sábado, março 13, 2004

21 Gramas


"They say we all lose 21 grams
at the exact moment of our death...
everyone.
The weight of a stack of nickels.
The weight of a chocolate bar.
The weight of a hummingbird..."

Ontem foi ver o filme "21 Gramas". Não foi dos filmes que mais me tocou e que mais me marcou mas, sem dúvida, fez-me pensar muito. Especialmente, na fragilidade da vida. Jovem como sou, tenho tendência natural para pensar que sou imortal. Sou nova, ainda tenho muito que viver, nem sinto o cheiro da morte passar por mim. Não perdi ainda pessoas muito chegadas. Provavelmente ainda não compreendi o conceito de morte muito bem.
Há uns dias atrás, estava deitada já, à espera de adormecer, quando o meu coração decidiu assustar-me. Acelarou muito, durante meio segundo e quando parou ficou uma sensação esquisita no coração como se preparasse para o fazer outra vez. E, provavelmente pela primeira vez na minha vida, senti que ia morrer. Senti que me iria acontecer alguma coisa durante a noite e que só me encontrariam no dia seguinte já morta. Mas não foi o facto de só me encontrarem de manhã que me perturbou. Foi o facto de não viver o dia seguinte. O facto de deixar tanta coisa por fazer. De a minha vida acabar ainda antes de eu ter feito alguma coisa com ela. Foi uma sensação terrível. A morte olhava para mim, sorria, e perguntava-me sarcasticamente se me sentia invencível. E mostrou-me como iria recordar o dia seguinte. O dia que já não iria viver. Era negro, era vazio. Era nada. Não o conseguia imaginar. Eu não o viveria. Mas o tempo não iria parar e todos os outros vivos continuariam a enfrentar as horas.
Sou muito nova e ninguém espera que eu morra durante a noite. Assim como ninguém espera morrer aos 20, ou aos 30, ou aos 40, durante uma conversa animada, durante o sono, durante um jogo de futebol, durante um sorriso. Só esperam morrer quem se sente doente. Só os doentes parecem ter direito a sonhar com a morte. Só os doentes é k têm o direito de a imaginar.
Neste filme o que mais me marcou foi a viúva (peço desculpa a quem não viu o filme). Como é que uma mulher jovem como ela poderia resistir à perda de um marido querido e amado e de duas filhas ainda tão pequenas por atropelamento? Quem é que pode compreender? É ela que diz que a vida não continua. Como seria possível continuar? A vida é tão fragil, pode-se perder num segundo apenas. E esta mulher, momentos antes de saber que o seu marido e as suas filhas estão mortas, ouve no seu telemóvel, com um sorriso carinhoso, uma mensagem do seu marido a dizer que está a caminho de casa, para lhe telefonar se for preciso, ouve-o até repreender uma de suas filhas por se estar a meter com um pombo. E ela sorri. Adora a sua família. Vive para ela. Ama-os tanto. E, descansada, desliga o telemovel e espera pelo regresso deles. Mas o telefone toca. E a sua vida parou.
Tudo isto para dizer como me doeu saber que aquela mulher que era tão feliz, que se estava a reconstruir, perdeu de um momento para outro as três pessoas mais queridas, sem qualquer razão, sem qualquer aviso. Tão frágil a vida, tanto dos que foram como a dos que ficaram.
21 gramas... É isso que valemos?

terça-feira, março 09, 2004

Dream Brother

there is a child sleeping near his twin
the pictures go wild in a rush of wind
that dark angel he is shuffling in
watching over them with his black feather wings unfurled

the love you lost with her skin so fair
is free with the wind in her butterscotch hair
her green eyes bloom goodbyes
with her head in her hands and your kiss on the lips of another
dream brother
with your tears scattered round the world.

