o nome para o calor no peito quando, no escuro de um quarto, vemos um filme encostados, cabeças pousadas os ombros de outros?! Ou um abraço num dia especial, ou num dia normal. Ou um beijo na face inesperado e doce. Ou uma dança sedutiva a alguém que sabemos que não se seduzirá, que se ri como nós do exagero dos movimentos. Ou quando nos apercebemos do génio de alguém e o queremos seguir e absorver tudo o que nos deixar beber. Ou quando nos despimos de cascas a alguém que pouco conhecemos mas cujo olhar nos é tão familiar e convidativo. Ou quando na solidão da noite nos imaginamos junto deles, de cabeça no seu colo, sabendo que nos protegem. Ou quando nos deparamos connosco nos gestos de outro. Ou quando desejamos escrever as palavras mais belas numa dedicatória que alguém tanto merece e julgamo-nos incapazes de as descobrir. Ou quando as lemos e a comoção afoga-nos os olhos. Ou quando as saudades apertam. Alguém conhece o nome desse calor no peito que sinto em todas estas ocasiões? E porque ninguém fala dele?
À falta de melhor... amo-vos.
Tenho amigos. Rimos juntos, choramos à vez, partilhamos horas e, de vez em quando, dizemos que gostamos muito uns dos outros. O que é verdade e sabe bem. (...)
Qual o nome para o calor no peito quando, no escuro de um quarto, vemos um filme encostados, cabeças pousadas os ombros de outros?! Ou um abraço num dia especial, ou num dia normal. Ou um beijo na face inesperado e doce. Ou uma dança sedutiva a alguém que sabemos que não se seduzirá, que se ri como nós do exagero dos movimentos. Ou quando nos apercebemos do génio de alguém e o queremos seguir e absorver tudo o que nos deixar beber. Ou quando nos despimos de cascas a alguém que pouco conhecemos mas cujo olhar nos é tão familiar e convidativo. Ou quando na solidão da noite nos imaginamos junto deles, de cabeça no seu colo, sabendo que nos protegem. Ou quando nos deparamos connosco nos gestos de outro. Ou quando desejamos escrever as palavras mais belas numa dedicatória que alguém tanto merece e julgamo-nos incapazes de as descobrir. Ou quando as lemos e a comoção afoga-nos os olhos. Ou quando as saudades apertam. Alguém conhece o nome desse calor no peito que sinto em todas estas ocasiões? E porque ninguém fala dele?
À falta de melhor... amo-vos.
sábado, fevereiro 18, 2006
Hoje. Felizmente, não tinha pensado muito no dia de hoje, não tinha planeado as minhas falas, ou mesmo as dos outros, como geralmente faço. Consegui escondê-lo do pensamento, consegui ser espontânea e viver um, e apenas um, momento daqueles. É agora e não posso pensar no que vou dizer. Vou ser eu.
Sei que ao subir estas escadas me vou encontrar com eles. Já não o vejo há mais de um ano (já passaram dois?), vou conhecê-la pela primeira vez. São ambos amigos, diferentes cumplicidades, mas os dois especiais. E nunca a vi… mas sei quem é.
Os olhos inquietos procuram o casaco negro que certamente ele trará. Encontro-o, estão ali. E, num momento, estou de frente para o casal. Sentados nas escadas, entretidos com o seu segredo. Acordam para mim. Sorrio-lhes. Ele continua igual, obviamente, não é pessoa de mudanças. E ela… é quem eu sabia que era. Ao primeiro relance, vi-lhe desenhados no corpo os contornos dos seus desenhos. Era quem me tinha apresentado, “esta sou eu, desenhada por mim, com os meus traços, com as minhas mãos” e, sim, ela sabia quem era. Vi-a, num instante apenas, nua nos seus traços como se me apresentou. Então é ela…
Formalidades cumpridas. Subimos para uma conversa à mesa. Sentei-me à frente dos dois. E conversámos. Receava (ao subir as escadas, instantes antes do encontro) de me envergonhar, de me conter, de me fechar como é costume, mas, incrivelmente, sentia-me tão bem junto deles que o à-vontade falou por mim. Foi bom revê-lo e ter uma voz a lutar comigo contra algumas das suas ideias que sempre julguei indemolíveis. E foi bom conhecer essa nova voz (não tem pronúncia, era a minha grande curiosidade) que se dirige tão naturalmente a mim, segurando-me com os olhos, fixos nos meus, ligados. Quando o diálogo era entre nós as duas, os olhos de ambas prendiam-se, admirando-se mutuamente, segredando acrescentos às palavras cruzadas. E o sorriso convidativo…
Mas houve algo mais que me fascinou. Os casais nunca me convenceram. Nunca me levaram a acreditar num sentimento sincero, puro, eterno. Nunca vi naqueles beijos chupados almas cruzando-se, mas apenas línguas, carne, fluidos. Os toques nunca foram para mim profundos, apenas superficiais, fúteis, mãos cheias de corpo e vazias de alma e entrega. Carência cega e mimada. Fome.
