Ela aqui não me ouve. Mesmo assim, nunca me ouviria. Perdeu-se. Quando ela chegar (já não deve faltar muito) vou falar com ela. Vou dizer-lhe, sinceramente, "não acredito que aquela pessoa te seja uma boa companhia. Tornaste-te mais ausente, mais fechada. E, vê lá que eu nunca reparo nisto, mas tens os olhos de louca." Não sei como é que vai reagir. Não me interessa, também. Já estou preparada para desistir dela, esta será a minha última oportunidade. Custa-me vê-la assim. Estimo-a muito, temo por ela. Fica tão diferente depois de estar com aquela personagem. Vejo-as daqui. Sorrisos, olhares cumplices. O que terão escondido? Há qualquer coisa que não bate bem, sinto isso. Vem para aqui, minha amiga, eu protejo-te, dou-te tudo o que precisares para te afastares disso... Não consigo confiar.
Deu-lhe a mão e trá-la assim. "Quero mostrar-te uma coisa", parece dizer-lhe. Minha amiga, porque não me mostras antes a mim? Eu tentaria compreender a tua loucura. Lá vêm, na minha direcção. Da maneira como ela está de certeza que não repara em mim, vai passar e nem um sorriso de reconhecimento me vai deixar. Perdida. Traz um grande sorriso nos lábios. E a loucura da noite no olhar. Não a vi beber mas todo aquele brilho e aquele andar indeferenciado não é costume dela, bebeu, a sua companhia deu-lhe um copo, ou dois, ou mais. Mais próximas, ela à frente, olhando carinhosamente o chão e trazendo a outra pela mão, de sorriso pendurado. A outra sorri discretamente como guardando a verdadeira emoção para o lugar para onde ela a leva.
Minha amiga levantou o olhar. Viu-me. Continuou a sorrir, abrandou, aproximou-se de mim e parou. Não deixou de me fitar. Seria agora que lhe diria para largar a mão e dar antes a minha. A outra ali está, olha para mim, sorri, "Olá". Mas eu conheço-te e não consigo confiar em ti. Sabes o que é isto? Ela vai humilhar-me, é? Foste tu que a incentivaste? Deixa-a, não a posso perder, ela não se pode perder contigo. Não sabes o quanto me preocupo com ela quando está contigo. Não lês isto tudo nos meus olhos? É o que te quero dizer agora. Mas digo-o em silêncio.
Sinto-a a dar-me a mão. Olho, surpresa, para as nossas mãos. Minha amiga, o que se passa? Nunca me deste a mão...Olho-te nos olhos. Continuam brilhantes, mas felizes, e sorris-me. Devolvo o olhar para a outra. Só agora reparo que também ela está surpreendida, não sabe o que fazes. Devolvo-te o olhar e com ele te peço algo mais.
"Estou tão feliz... Vocês não sabem, mas eu amo-vos. Não é algo que consiga explicar convenientemente, apenas é. Porque eu não sou nada, não sou este corpo que aqui está, não sou estas palavras que ouvem, não sou nada disso. Isto, esta pessoa que aqui vêm que gosta de se afirmar como individualidade, não existe sem vocês. Vocês, minhas grandes amigas, vocês são eu. Porque, vou-vos confessar, quando estou sozinha não sei quem sou, não sei o que quero, não sei nada. Mas quando vos vejo, quando me sorriem, quando se riem das piadas infelizes que digo, quando não percebem o que vos digo e me pedem para repetir, quando me respondem, quando me olham, sei que existo. São vocês o espelho de mim. É através dos vossos olhos que me vejo. Dão-me vida, percebem? Amo-vos tanto... E todas estas pessoas aqui à nossa volta que dizem que me conhecem, sabem?, não são um décimo do que vocês as duas representam para mim. São vocês as duas, só vocês. Não dá para explicar porquê. Apenas amo os vossos defeitos, aquelas frases que não deviam ter dito, aquelas formas desajeitadas como comem ou espirram, aquela voz estridente que insistem em cantar, aqueles amúos cansativos, tudo o que me poderia irritar, cansar ou afastar milagrosamente fascina-me. Não sabem, nem vão saber, o quanto fico feliz por me deixarem conhecer-vos. Ah, porque me olham assim? Eu sei, não é fácil aceitar que isto seja assim dito. Mas é verdade. E por tudo isto queria pedir-vos uma coisa... Não me deixem fugir. Tenho medo de mim. Não sei como vai ser amanhã, como vou ser amanhã, ou depois, daqui a um mês, daqui a um ano... Tenho medo de me afastar de vocês. O tempo condena-nos a todos, somos diferentes a todos os momentos. Percebem? Amanhã posso acordar e arrepender-me de vos ter dito isto tudo, mas o que realmente importa, e eu preciso que compreendam isto bem, é que hoje, aqui, nesta hora, neste momento, eu, dentro deste corpo que vocês conhecem e para o qual olham dessa forma, eu sinto-me tão feliz por vos ter comigo e por ser quem sou, de tal forma que quero, hoje, aqui, agora, ser para sempre assim. E como vocês são eu, preciso muito que não me deixem. Preciso que daqui a um dia, um mês, um ano, uma década, se lembrem de mim aqui, hoje, agora, que se lembrem de todas as palavras que vos digo agora e que voltem para mim, mesmo que eu tenha fugido. Porque é o meu desejo. É isto que eu quero ser. E só tenho a certeza que o serei se vocês estiverem comigo. Não quero que me prometam, as palavras deixam-se de ouvir, quero que prometam a vocês, sim? Dentro de vocês, uma promessa não sai... É isto."