don't be like the one who made me so old
don't belie the one who left behind his name
'cause they're waiting for you like i waited for mine
and nobody ever came

i feel afraid and i call your name
i love your voice and your dance insane
i hear your words and i know your pain
your head in your hands and her kiss on the lips of another
your eyes to the ground
and the world spinning round forever

asleep in the sand with the ocean washing over



Jeff Buckley

terça-feira, março 02, 2004

O Tempo é uma coisa engraçada. E assustadora para quem pensa nele. Hoje vou propor uma brincadeira. Que nem tem muita piada mas enfim... Vamos pensar nos nossos amigos, mas não ao nosso lado. Vamos imaginá-los em casa, com os pais, a jantar. Focalizem uma pessoa (eu não... assim não vale!) e imaginem.
O Fulano está sentado à mesa (se conhecerem a casa dessa pessoa, melhor). Tem os pais ao pé, e o irmão à frente. Imagina também o que estão a comer. E agora, o Fulano falou. O que ele disse? Imagina uma conversa entre ele e os pais. O que achas que ele diria? Qual seria a reacção dos pais? Espera! Como achas que o Fulano e os pais se dão, a sua relação? Se calhar não consigo transmitir o valor desta imagem. Tu conheces uma pessoa quando está contigo. Sabes as suas reacções a ti e ao teu grupo. Achas que essa pessoa é igual quando está em casa? A sua relação com os pais será igual à que tem contigo? As reacções, as respostas, serão dadas com o mesmo tom, o mesmo significado, a mesma intensão? Provavelmente não. E eu suponho que seja importante este tipo de "imaginação" para tentar saber.
Continuando o nosso jantar com Fulano... Imaginemos agora uma discussão. Primeiro que tudo, temos de arranjar um motivo. Ou será que Fulano discute sem motivos?... Quais seriam as reacções, as respostas, o volume da voz de Fulano? E já agora, dos pais e do irmão? Pronto, já chega de discussão (como será que se acalmaram?), vamos para outro ponto da casa. O Fulano está a ver televisão com o irmão, talvez, vamos supor. Qual será a posição do corpo? Que canal estará a ver? Será que vai brigar com o irmão pelo comando? Ou pelo jogo? Ou mesmo pelo lugar?!
(Para os mais criativos, podem imaginar o fulano na casa de banho... a fazer o que todos temos de fazer e que não deveria ser embaraçoso mas é...)
E agora, finalmente, vamos imaginar a parte mais importante. Vamos imaginar Fulano sozinho. Porque é que é importante? É importantissimo! É quando uma pessoa é realmente ela própria. Pensem em vocês e digam-me, pronto não a mim, mas a vocês, são totalmente iguais quando estão sozinhos e quando estão acompanhados? Nunca fizeram nada sozinhos que teriam muita vergonha se alguém vos visse? Não digo que estejam arrependidos, até porque há certas coisas que naturalmente devemos fazer com privacidade. Mas... serão a mesma pessoa? Imaginem agora,os vossos amigos, os vossos conhecidos, em casa, sozinhos. Pensas que sabes exactamente o que Fulano faz quando está sozinho no quarto? E imaginas o que ele pensa antes de adormecer?...

Apesar de tudo o que eu disse, o melhor é não imaginarmos ninguém. É invadir a sua privacidade, mesmo que seja só imaginação...

segunda-feira, março 01, 2004

A Manhã - Parte II

Talvez agora possa adormecer. Deslizo pela banheira e mergulho a minha cabeça, os meus cabelos, dentro de água. Pronto, não me moverei mais. Assim, sem respirar, sem poder respirar, e sem sentir necessidade disso, vou adormecer. Finalmente, o sono eternamente pacífico que custava a vir. Terei coragem para permanecer debaixo de água? O meu corpo não me pede nada, deixa-se estar assim, parado, a morrer calmamente. Parece que estou a sorrir, por tão obediente, mas não sei, já não sinto nada. Como a morte pode ser doce. E agora vou deixar de pensar para acabar com isto de uma vez. Adeus…adeus… água…