Sabia que ele e ela estavam juntos, mas não sabia como. Cada pessoa tem o seu modo de se relacionar e não sabia como o deles funcionava. E fiquei enternecida.
Nunca vi um casal tão perfeito. Com as pernas enleadas, a dela por cima da dele, irrequietas. Por vezes, surgiam brigas inocentes pela posição, sorriam-se, brincavam até encontrarem novo apoio com gestos cobertos de ternura. Partilhavam um afecto tão grande, nada cego, autêntico. Como se fossem realmente um só corpo, vivo, comandado por duas almas, não gémeas, mas siamesas, presas pelo mesmo corpo.
E o que mais me estranhou não foram estes mimos, foi o facto de não me sentir a mais. Não me senti, obviamente, parte daquele conjunto, mas a natureza daquela união já não tinha necessidade de atenção e resposta mútua, era algo tão impregnado neles que tornava as suas brincadeiras de pernas debaixo da mesa tão banais como um sacudir de cabelo quando se aventura em frente aos olhos.
Mas nada disto me derrubaria as ideias se não fosse aquele momento… Nem me recordo já do que estávamos a conversar na altura pois, mal se começou a desenrolar, apaguei tudo o resto para o seguir.
Era ele que me falava. Provavelmente sobre os seus ideais que sempre o caracterizaram e que geraram fascinantes discussões entre nós. Enquanto falava, tomei atenção a ela. Ouvia-o também, atenta como sempre se mostrou. Vagarosamente, pousa a mão na curva do braço dele apoiado na mesa. Sinto-a, vai-se instalar. De sorriso tranquilo, embalada pelas palavras que já não oiço, afaga o braço dele com a mão que lhe resta. E, aquecendo-me repentinamente no peito, deita delicadamente a sua cabeça naquele braço afagado, no ninho que aconchegou havia instantes e onde, agora, de olhos fechados, sorria, confortável.
O amor é isto e nada mais, soube-o naquele instante. O conforto, a cegueira dos olhos cerrados, a confiança naquele nicho, segurança, calor. Sei que ela sentiu também no seu peito o calor, a forma que o corpo tem de nos dizer que está bem. Confortável. No conforto acreditava. Percebi ali, amor é conforto. Afinal… sempre existe!
Talvez nem ele nem mesmo ela se tenham apercebido deste pequeno instante, como disse, os seus gestos afectuosos já eram de tal forma naturais que poisos destes não seriam tão raros que merecessem anotação. Não, o conforto deve ser permanente. Não os queria acordar daquele momento, procurei acordar eu, voltar às palavras dele, ver-lhe de novo a face, a boca que me falava, os olhos que me buscavam. Devo ter voltado a tempo, o discurso não tinha sido interrompido, logo, não se deve ter apercebido da minha alienação momentânea pelos gestos. Finjo esquecer o sucedido para retomar o diálogo.
O tempo passa, efectivamente, depressa. Os dias acabam, as horas terminam. Chegou a altura de me despedir deste meu casal amigo. Deixamos a mesa, afastamo-nos para um sítio mais espaçoso onde corpos desconhecidos demasiado perto não perturbem as últimas palavras de hoje.
Estou, de novo, de frente para o casal, ela do lado esquerdo, ele do direito. Curioso como, agora que deixo por escrito, me apercebo da importância e beleza do lado de cada um. Ela, a artista, do lado da criatividade, da imaginação, do coração; ele do direito, que, de acordo com os seus princípios e valores, não poderia estar mais correcto. Mas adiante…
Decidi despedir-me dele primeiro, afinal é aquele que conheço há mais tempo. Tive saudades dele, da forma como me abanava determinantemente para eu reagir, sempre com uma presença segura e amiga, mostrando-me não o caminho mas todas as alternativas. Ele olha para mim, julgo que descobriu a pessoa feliz (por vezes) que ouviu havia dias ao telefone. Depois deste encontro, não deixaremos passar tanto tempo até ao próximo reencontro.