Sorriu-nos uma última vez. Olhou ternamente para mim, olhou ternamente para ela. Fechou os olhos e beijou-nos as mãos que não tinhamos solto durante um tempo suficiente para lhe distinguir uma lágrima no canto do olho. E, antes de podermos dizer alguma coisa, libertou as nossas mãos e fugiu a dançar para o meio da sala como louca. Muito louca. Como se estivesse só. Gritando com tanta força a letra da música que tocava, de olhos fechados, rodopiando sobre si própria, deixando-se invadir pela música. As mãos não pareciam dela, dançavam sozinhas junto àquele corpo. Uma visão estonteante.
Lentamente, procurei recuperar daquele momento. A amiga dela deveria estar ali também ainda. Sim, vi-a a meu lado, de braços estendidos, como eu, admirando-a. Percebeu que eu a olhava e olhou-me de volta. Cúmplices de algo que nunca julguei ser possível, nós, ligadas. Abraçámo-nos... Não sei explicar, não consigo pensar... Estava simplesmente certo. Abraçámo-nos... E, assim, chorei no ombro dela. Não sei porquê... E ela no meu...
Tenho de ir ter com a minha grande amiga. Caiu no chão, está sozinha, aninhada em si, choramingando de sono.
quinta-feira, abril 14, 2005
domingo, abril 03, 2005
Não estou bem. Sei que preciso de escrever, sei que posso escrever algo bonito neste momento, sinto-o a rebolar dentro de mim. Mas, novamente, não sei onde pegar, não sei como organizar as palavras. Pode até não ser credível, mas sinto mesmo como um riacho que se vai estreitando e termina aqui neste papel. Sinto-o a percorrer o meu braço, sinto mesmo, sinto-o escorrer com a agressividade que este lápis tem para este papel, sinto-o a caminhar, arranhando-se, desde o cotovelo até à minha mão. Sinto-o especialmente no pulso que, desde que deixou de usar as pulseiras, está muito mais frágil e sensível - quem mais acredita que pulseiras tão finas e simples podem moldar-se tanto a um pulso, protegendo-o, quem mais sem ser eu?!- .
Mas não sei onde nasce este riacho. Quero esgotá-lo porque, por dentro, afoga-me. Não consigo respirar em condições, o peito está muito pesado e o sentimento de afogamento não se alivia com esta escrita. Odeio quando isto me acontece, não sei mais o que fazer para relaxar. Posso ficar assim dias e até semanas. Esperemos que não seja o caso.
É que... de que serve querer ser poeta, de que vale ter as palavras se não encontro nada de novo para dizer? Não digo nada, não, não mudo nada. Só queria ser feliz. Só queria significar alguma coisa e acreditar nisso. De que me vale este texto se não para me voltarem a acusar de dispersão de objectivos realmente significativos? Vão fazê-lo, bem sei. Mas, senti-o no peito enquanto escrevi esta ultima pergunta, nada para mim faz mais sentido do que escrever. Entristece-me imenso o facto de ficar meses sem escrever nada para ninguém (escrevo para mim, mas é outro afluente que corre com menos força). Queria tanto escrever-vos para que sentissem tudo o que sinto.