Cobarde! Cobarde! Mal sentes a cabeça a latejar e os pulmões a contrair, mal te sentes a implodir, a fugir, desistes, e agora, cobarde, debruçada para fora do teu destino, fora da banheira, tosses tuberculosa, tanta força para expulsares de ti toda a água que te envenenava, juntamente com a expectoração da doença que julgaste ter passado. Vem tudo atrás, sim, o escarro negro do alcatrão que o tabaco te impôs nos pulmões. Que nojo! Nojenta! Sou nojenta! Odeio-me! Afinal o que estou a fazer?! Suicidar-me só porque preciso de descansar? Sem razão, sem motivos. E lá fora, no quarto, dorme a minha melhor amiga que jamais sorriria como ela sorri se me matasse. Ela não merece, eu não mereço. Não me mereço, não mereço este corpo, este corpo não me merece, que ódio a este corpo feio e fraco que me prende, que me aprisiona à vida e ao mesmo tempo não me deixa sentir. Pedes-me demasiado, Corpo, e não me dás nada de volta. Odeio-te e quero fazer-te sofrer, novamente. Com estes olhos que me cegam, procuro o cigarro inacabado que deixei cair enquanto me enojava. Lá está, vês, Corpo?, espera que já o sentes! Com esta mão que me prende, vou alcançar o cigarro e sem hesitar vou fundir-te, Corpo, àquelas cinzas ainda ardentes. Ah, já sentes?! Pede-me agora alguma coisa! Cala-te! Deixa-me viver, liberta-me. Ou liberta este peso que me consome. Ardes! Assim como todas as outras marcas que tenho no braço, parecem rugir contigo num piedoso “Pára…” E eu paro, porque também me castigas. O teu braço, Corpo, esconde-o dentro de água onde ainda te arderá a pele durante um bom bocado. Eu, eu vou dar uma ultima passa no cigarro já apagado mas não… não consigo, largo-o para o canto entre a banheira e o armário e volto a ti, Corpo. Contorcemos sobre nós, arde ainda, tanto, sua parva, não o devia ter feito, desculpa. Eu sei… digo sempre o mesmo e repito o ritual pouco tempo depois. Desculpa, Corpo, tens que perceber, preciso de me aliviar desta dor. Dói-me por dentro, tanto, sabes disso não sabes?, preciso trocar dores. E assim, sinto. E sabes como preciso de sentir. Arde-me, mas sinto-me dependente deste ardor. Tenho de deixar-me disto, eu sei. Tenho que fazer as pazes comigo própria, desculpa-me. Tenho de me lavar… lágrimas…
Choro? Sim, estou a chorar. Que vergonha, detesto chorar. Mas preciso. Hoje vou deixar as lágrimas correr e enquanto isso, vou embalando-me para me acalmar. Fraca, fraca… fraca… Pronto, já passou, chora tudo e não deixes voltar.
Abraçada a mim própria, sentada na banheira com água, balanço-me, procuro consolar-me, enquanto os músculos da minha cara se contorcem e disformam. Os meus olhos estão tão cerrados de vergonha que as lágrimas parecem não conseguir sair. Um gemido tímido corre pela minha boca entreaberta. Choro por todo o meu corpo, não o vou evitar. O nó sempre presente que me sufoca a garganta precisa de ser libertado e agora é o momento. Chorarei tudo. Sairá tudo de mim. Lavarei toda a sujidade da minha cabeça, todo o meu negrume se dissolverá nesta água que me rodeia e que nunca mais me tocará. Preciso deste escape. Tudo o que me pesa fugirá de mim nestas lágrimas que se juntam ao banho.
Aos poucos, a minha face parece voltar à sua forma original, os músculos vão relaxando, vou-me esvaziando e acalmando-me. Já só os olhos se encontram cerrados, ainda lacrimejando mas parece que são já as últimas lágrimas. Lentamente, recosto-me na banheira, ainda agarrada ao meu braço, já não arde, não, mas a marca ficou lá. Respiro fundo três vezes, como a minha falecida avó me ensinou, para terminar o choro. Mantenho os olhos fechados.
Pronto, já passou. Vou agora ficar aqui só mais um bocadinho até me sentir confortável o suficiente para voltar ao tempo. A água ainda me beija, ainda me lava, ainda me acalma. Diz-me para descansar um pouco, agora que estou mais leve, diz que se encarregará de exterminar aquelas lágrimas, aquelas cinzas, aquela imundice. E eu relaxo os músculos da minha testa e tento sorrir, um sorriso amarelado, e agradeço à água. Felizmente ela esquece aquilo que se passou, quem me dera esquecer também. Mas não vou recordar, vou agora simplesmente descansar mais um pouco…