Pouso agora o olhar nela. Sorri-me com a cara toda. Ainda bem que decidiu vir, os nossos receios de um encontro após algum tempo de convívio virtual, o medo da desilusão, do desencanto, estavam felizmente postos de parte. Vejo-lhe na cara o espelho da minha satisfação por nos termos conhecido. Repetiremos, sem dúvida, este encontro.
E, porque o tempo não pára, despeço-me finalmente dos dois, que não supõem sequer que a amiga que ali os deixou acordará confortável no dia seguinte graças ao amor que provaram ser possível.
Sei que ao subir estas escadas me vou encontrar com eles. Já não o vejo há mais de um ano (já passaram dois?), vou conhecê-la pela primeira vez. São ambos amigos, diferentes cumplicidades, mas os dois especiais. E nunca a vi… mas sei quem é.
Os olhos inquietos procuram o casaco negro que certamente ele trará. Encontro-o, estão ali. E, num momento, estou de frente para o casal. Sentados nas escadas, entretidos com o seu segredo. Acordam para mim. Sorrio-lhes. Ele continua igual, obviamente, não é pessoa de mudanças. E ela… é quem eu sabia que era. Ao primeiro relance, vi-lhe desenhados no corpo os contornos dos seus desenhos. Era quem me tinha apresentado, “esta sou eu, desenhada por mim, com os meus traços, com as minhas mãos” e, sim, ela sabia quem era. Vi-a, num instante apenas, nua nos seus traços como se me apresentou. Então é ela…
Formalidades cumpridas. Subimos para uma conversa à mesa. Sentei-me à frente dos dois. E conversámos. Receava (ao subir as escadas, instantes antes do encontro) de me envergonhar, de me conter, de me fechar como é costume, mas, incrivelmente, sentia-me tão bem junto deles que o à-vontade falou por mim. Foi bom revê-lo e ter uma voz a lutar comigo contra algumas das suas ideias que sempre julguei indemolíveis. E foi bom conhecer essa nova voz (não tem pronúncia, era a minha grande curiosidade) que se dirige tão naturalmente a mim, segurando-me com os olhos, fixos nos meus, ligados. Quando o diálogo era entre nós as duas, os olhos de ambas prendiam-se, admirando-se mutuamente, segredando acrescentos às palavras cruzadas. E o sorriso convidativo…
Mas houve algo mais que me fascinou. Os casais nunca me convenceram. Nunca me levaram a acreditar num sentimento sincero, puro, eterno. Nunca vi naqueles beijos chupados almas cruzando-se, mas apenas línguas, carne, fluidos. Os toques nunca foram para mim profundos, apenas superficiais, fúteis, mãos cheias de corpo e vazias de alma e entrega. Carência cega e mimada. Fome.
Sabia que ele e ela estavam juntos, mas não sabia como. Cada pessoa tem o seu modo de se relacionar e não sabia como o deles funcionava. E fiquei enternecida.
Nunca vi um casal tão perfeito. Com as pernas enleadas, a dela por cima da dele, irrequietas. Por vezes, surgiam brigas inocentes pela posição, sorriam-se, brincavam até encontrarem novo apoio com gestos cobertos de ternura. Partilhavam um afecto tão grande, nada cego, autêntico. Como se fossem realmente um só corpo, vivo, comandado por duas almas, não gémeas, mas siamesas, presas pelo mesmo corpo.
E o que mais me estranhou não foram estes mimos, foi o facto de não me sentir a mais. Não me senti, obviamente, parte daquele conjunto, mas a natureza daquela união já não tinha necessidade de atenção e resposta mútua, era algo tão impregnado neles que tornava as suas brincadeiras de pernas debaixo da mesa tão banais como um sacudir de cabelo quando se aventura em frente aos olhos.
Mas nada disto me derrubaria as ideias se não fosse aquele momento… Nem me recordo já do que estávamos a conversar na altura pois, mal se começou a desenrolar, apaguei tudo o resto para o seguir.