Uma página e continua vazia...
É agoniante ver a lapiseira pousada, imóvel, sobre a folha...
Mas não sei onde nasce este riacho. Quero esgotá-lo porque, por dentro, afoga-me. Não consigo respirar em condições, o peito está muito pesado e o sentimento de afogamento não se alivia com esta escrita. Odeio quando isto me acontece, não sei mais o que fazer para relaxar. Posso ficar assim dias e até semanas. Esperemos que não seja o caso.
É que... de que serve querer ser poeta, de que vale ter as palavras se não encontro nada de novo para dizer? Não digo nada, não, não mudo nada. Só queria ser feliz. Só queria significar alguma coisa e acreditar nisso. De que me vale este texto se não para me voltarem a acusar de dispersão de objectivos realmente significativos? Vão fazê-lo, bem sei. Mas, senti-o no peito enquanto escrevi esta ultima pergunta, nada para mim faz mais sentido do que escrever. Entristece-me imenso o facto de ficar meses sem escrever nada para ninguém (escrevo para mim, mas é outro afluente que corre com menos força). Queria tanto escrever-vos para que sentissem tudo o que sinto.
Uma página e continua vazia...
É agoniante ver a lapiseira pousada, imóvel, sobre a folha...
terça-feira, março 29, 2005
Porquê dizer o quanto amo o teu abraço se não o podes perceber? Não, não é o amor que todos julgam que conhecem, não é nada disso. É conforto. É segurança. É um abraço doce de quem me estima e que me fascina tanto. Nunca encontrarás em ti metade do interesse que eu encontro, admiro-te tanto, mas tu nunca conseguirás perceber porquê. Não passas de mais um rosto, mais uma vida simples e igual a tantas outras, dizes tu. Mas nunca conheci ninguém como tu. Tens um brilho nos teus olhos que me faz acreditar em ti, é através do teu olhar que sei que brilhas por dentro, que tens tanto para me ensinar. Vou descobrindo aos poucos esses reflexos de alma e fico tão contente quando me deixas vê-los. E quando, por vezes, fechas os olhos e apoias-te no meu ombro, no meu colo, em mim. Aí sei que confias em mim, que também eu te sou confortável e que não te incomoda o facto de te descobrir porque no fundo, talvez até gostes de te sentir explorado (no melhor sentido, claro). Obrigada por essa confiança.
segunda-feira, março 28, 2005
Tenho de te denunciar. Desculpa mas preciso de tirar isto de mim. Porque eu descobri-te, evitaste-o, mas também tu não me conheces e não sabias o quanto perspicaz posso ser.
Tu simplesmente não sentes. Estás ausente. Suponho que vivas apenas à espera, mas nem tu sabes de quê. Estás ali apenas porque esperas pelo momento em que te vais embora para outro sitio. Para casa, talvez. Talvez seja ali que tu és preciso, que a tua atenção e vida são necessárias. Penso que esperam muito de ti em casa. E vens para o pé de mim descansar. Mas não sentes nada. Tens de estar preparado para voltar para casa, é aí que podes sentir. Mas, mesmo assim, não sei. Talvez nem sintas em casa. Talvez estejas só presente como te pedem. Andas cansado disso, não é verdade? Deixa, talvez no próximo ano já não seja assim.
E então, como posso eu explicar-te perante o que aconteceu? Foi esta a única forma que encontrei. E eu podia ter desconfiado antes. Sozinho, longe, quantas vezes te vi assim pelo canto do olho. Talvez tenha sido isso que mais me cativou, o olhar distante. Mas depois, se alguém se aproximava sorrias logo, sempre da mesma forma alegre e reagias como se fosse o dia mais alegre da tua vida. E, novamente, quando esse alguém se afastava, caías para longe, como te encontravas antes. Vi isso, reparei, até mesmo comigo eras assim.
É por isto que digo que não sentes nada por nós. Simplesmente reages. Se alguém te sorri, tu sorris de volta. Devolves aquilo que esperam de ti. Como geralmente os rapazes apenas te pedem boa-disposição, é o que lhes dás. Mas não a sentes porque estás apenas à espera de voltar para casa (até porque várias vezes vais a casa num pulo, enquanto ninguém te vê). E como não queres que ninguém te pergunte porque não sorris, não saberias explicar, tu sorris e ninguém te incomoda. Será que reparam em ti? Será que vêm algo atrás do sorriso?