Começo a tremer. Só agora reparo que a água está fria. Aqui parada é natural que comece a ter frio. Tenho que sair do banho, já chega. Abro os olhos e só agora, olhando para o tecto branco por cima de mim, sinto a dor de cabeça que me trouxeram as lágrimas. Devagar, por causa das tonturas que esta dor me pode dar, levanto-me e saio da banheira. Automaticamente, alcanço a toalha que se encontra pendurada atrás da porta. Seco o meu rosto e, em seguida, o pescoço, os braços, o tronco, as pernas e, por fim, enrolo a toalha à minha volta. Quando me viro para alcançar a toalha do cabelo deparo-me comigo no espelho. Continuo pálida. Mas agora tenho os olhos muito inchados, as olheiras bem fundas e negras e o braço vermelho. O espelho olha-me com repreensão. Desvio o olhar, não lhe vou responder, também não me orgulho do que aconteceu à bocado. Não vou voltar a para admirar a minha fealdade, só me deprime e não quero que isso volte a acontecer.
Enquanto enxugo o cabelo, tenho a cabeça inclinada e observo a banheira onde estive. Só eu sei o que ali se passou. Eu e ela, e estas paredes. Mas, apesar disso, a banheira parece pouco se importar; ainda com a água e lágrimas, está tão calma, serena, parada. Será que aconteceu mesmo? Ah, sim… ali está o cigarro, não me posso esquecer de o enviar pela sanita para que a minha companheira não descubra.
Enrolo, por fim, a toalha à cabeça com o jeito que sempre faço. Tiro a tampa da banheira e a água começa a desaparecer pelo buraquinho. Pego no cigarro como se não fosse meu e atiro-o para a sanita, puxando imediatamente o autoclismo. Sem me deter, visto a roupa interior enquanto oiço a água a fugir pelo cano. Visto o roupão e ainda observo as últimas gotas a caírem pelo ralo da banheira. Adeus, Momento. Pego no pijama suado e preparo-me para sair da casa-de-banho. E, só agora, me detenho.
Com a mão no puxador e a roupa no outro braço, paro, por momentos. Vou voltar. Vou viver. Quando abrir esta porta a frescura desta manhã vai entrar aqui, vai cheirar-me, o tempo vai voltar a andar e eu vou voltar a viver. Como se estivesse a representar um grande filme de cinema, rodo devagar o puxador e vou abrindo a porta. Sinto-me como estivesse a deixar o local de um crime cometido por mim. Um crime hediondo e incompreensível. E cada vez se torna mais incompreensível, até para mim, ao abrir a porta da casa-de-banho.
A janela do fundo do corredor ilumina-o. Tanta luz, tanta vida mas paredes estáticas. Ao sair da casa-de-banho sinto o cheiro da manhã. Fresco. Doce. Agradável. Era até capaz de me pôr a sorrir. Como poderia eu não querer viver esta manhã que se apresenta tão bela? É tão bom estar viva.
Chego ao quarto entretida com estes meus pensamentos. O rádio está ligado, oiço uma música muito simples e muito agradável. Ideal para uma manhã aparentemente tão doce. O despertador supostamente desperta, mas esta musiquinha não consegue acordar ninguém, muito menos a minha companheira.
Atento agora nela. Ainda está na mesma posição desleixada de à bocado. Nada mudou no quarto. Apenas chegou mais luz e a música entrou. Em todo este descanso, sinto-me a mais. Olho para ela. Se soubesses o que aconteceu… perdoar-me-ias? Mas ainda bem que não sabes. Assim, é como se nunca tivesse acontecido. Assim, voltarás a sorrir-me e voltarás a mandar-me das tuas piadas e bocas criticas mas carinhosas.
Mas aconteceu. E isso vai-me atormentar durante uns tempos. Não foi só hoje, pois não?! Já não é a primeira vez que o faço e tenho sempre vergonha. Mas não deixo de o repetir. Tenho que me sentar. Na ponta da cama, de frente para a janela iluminada. Não o posso repetir, não me posso voltar a humilhar a este ponto. Acho que preciso de ajuda. E preciso de me perdoar. E, para isso, preciso de parar. Não o devia ter feito. Mas agora está marcado.
Ainda me dói a cabeça, já pouco mas dói. Preciso de descansar. Parece que o cansaço e o sono voltaram. Antes de me vestir vou só deitar-me aqui um bocadinho, vou descansar a cabeça. Não, não vale a pena pôr-me debaixo dos lençóis, é só um bocadinho, se calhar nem durmo, é só fechar os olhos. Estou cansada…
Deito-me sobre a cama, agarrada ao braço. E no preciso momento em que adormeço, a minha companheira acorda do seu doce sonho.