Era ele que me falava. Provavelmente sobre os seus ideais que sempre o caracterizaram e que geraram fascinantes discussões entre nós. Enquanto falava, tomei atenção a ela. Ouvia-o também, atenta como sempre se mostrou. Vagarosamente, pousa a mão na curva do braço dele apoiado na mesa. Sinto-a, vai-se instalar. De sorriso tranquilo, embalada pelas palavras que já não oiço, afaga o braço dele com a mão que lhe resta. E, aquecendo-me repentinamente no peito, deita delicadamente a sua cabeça naquele braço afagado, no ninho que aconchegou havia instantes e onde, agora, de olhos fechados, sorria, confortável.
O amor é isto e nada mais, soube-o naquele instante. O conforto, a cegueira dos olhos cerrados, a confiança naquele nicho, segurança, calor. Sei que ela sentiu também no seu peito o calor, a forma que o corpo tem de nos dizer que está bem. Confortável. No conforto acreditava. Percebi ali, amor é conforto. Afinal… sempre existe!
Talvez nem ele nem mesmo ela se tenham apercebido deste pequeno instante, como disse, os seus gestos afectuosos já eram de tal forma naturais que poisos destes não seriam tão raros que merecessem anotação. Não, o conforto deve ser permanente. Não os queria acordar daquele momento, procurei acordar eu, voltar às palavras dele, ver-lhe de novo a face, a boca que me falava, os olhos que me buscavam. Devo ter voltado a tempo, o discurso não tinha sido interrompido, logo, não se deve ter apercebido da minha alienação momentânea pelos gestos. Finjo esquecer o sucedido para retomar o diálogo.
O tempo passa, efectivamente, depressa. Os dias acabam, as horas terminam. Chegou a altura de me despedir deste meu casal amigo. Deixamos a mesa, afastamo-nos para um sítio mais espaçoso onde corpos desconhecidos demasiado perto não perturbem as últimas palavras de hoje.
Estou, de novo, de frente para o casal, ela do lado esquerdo, ele do direito. Curioso como, agora que deixo por escrito, me apercebo da importância e beleza do lado de cada um. Ela, a artista, do lado da criatividade, da imaginação, do coração; ele do direito, que, de acordo com os seus princípios e valores, não poderia estar mais correcto. Mas adiante…
Decidi despedir-me dele primeiro, afinal é aquele que conheço há mais tempo. Tive saudades dele, da forma como me abanava determinantemente para eu reagir, sempre com uma presença segura e amiga, mostrando-me não o caminho mas todas as alternativas. Ele olha para mim, julgo que descobriu a pessoa feliz (por vezes) que ouviu havia dias ao telefone. Depois deste encontro, não deixaremos passar tanto tempo até ao próximo reencontro.
Pouso agora o olhar nela. Sorri-me com a cara toda. Ainda bem que decidiu vir, os nossos receios de um encontro após algum tempo de convívio virtual, o medo da desilusão, do desencanto, estavam felizmente postos de parte. Vejo-lhe na cara o espelho da minha satisfação por nos termos conhecido. Repetiremos, sem dúvida, este encontro.
E, porque o tempo não pára, despeço-me finalmente dos dois, que não supõem sequer que a amiga que ali os deixou acordará confortável no dia seguinte graças ao amor que provaram ser possível.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
I'm an idiot. Era só para dizer isso...
As pessoas que não conhecemos pessoalmente não deviam falar à nossa frente. Isto porque de vez em quando descubro personagens magnificas sobre as quais começo a imaginar personalidades, vidas, qualquer coisa de fascinante sobre elas.
Como aquela rapariga de olhos enormes em Medicina. Que usa saias e botas, cabelo muito encaracolado, apanhado atrás. Parece uma bruxa, e não no sentido de feio ou mau, mas sim num sentido de fazer poções e feitiços. E o olhar é o mais fascinante. Olhos enormes, muito abertos, sobrancelhas pesadas, um olhar eternamente desconfiado. Não sorri muito.
Até ao dia que a oiço conversar com alguém e toda a magia se perdeu. E no outro dia dirigiu-se a mim, riu-se (sorriu) da minha piada. Já não é a bruxa misteriosa que via nela, mas não deixa de me atrair.