Eu falei contigo uma vez sobre isso, lembras-te?, uma única vez e correu-me tão mal. Nem me respondeste, não disseste nada. Só baixaste o olhar e, sim, estavas com o teu sorriso do costume. Mas havia algo mais e tu sabias que tinhas sido descoberto. Disseste-me algo do tipo "tens razão, não está tudo bem, mas não há nada que possamos fazer". E eu não soube responder a esse gesto. Atrapalhei-me, ao contrário de ti, não sou perita em fazer e dizer o que esperam que faça. Mas fiz com que soubesses, ali, que eu estava contigo e que te tinha visto. Agora, pergunto-me, será que tomaste atenção, será que foste de alguma forma tocado por este gesto? Não, não foste, provavelmente, mal chegaste a tua casa, esqueceste imediatamente o que se tinha passado.
Agora que penso... Sempre tive medo que chegasses a casa e te esquecesses de tudo. Talvez sempre tivesse dentro de mim uma suspeita do que agora tento afirmar. Sempre pensei que em casa não pensasses em nada do que se tivesse passado durante a manhã. Também não sei no que pensarias, isso ainda não descobri, tens de ser tu a dizer-me. E, a única vez que te esqueceste, foi provavelmente a mais importante. Mas chegaste com aquele ar tão miserável, tão envergonhado, que não pude culpar-te. Já passou, o meu coração estava prestes a rebentar, mas tu chegaste, enfim, e já passou.
E como consegues olhar tu daquela forma tão intensa? Olhas para todos como se estivesses fascinado com o que te dizem, como se te fosse um grande prazer estar ali, diante daquela pessoa, conhecendo-a. Cheio de um sentimento que não tens. Mas como é que poderia adivinhar se mo mostravas com tanta força? E não era só para mim, eu perdia-me no teu olhar, era demasiado intenso para mim, mas via-o pousado em todas as outras pessoas. Não sabia distingui-lo. E, novamente, não ouvi esta pista, não escutei aquilo que me dizia, que não era para ti mais nada.E há algo que ainda não se consegue justificar com tudo isto: aqueles gestos que tiveste comigo, aqueles que guardei só para mim. Não foram reacções a algo que eu te tenha feito ou dito porque eu não queria ter chegado onde cheguei, não sabes disso, talvez neste momento julgues que desde o início te quis como naquele momento te fiz parecer. É mentira. Não te queria. Eras apenas uma cara bonita que me entretinha a vista e um rapaz interessante para descobrir. Daí nunca ter querido aproximar-me demais. Mas houve certas coisas que me empurraram. E, algumas delas, foram as tuas atitudes. Não as pedia, mas tu, sempre com o sorriso pendurado, brincavas comigo e eu fiquei sem saber o que pensar. E, ingénua, ouvi o que me diziam. Era praticamente o mesmo que eu já me começara a dizer, mas dito por fora, por outros, parece ser mais credível. O que mais podia eu pensar? Depois de todos os aqueles pedaços de momentos e de todas as bocas (que incomodavam a minha paz e decisão interior), não podia ter dúvidas.
E chegou o dia a que me tinha comprometido. Olhava para ti, umas horas antes, e sabia, não esperava, sabia que seria naquele dia. E, ao longo das horas, fui-te dando a entender. Que parva, detesto ser tão óbvia. Podias ter-te afastado, ter recusado as minhas aproximações. Mas não, nunca o fizeste. Por isso, ainda mais confiante fiquei. E no fim... Tu sabes o que aconteceu não preciso de voltar a dizer. E senti-me tão mal. Não foi culpa tua. Talvez se tivesse evitado, se me tivesses dito mais cedo. Ninguém nos compreende. Todos esperavam que acontecesse. E, provavelmente, muitos deles ainda pensam que aconteceu mesmo. E sorriem, "tão bonitos juntos". Foi isso que me magoou mais no momento. Odiei-me com muita força. Nunca quis passar por aquilo, nunca quis dar motivos a ninguém para dizerem uma coisa daquelas. Tinha acordado comigo isso. Mas não é sobre mim que quero falar, é a ti que quero denunciar.
Muito bem, reagias como te pedia. Não me impedias de me aproximar, fazias-me acreditar que estava tudo bem. Fiz-te, uns momentos antes, uma pergunta que podias ter aproveitado para me mostrares de forma subtil que não era aquilo que querias. Não o fizeste, fizeste-te de desentendido. E depois sorrias enquanto aqueles outros sorrisos embevecidos e amorosos que nos pediam algo que não poderíamos dar me arruinavam a noite. Como explicar-te sem ser pelo facto de não sentires nada por ninguém?!