FIM

PS: Aconselho a leitura deste texto ao som da música Caramel de Blur. E, se possível, o momento 3min e 50 s da música estar no momento da pausa, dos dois parágrafos seguidos (depois de “Adeus…água…” e antes de “Cobarde! Cobarde!”) … Se não conseguir ler tão depressa (o que é muito provável…) é favor parar a música até chegar a esse momento porque se não não se sente o que se deveria sentir na altura...

domingo, fevereiro 22, 2004

A Manhã - Parte I

Acordei. De um grande pesadelo, suponho, porque estou enchardada em suor. Sento-me na cama como a descansar da noite, à espera que o meu coração acalme e que esfrie o meu corpo. Respiro fundo.
Assim sentada, olho pela janela à minha frente. É daquelas janelas grandes que vão desde o chão até quase ao tecto. São optimas para deixar a luz entrar no quarto suado e para nos aliviar o espaço fechado destas quatro paredes. Mas hoje, neste momento, ainda não transborda muita luz. Deve ter amanhecido há instantes. Oiço ainda pequenas gotas de àgua pingarem sobre o parapeito, fazendo-se soar. Nada melhor que o som do orvalho, da ultima chuva para acalmar o coração que pulava. Levanto-me e vou até à janela. Espreito para a rua, onde passa um carro apenas e tudo parece estático. O chão molhado mas de uma doçura tão fresca como a manhã. Os tons laranja que o Sol traz são a unica vida que vejo.
Atento agora no meu quarto. A um canto, a minha companheira ainda dorme na sua cama. Invejo-lhe a paz, a serenidade... os sonhos bons. Até a posição desleixada com que dorme, metade do corpo fora do lençol, de boca aberta e ocupando bastante espaço. Faz-me sorrir. Somos tão diferentes mas é essa mesma diferença que nos aproxima. É bom chegar a casa e não ter de enfrentar os olhares apodrecidos das paredes, as faces palidas da familia que se julga idela. Eu não mudei mas sinto-me mais leve sem ter de enfrentar todos os dias a desilusão da minha família. Pelo menos, a minha companheira é boa amiga e faz-me sorrir. Algo que por vezes pode ser bastante difícil. Somo agora... Agora que acordei e estou sozinha, porque todo o Mundo ainda dorme.
Olho agora para o resto do quarto, como se o visse pela primeira vez. Uma cómoda ao lado da janela com uma gaveta entreaberta e uma manga branca a espreitar para fora. Em cima, uma imensidão de frascos e frasquinhos, perfumes, desodorizantes, cremes, lacas, "gel"s . E mais uma quantidade de maquilhagens espalhadas, como se alguém tivesse fugido no momento em que se arranjava. Um roupeiro junto à minha cama, fachado, escondendo talvez a pele de alguém. O chão alcatifado com rascunhos, apontamentos, esquemas e auxiliares de memória espalhados pelo vento da respiração do estudo. Tudo isto... é o dia de ontem. Se avaliar cada pormenor com atenção posso descobrir tudo o que se passou ontem e em que momento a minha companheira adormeceu. Todos estes objectos ficaram presos nesse momento. E eu acordei umas horas depois...
Tentando não pisar muitos dos papeis aparentemente desorganizados no chão, saio do quarto e vou para a casa de banho. Sinto-me bastante incomodada com a roupa colada ao meu corpo pelo suor do sonho. Preciso de um banho... Preciso não só de me limpar da imundice dos meus lençois mas também da sujidade da minha cabeça. E é no banho que me refugio, que me encontro e me volto a perder. E tenho tempo para o fazer outra vez, o sono foi-se e o dia mal chegou.