Ou o outro rapaz que também considerava muito curioso, de cabelo pelos ombros, barba por fazer, ar perdido. Até ao dia que me meti com ele e falámos. Tem uma voz muito bonita, foi o que recordei dele. Mas não está perdido, já tem um bom grupo.
Talvez eu julgue inconscientemente que essas gentes estão sozinhas à espera que eu pegue nelas e as cuide, só minhas. E esqueço-me que são gente viva que não espera por wannabe poets que lhes dêem um rosto novo, uma personalidade certa.
Ainda há uma personagem que nunca ouvi a voz, que nunca se deu a conhecer para além do que vejo sempre. É o "nosso amigo" do comboio. Um homem que corre sempre, sempre!, para o comboio, mesmo que esteja 15 minutos adiantado e que se senta sempre, sempre!, no mesmo lugar. Entra em pânico quando está ocupado. Nunca presenciei uma cena dessas, mas já ouvi relatos. Vai o caminho todo a fazer Sudokus. E quando sai da estação, também sai sempre, sempre!, a correr. Sobe as escadas (rolantes, ou não) a correr.
Enfim... vidas.
As pessoas que não conhecemos pessoalmente não deviam falar à nossa frente. Isto porque de vez em quando descubro personagens magnificas sobre as quais começo a imaginar personalidades, vidas, qualquer coisa de fascinante sobre elas.
Como aquela rapariga de olhos enormes em Medicina. Que usa saias e botas, cabelo muito encaracolado, apanhado atrás. Parece uma bruxa, e não no sentido de feio ou mau, mas sim num sentido de fazer poções e feitiços. E o olhar é o mais fascinante. Olhos enormes, muito abertos, sobrancelhas pesadas, um olhar eternamente desconfiado. Não sorri muito.
Até ao dia que a oiço conversar com alguém e toda a magia se perdeu. E no outro dia dirigiu-se a mim, riu-se (sorriu) da minha piada. Já não é a bruxa misteriosa que via nela, mas não deixa de me atrair.
Ou o outro rapaz que também considerava muito curioso, de cabelo pelos ombros, barba por fazer, ar perdido. Até ao dia que me meti com ele e falámos. Tem uma voz muito bonita, foi o que recordei dele. Mas não está perdido, já tem um bom grupo.
Talvez eu julgue inconscientemente que essas gentes estão sozinhas à espera que eu pegue nelas e as cuide, só minhas. E esqueço-me que são gente viva que não espera por wannabe poets que lhes dêem um rosto novo, uma personalidade certa.
Ainda há uma personagem que nunca ouvi a voz, que nunca se deu a conhecer para além do que vejo sempre. É o "nosso amigo" do comboio. Um homem que corre sempre, sempre!, para o comboio, mesmo que esteja 15 minutos adiantado e que se senta sempre, sempre!, no mesmo lugar. Entra em pânico quando está ocupado. Nunca presenciei uma cena dessas, mas já ouvi relatos. Vai o caminho todo a fazer Sudokus. E quando sai da estação, também sai sempre, sempre!, a correr. Sobe as escadas (rolantes, ou não) a correr.
Enfim... vidas.
(próximo post é o 100. Estou a guardá-lo para um texto que tenho aqui. Espero que o mereça.)
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Tenho os pés gelados e ninguém para mos aquecer
E uma vontade enorme e escrever
Falta-me o jeito, falta-me o tempo
Falta
O peso das costas na responsabilidade
de ser o que desenhei
e desenharam
por mim
para mim
De repente
,
os olhos rasgados
pela lâmina da luz azul
Porque vivo numa casa tão estranha?
azul ou rosa
para que serve a cor se não muda
se se acomoda
nem padece
nem apodrece
nem aparece
se a pudesse
desligar...
(não devia ficar tanto tempo sem escrever...)
E uma vontade enorme e escrever
Falta-me o jeito, falta-me o tempo
Falta
O peso das costas na responsabilidade
de ser o que desenhei
e desenharam
por mim
para mim
De repente
,
os olhos rasgados
pela lâmina da luz azul
Porque vivo numa casa tão estranha?
azul ou rosa
para que serve a cor se não muda
se se acomoda
nem padece
nem apodrece
nem aparece
se a pudesse
desligar...
(não devia ficar tanto tempo sem escrever...)
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