Mas sabes, algo me leva a crer que tu até sentes. No fundo, és humano e os humanos têm de sentir. Só que, ao contrário de nós, aprendeste a ignorar os teus sentimentos. Não sei como o fazes, mas fá-lo muito bem. Grande auto-controlo. Mas tu já nem sabes que o fazes. Quero acreditar que tu até sentiste alguma coisa por mim (desculpa mas não acredito que aquele olhar fosse apenas fingido, ninguém consegue fingir assim...). Talvez houve algo mais, mas tu, sem saberes, ignoraste completamente isso, não ligaste nenhuma e não deixaste que isso crescesse. Respondeste-me na altura automaticamente, como tinhas previsto responder sempre que alguém te perguntasse isso. Não digo que, se te dissesse isto tudo (sim, porque não tenciono mostrar-te este texto, seria um vexame para mim), tu começasses a tomar atenção a isso que ignoras sem saber. Não, tu não o farias porque faz parte de ti, tu és assim e não vais querer mudar. E, quem sabe, nem sequer tens um décimo do interesse que eu te dei com esta história toda. Provavelmente achar-me-ias histérica e desesperada por arranjar uma maneira de te convencer a gostar de mim. Nada disso, meu caro. Tudo isto é apenas uma forma de me expressar, de dizer as conclusões a que cheguei que podem ser muito falsas. Só precisava de uma justificação. E eu não me importo de inventar uma como esta. No mínimo, fica interessante. E eu, espero, fico mais leve.
Quem diria, hoje estou mais perto de João que de Sofia...
Tu simplesmente não sentes. Estás ausente. Suponho que vivas apenas à espera, mas nem tu sabes de quê. Estás ali apenas porque esperas pelo momento em que te vais embora para outro sitio. Para casa, talvez. Talvez seja ali que tu és preciso, que a tua atenção e vida são necessárias. Penso que esperam muito de ti em casa. E vens para o pé de mim descansar. Mas não sentes nada. Tens de estar preparado para voltar para casa, é aí que podes sentir. Mas, mesmo assim, não sei. Talvez nem sintas em casa. Talvez estejas só presente como te pedem. Andas cansado disso, não é verdade? Deixa, talvez no próximo ano já não seja assim.
E então, como posso eu explicar-te perante o que aconteceu? Foi esta a única forma que encontrei. E eu podia ter desconfiado antes. Sozinho, longe, quantas vezes te vi assim pelo canto do olho. Talvez tenha sido isso que mais me cativou, o olhar distante. Mas depois, se alguém se aproximava sorrias logo, sempre da mesma forma alegre e reagias como se fosse o dia mais alegre da tua vida. E, novamente, quando esse alguém se afastava, caías para longe, como te encontravas antes. Vi isso, reparei, até mesmo comigo eras assim.
É por isto que digo que não sentes nada por nós. Simplesmente reages. Se alguém te sorri, tu sorris de volta. Devolves aquilo que esperam de ti. Como geralmente os rapazes apenas te pedem boa-disposição, é o que lhes dás. Mas não a sentes porque estás apenas à espera de voltar para casa (até porque várias vezes vais a casa num pulo, enquanto ninguém te vê). E como não queres que ninguém te pergunte porque não sorris, não saberias explicar, tu sorris e ninguém te incomoda. Será que reparam em ti? Será que vêm algo atrás do sorriso?
Eu falei contigo uma vez sobre isso, lembras-te?, uma única vez e correu-me tão mal. Nem me respondeste, não disseste nada. Só baixaste o olhar e, sim, estavas com o teu sorriso do costume. Mas havia algo mais e tu sabias que tinhas sido descoberto. Disseste-me algo do tipo "tens razão, não está tudo bem, mas não há nada que possamos fazer". E eu não soube responder a esse gesto. Atrapalhei-me, ao contrário de ti, não sou perita em fazer e dizer o que esperam que faça. Mas fiz com que soubesses, ali, que eu estava contigo e que te tinha visto. Agora, pergunto-me, será que tomaste atenção, será que foste de alguma forma tocado por este gesto? Não, não foste, provavelmente, mal chegaste a tua casa, esqueceste imediatamente o que se tinha passado.