Enquanto a água enche a banheira, dispo-me lentamente. Olho de relance para o espelho mas tenho de para e voltar a olhar... Estarei viva? Todo o meu corpo está palido e magro, os meus olhos ainda estão inchados da noite anterior (felizmente, sei chorar em silêncio), os meus lábios finos estão esbatidos, as minhas palpebras estão pesadas, o meu cabelo está... louco, será talvez a melhor palavra. Fito-me por momentos, como confrontando-me com a vida. Mas depressa desisto de procurar alento naqueles olhos vazios.
Vagarosamente, vou entrando na banheira. Já não sei entrar a outra velocidade. Gosto de sentir a água a envolver-me aos poucos, a engolir cada pedaço de pele do meu corpo e a sugar-me a sensação de sujidade. E acalma-me, a paz da água, fresca, convida-me a acomodar-me, a sentir-me em casa, de volta a casa, de volta ao útero de minha mãe. Bem, mãe biológica porque não tive outra. E nem vou vaguear sobre isso agora, não é o momento. Encosto-me já confortável e sem peso no meu banho e fecho os olhos, saboreando. Não sei quanto tempo assim fico, simplesmente saboreando, mas não me interessa, o tempo parou e preciso de sentir esta liberdade momentânea. É estranho, chamar-lhe liberdade, mas é o que eu sinto, é o peso do meu corpo que se afoga nesta água, só me pesa a cabeça, nada mais. É libertador.
Apetece-me um cigarro... Felizmente, ainda tenho alguns no maço que escondo naquele canto entre a banheira e o armário. Eu sei, devia deixar, mas não tenho muita facilidade em deixar vícios... Acendo o isqueiro com alguma dificuldade e, por momentos, escassos, admiro o poder da chama. Chamou-me outra vez mas não, hoje não a vou apreciar mais. Acendo o cigarro e dou a primeira golfada... É uma sensação estranha para mim, sentir um fogo a entrar-me pela garganta adentro enquanto a água me beija o corpo. Mas sabe-me bem. Recosto-me novamente na banheira, fecho os olhos e sinto.
Preciso de sentir. Os dias passam, as horas passam, e eu não as sinto passar. Preciso de viver, de me sentir viva. E esta angústia de viver pesa-me muito. Um negrume dentro de mim que me vai consumindo. Eu luto, a sério que luto, contra este aperto, até porque não imagino o que seria de mim se não o fizesse. Poderia rebentar, talvez. É difícil, por vezes, aguentar o peso sem procurar aliviá-lo. E pior é não encontrar maneiras melhores de o fazer. Devia gritar, mas não tenho voz nem coragem de o fazer, poderiam ouvir-me e fechar-me num quarto pequeno onde a loucura me faria finalmente companhia. Devia correr, mas não tenho forças nem vontade de me mover tanto. Devia falar, mas a libertação das palavras iria prender-me à confusão e à angustia de quem ouviria tais negros ditos. Às vezes pergunto-me se não haverá outra solução. Decerto haverá mas é difícil acreditar, quanto mais encontrá-la. Suponho que esteja doente. Não só de corpo, já tão fraco e sem razão, mas também de espirito, igualmente sem razão para estar fraco. Não sei porque estou assim. Não me aconteceu nada. Nada... se calhar foi essa mesma inexistência de coisas alguma. O cansaço constante, os pesadelos, o suor, as insónias, os olhares. Tudo parece sem significado, sem qualquer origem obvia. Mas o que é facto é que estão cá, sempre presentes. E eu preciso de aliviar. Preciso de descansar. Preciso de esquecer, deixem-me um momento só, por favor, só agora, neste banho, nesta manhã eterna em que o sol se esqueceu de terminar o seu sono. Pode...? Obrigada... estava a precisar desta paz.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Afinal, nem tudo o que escrevo vale a pena ser lido...