Agora que penso... Sempre tive medo que chegasses a casa e te esquecesses de tudo. Talvez sempre tivesse dentro de mim uma suspeita do que agora tento afirmar. Sempre pensei que em casa não pensasses em nada do que se tivesse passado durante a manhã. Também não sei no que pensarias, isso ainda não descobri, tens de ser tu a dizer-me. E, a única vez que te esqueceste, foi provavelmente a mais importante. Mas chegaste com aquele ar tão miserável, tão envergonhado, que não pude culpar-te. Já passou, o meu coração estava prestes a rebentar, mas tu chegaste, enfim, e já passou.
E como consegues olhar tu daquela forma tão intensa? Olhas para todos como se estivesses fascinado com o que te dizem, como se te fosse um grande prazer estar ali, diante daquela pessoa, conhecendo-a. Cheio de um sentimento que não tens. Mas como é que poderia adivinhar se mo mostravas com tanta força? E não era só para mim, eu perdia-me no teu olhar, era demasiado intenso para mim, mas via-o pousado em todas as outras pessoas. Não sabia distingui-lo. E, novamente, não ouvi esta pista, não escutei aquilo que me dizia, que não era para ti mais nada.E há algo que ainda não se consegue justificar com tudo isto: aqueles gestos que tiveste comigo, aqueles que guardei só para mim. Não foram reacções a algo que eu te tenha feito ou dito porque eu não queria ter chegado onde cheguei, não sabes disso, talvez neste momento julgues que desde o início te quis como naquele momento te fiz parecer. É mentira. Não te queria. Eras apenas uma cara bonita que me entretinha a vista e um rapaz interessante para descobrir. Daí nunca ter querido aproximar-me demais. Mas houve certas coisas que me empurraram. E, algumas delas, foram as tuas atitudes. Não as pedia, mas tu, sempre com o sorriso pendurado, brincavas comigo e eu fiquei sem saber o que pensar. E, ingénua, ouvi o que me diziam. Era praticamente o mesmo que eu já me começara a dizer, mas dito por fora, por outros, parece ser mais credível. O que mais podia eu pensar? Depois de todos os aqueles pedaços de momentos e de todas as bocas (que incomodavam a minha paz e decisão interior), não podia ter dúvidas.
E chegou o dia a que me tinha comprometido. Olhava para ti, umas horas antes, e sabia, não esperava, sabia que seria naquele dia. E, ao longo das horas, fui-te dando a entender. Que parva, detesto ser tão óbvia. Podias ter-te afastado, ter recusado as minhas aproximações. Mas não, nunca o fizeste. Por isso, ainda mais confiante fiquei. E no fim... Tu sabes o que aconteceu não preciso de voltar a dizer. E senti-me tão mal. Não foi culpa tua. Talvez se tivesse evitado, se me tivesses dito mais cedo. Ninguém nos compreende. Todos esperavam que acontecesse. E, provavelmente, muitos deles ainda pensam que aconteceu mesmo. E sorriem, "tão bonitos juntos". Foi isso que me magoou mais no momento. Odiei-me com muita força. Nunca quis passar por aquilo, nunca quis dar motivos a ninguém para dizerem uma coisa daquelas. Tinha acordado comigo isso. Mas não é sobre mim que quero falar, é a ti que quero denunciar.
Muito bem, reagias como te pedia. Não me impedias de me aproximar, fazias-me acreditar que estava tudo bem. Fiz-te, uns momentos antes, uma pergunta que podias ter aproveitado para me mostrares de forma subtil que não era aquilo que querias. Não o fizeste, fizeste-te de desentendido. E depois sorrias enquanto aqueles outros sorrisos embevecidos e amorosos que nos pediam algo que não poderíamos dar me arruinavam a noite. Como explicar-te sem ser pelo facto de não sentires nada por ninguém?!
Mas sabes, algo me leva a crer que tu até sentes. No fundo, és humano e os humanos têm de sentir. Só que, ao contrário de nós, aprendeste a ignorar os teus sentimentos. Não sei como o fazes, mas fá-lo muito bem. Grande auto-controlo. Mas tu já nem sabes que o fazes. Quero acreditar que tu até sentiste alguma coisa por mim (desculpa mas não acredito que aquele olhar fosse apenas fingido, ninguém consegue fingir assim...). Talvez houve algo mais, mas tu, sem saberes, ignoraste completamente isso, não ligaste nenhuma e não deixaste que isso crescesse. Respondeste-me na altura automaticamente, como tinhas previsto responder sempre que alguém te perguntasse isso. Não digo que, se te dissesse isto tudo (sim, porque não tenciono mostrar-te este texto, seria um vexame para mim), tu começasses a tomar atenção a isso que ignoras sem saber. Não, tu não o farias porque faz parte de ti, tu és assim e não vais querer mudar. E, quem sabe, nem sequer tens um décimo do interesse que eu te dei com esta história toda. Provavelmente achar-me-ias histérica e desesperada por arranjar uma maneira de te convencer a gostar de mim. Nada disso, meu caro. Tudo isto é apenas uma forma de me expressar, de dizer as conclusões a que cheguei que podem ser muito falsas. Só precisava de uma justificação. E eu não me importo de inventar uma como esta. No mínimo, fica interessante. E eu, espero, fico mais leve.
Quem diria, hoje estou mais perto de João que de Sofia...
terça-feira, março 08, 2005
"Depois de dois copos de vinho, despedi-me do candeeiro invejando a sua sorte, estaria para sempre só. Excepto os ocasionais bêbados, nunca ninguém lhe faria juras de amor, nunca ninguém o abraçaria,... Ficaria para sempre sozinho na noite com a sua luz."
SILVA, Sofia. Auto-retrato de um aborto, romance. Lisboa: Escritor, 2002.
...hoje não consigo dizer nada sobre o livro...
SILVA, Sofia. Auto-retrato de um aborto, romance. Lisboa: Escritor, 2002.
...hoje não consigo dizer nada sobre o livro...
sexta-feira, março 04, 2005
Não sei porque se riem. Certamente não teve piada. Ninguém pode achar engraçado um triplo homicidio e um suicidio. São muitas mortes. Uma só já seria insuportável. Não, não te podes rir. Estando de fora pode parecer ridiculo, uma aldeia de cinco habitantes com tanta morte, mas não é caso para rir. Se parássemos para pensar, para imaginar o que estaria por detrás do acto desesperado daquele homem, talvez não nos atreveriamos a rir. As aldeias têm histórias fantásticas. Bem mais humanas, mais reais do que as que alguma vez poderão acontecer numa cidade como esta, onde ninguém sabe os nomes dos vizinhos que tem. As rugas dos velhos das nossas pequenas aldeias são bem mais fundas e mais sofridas que as nossas. São rugas merecidas, são troféus, vitórias sobre o tempo, sobre a própria vida. E, para esta gente, a morte não é algo tão puritano, tão imaculado como para nós, eternamente medrosos. Eles conhecem-na bem, sabem ao que cheira. Sabem perfeitamente o que é e porque existe. E não depende da sua religião, depende apenas das suas vidas. Queremos o mundo todo só para nós, enquanto eles são mais verdadeiros pois todo o mundo que pretendem, está ali. E nós rimo-nos. Idiotas, sim, não sabemos o que é a vida. Idiotas por acharmos feios aqueles velhos e velhas, desmanzelados, sem qualquer noção de moda ou estilo. Feios.
Não nos podemos rir. Não consigo imaginar o que aconteceu e porque aconteceu. Até porque li apenas esta notícia no rodapé apressado de um dos intermináveis tele-jornais que davam na televisão. Apenas isto, que, numa aldeia de cinco habitantes, tinha havido um triplo homicidio e que o homem se tinha matado no fim. Que engraçado, deve ter ficado apenas um na aldeia. Se calhar era o padre. Ah, ah! Caluda, aquele mundo não é o nosso. Não brinques com aldeões. Porque tu não os conheces mas eles sabem perfeitamente o que corre nessa tua cabecinha. Mas nunca vou conseguir saber o que se passou entre os habitantes daquela aldeia para que algo tão insólito acontecesse. Aqueles olhares, aquelas faces sem sorrisos falsos, as rugas, o cansaço, as mãos gretadas, a roupa negra... Admiro-os e gostava de os conhecer. Já os tenho visitado, certos livros apresentaram-me a este mundo fantástico, mas não se compara.