sexta-feira, janeiro 23, 2004

O tempo... tem-me assaltado ultimamente. Voltaram as questões sobre o tempo, a sua essência e existencia. E há muito que debater e explorar.

Estou sentada nas escadas a olhar a parede. Espero que algo aconteça. E é aqui que me pergunto.. O tempo estará a passar? Que pergunta.. claro que sim, o tempo não pára, o tempo não espera por nós, porque haveria de parar neste momento?! Mas.. o tempo não passa numa fotografia, pois não? A fotografia é uma captação de um momento, um instante. Quando olhamos uma fotografia, vemos um instante, não é um segundo ou um milésimo de segundo porque não há qualquer acção, nada se move, está tudo parado naquele momento. Roubámos ao tempo um momento. É claro que o papel em que está impressa a fotografia, ou o monitor em que vemos a fotografia vão envelhecer, vão passar pelo tempo. Mas o conteudo.. é sempre um momento que foi roubado, foi parado ali. E eu, neste momento, olho uma parede e nada de move.. estarei presa numa fotografia? E o som? Também não oiço nada. Será que parei mesmo no tempo? Quem me garante que estou a envelhecer agora, aqui sentada? Posso muito bem perder-me nos meus pensamentos e jamais acordar porque não há nada nesta realidade que me chame a atenção.
Acontece-me tanta vez, perder-me em mim num local estatico. Especialmente quando acordo de manhã. Quando o inconsciente ainda nos dirige umas palavrinhas, quando não queremos deixar de sonhar e inventar pensamentos. Nessas alturas, quando me levanto automaticamente e me dirijo para a casa de banho, entro num espaço tão parado que poderia voltar a adormecer dentro de mim. Não sinto o tempo a passar. Não me movo durante.. não sei bem.. dez minutos(?) sem me aperceber que estou acordada e que não estou a fitar as minhas palpebras fechadas. Isto porque nada se move. Uma fotografia. Um momento. Talvez passados esses minutos, lá ganhe coragem para acordar efectivamente para a realidade e começar a preparar-me para um novo dia. Mais umas horas, mais um tempo.

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Passeava agora pelo monitor do meu computador. Depois de um episódio nada alegre do "As If", depois de martirizar-me com pensamentos estranhos, depois de todas as horas que tenho enfrentado, encontro um botão, no monitor do meu computador, que me diz "Help". Instintivamente, penso em carregar no botão com a setinha que controlo... Depois acordo...
"Ainda tenho de enfrentar as Horas"

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Soneto

Que o fogoso Sol deixe de brilhar;
Que o longo Rio se esqueça de nascer;
Que a Criança apenas deseje morrer;
Que o Mundo pare e deixe de girar;

Que a Canção não sirva para embalar;
Que o Sorriso não saiba mais prender;
Que o Coração não consiga bater;
Que o lindo Sonho se recuse a voar;

Enfim, que Tudo perca o seu valor
Se a minha leda chama não viva
Mais por tua felicidade, mas dor.

E, que com Tudo se vá o meu furor
Se com esta sincera tentativa
Não conseguir traduzir o meu Amor.