Eles conhecem a vida, a dor, a morte. Eles Vivem. E nós... rimo-nos (giggle) .
sábado, fevereiro 26, 2005
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
Os poemas não deviam ser lidos em voz alta nas aulas de português. Detesto ouvir alguém sem o minimo de sensibilidade e interesse a ler um poema ou um texto lindíssimo. Até o próprio professor por vezes não consegue ler em condições. São raras as pessoas que conseguem ler um poema de maneira a se interiorizar a mensagem e o sentimento que o poeta quis transmitir quando o escreveu. Não respeitam as pausas, não dão enfase nas passagens mais intensas, não se consegue distinguir pela entoação uma conversa banal de um texto literário respeitável. Faz-me comichão, o que querem que diga?, não quero perder a magia de um texto por causa de uns meninos e professores que não conseguem compreender toda a sua beleza e que não se importam de a arruinar. Eu também não sei ler poemas, daí ficar calada, apesar de, por vezes, acreditar que leio muito melhor do que eles... insensíveis.
Sim, já estou mais aliviada, obrigada.
Sim, já estou mais aliviada, obrigada.
sábado, fevereiro 05, 2005
Ring ring ... ring ring ... [atende] ring ring ... ring ring ...
- Estou sim?
- ...
- Laura, és tu?
- ... Já me reconheces a respiração?
- Não. Mais ninguém me telefona a estas horas e se contenta em ficar em silêncio.
- Pois, acredito. Desculpa lá, mas ... precisava de ouvir alguém.
- E o que se passou agora?
- Nada. Estou sozinha, é só isso.
- E... vais dizer mais alguma coisa? Ou o queres que te diga?
- Podias contar-me uma história...
- Laura... São duas da manhã, acordaste-me com o telefonema e agora queres que te conte uma história?!
- Deixa estar, então.
- Vai-te deitar. Até amanhã.
[click] piiiiiiiiiiiiiiiiiii
- Só precisava de ouvir a voz de alguém, saber que há alguém acordado sem ser eu, que não me deixaram sozinha a ouvir estes sons da noite. Pensava que estavam todos a dormir e que só acordariam depois destes zumbidos que me aterrorizam se calarem - como não os ouvem, dormem perfeitamente -, mas eu deixei-me ficar tempo demais acordada. E agora, não consigo adormecer. Mas agora que te acordei, sei que não vou ser a única a ouvi-los e que não estou sozinha na noite. Talvez agora percebas. Mas... já me deixaste de ouvir.
- Estou sim?
- ...
- Laura, és tu?
- ... Já me reconheces a respiração?
- Não. Mais ninguém me telefona a estas horas e se contenta em ficar em silêncio.
- Pois, acredito. Desculpa lá, mas ... precisava de ouvir alguém.
- E o que se passou agora?
- Nada. Estou sozinha, é só isso.
- E... vais dizer mais alguma coisa? Ou o queres que te diga?
- Podias contar-me uma história...
- Laura... São duas da manhã, acordaste-me com o telefonema e agora queres que te conte uma história?!
- Deixa estar, então.
- Vai-te deitar. Até amanhã.
[click] piiiiiiiiiiiiiiiiiii
- Só precisava de ouvir a voz de alguém, saber que há alguém acordado sem ser eu, que não me deixaram sozinha a ouvir estes sons da noite. Pensava que estavam todos a dormir e que só acordariam depois destes zumbidos que me aterrorizam se calarem - como não os ouvem, dormem perfeitamente -, mas eu deixei-me ficar tempo demais acordada. E agora, não consigo adormecer. Mas agora que te acordei, sei que não vou ser a única a ouvi-los e que não estou sozinha na noite. Talvez agora percebas. Mas... já me deixaste de ouvir.
Eu vou buscar-te. Não, deixa estar, eu quero. Tenho estado ausente, tenho consciência disso, mas quero que saibas que, apesar disso, continuo aqui e continuas permanentemente em mim. Estive longe mas levei-te comigo, desculpa-me se não te deixei um pedaço meu. E agora que voltei, vejo-te de olhos caídos, de esperança adormecida, de forças adiadas. E sinto-me em parte culpada por isso, não interessa o que digas. Se não me tivesse ausentado por coisas tão desinteressantes e cansativas decerto não te tinha deixado descer tanto, teria dado o braço muito mais cedo. Por isso, hoje, vou buscar-te e vou levar-te para longe do teu quarto. Vamos sair, apanhar ar, ouvir a água da noite e a aurora da manhã. Vais esquecer a minha ausência e a tua ilusão, pode ser? Então vamos antes que se faça tarde e te arrependas de sair comigo.
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